A transição energética e a disparada da demanda por metais

Por Itaú BBA

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A eletrificação da economia vem acelerando, no Brasil e no mundo, especialmente nos transportes e nos processos industriais. A participação da eletricidade no consumo final de energia, globalmente, deve saltar de 24% para 30% entre 2024 e 2030. O Brasil está próximo da média internacional e a China já chegou a 28%Esse mundo novo precisa de muito mais metalA economia circular tem papel garantido na conversa. Mesmo as projeções mais comedidas, como as do Banco MundialUma análise da Systemiq para 2035, divulgada pela Fundação Ellen MacArthur, alerta para o distanciamento crescente entre oferta e demanda nos casos de cobalto, níquel, cobre e lítio. No caso do cobre, até 2040 essa lacuna pode chegar a 24%, mesmo que o volume de reciclagem dobre, segundo um relatório da S&P.

No Brasil, o mercado de sucata de metais já tem grande porte. Trata-se de uma cadeia estruturada, mas com muito espaço para novos empreendimentos, ganho de produtividade, aprimoramento de gestão e implementação de tecnologia com fins variados, da rastreabilidade aos processos industriais.

Os investimentos no setor contam com o impulso da Lei de Incentivo à Reciclagem, regulamentada em 2024. No cronograma atual, o governo federal recebe até julho de 2026 propostas de negócios que contribuam com menor geração de resíduos, maior reutilização de materiais e promoção de benefícios ambientais, sociais e econômicos da circularidade. As propostas contempladas têm acesso a linhas de financiamento especiais - o ciclo 2025 contemplou 952 projetos, que pleiteavam R$ 2,2 bilhões.

O bom funcionamento dessa cadeia depende de ao menos quatro etapas, assumidas por diferentes atores, incluindo cooperativas de coleta, centros de triagem, recicladoras industriais e fundições:

  • Coleta: recolhimento do material pós-uso comercial ou doméstico, em diferentes estados de pureza e limpeza. A presença de ferrugem ou polímeros altera os preços de venda para a etapa seguinte da cadeia, mas não impede a reciclagem. Vem ganhando importância a recuperação de materiais usados em eletroeletrônicos, com mais de 8 mil pontos de coleta no país;

  • Triagem: separação dos diferentes tipos de metais, principalmente nas categorias “ferrosos” e “não ferrosos”. Existem mercados específicos distintos para aço (metal mais reciclado do mundo), alumínio, bronze, chumbo, cobre, estanho, ferro, ouro, prata, zinco e latão (liga de cobre e zinco), entre outros. Estão em expansão mercados para materiais extraídos de eletrônicos descartados, como lítio, paládio, platina e selênio. Apenas como referência, a sucata de ferro tende a ser a mais barata, com valores abaixo de R$ 1 / kg; a de alumínio, com a cadeia mais organizada, tinha cotação próxima de R$ 9 / kg em fevereiro de 2026; e a sucata de bronze, que tende a ser a mais cara, tinha nesse mês preços superiores a R$ 30 / kg, com grandes variações regionais nas cotações;

  • Trituração: fragmentação de cada produto, para que se torne um material mais homogêneo e fácil de armazenar, transportar e manipular;

  • Fundição: derretimento do material em altas temperaturas e formação de lingotes ou outro formato desejado pelos compradores. Assim, o metal retorna à linha de produção.

Algumas iniciativas no Brasil têm destaque mundial. O país é referência global em circularidade do alumínio e avançou do índice de 55% de reciclagem em 2021 para 60% em 2023, muito acima da média mundial, próxima de 30%. É uma conquista especialmente importante porque o alumínio é o produto cuja reciclagem mais evita emissões, seguido pelo plástico e por aço e ferro.

Em um formato específico, o das latas de alumínio, o índice de reciclagem ficou em 97,3% em 2024. Com esse resultado, o Brasil fechou 16 anos seguidos com taxas superiores a 96%, segundo a Recicla Latas, associação que representa os recicladores. Em 2022, o índice passou de 100% – ou seja, houve mais latas recicladas do que vendidas no país. As entidades da cadeia, como a Recicla Latas, a Associação Brasileira da Lata de Alumínio (Abralatas, que reúne os fabricantes de latas) e a Associação Brasileira do Alumínio (Abal, que reúne as produtoras do metal) atuam em parceria próxima, num bom exemplo para outros segmentos.

O Brasil se destaca globalmente também na circularidade do aço. A siderúrgica Gerdau, maior recicladora da América do Sul, coleta cerca de 10 milhões de toneladas de sucata anualmente. Cerca de 70% do aço que produz deriva de reciclagem. A experiência acumulada vem resultando em novos negócios para a companhia, que ganhou leilões para desmontar e reciclar duas plataformas de petróleo desativadas da Petrobras e já desmontou mais de 600 mil veículos nos Estados Unidos. Segundo o Instituto Aço Brasil, foram recicladas 8,7 milhões de toneladas de sucata de aço no país em 2024.

O dinamismo do setor de reciclagem não depende só dos grandes players. A etapa inicial da cadeia conta com cerca de 800 mil catadores de material reciclável (a estimativa é de 2017, mas segue em uso pelos órgãos que formulam políticas públicas a respeito); cerca de 70 mil desses trabalhadores estão organizados em 3 mil cooperativas, que movimentaram R$ 1,37 bilhão em 2024, segundo o Anuário da Reciclagem. Os catadores recolheram 112 mil toneladas de sucata metálica no país em 2024, com destaque para São Paulo (27 mil toneladas), Bahia (16 mil toneladas), Minas Gerais (15 mil toneladas) e Rio (9,9 mil toneladas). O Anuário permite identificar lacunas – e oportunidades – na cadeia. Há estados que ainda reciclam pouco metal em proporção à sua população e economia, como Pernambuco, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O peso de metal recuperado é inferior ao de papel e plástico em todos os estados e inferior ao de vidro na maioria, mas uma diferença especialmente grande pode sugerir uma capacidade de coleta já existente e subaproveitada pela cadeia dos metais.