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Atualização do cenário da fruticulutra

Consultoria Agro

• 22 minutos de leitura

Exportações ganharam força

O cenário das frutas é misto já no início de 2022, se por um lado os embarques garantiriam bons fluxos de vendas, por outro as intempéries climáticas que acometeram as lavouras de frutas afetaram e poderão afetar as vendas esse ano.

Até fevereiro de 2022 as vendas externas foram positivas frente ao mesmo acumulado do ano passado. No total, a cadeia somou 175 mil t nos dois primeiros meses, 9,2% acima da quantidade comercializada no mesmo período do ano anterior. Além disso, os preços médios em USD foram 1,3% acima na mesma comparação. Os destaques em relação aos aumentos de volume são as exportações da banana (+5 mil t, +53%), melancia (+4 mil t, +18%) e limões e limas (+32 mil t, +17%). Vale ressaltar que dentre 28 produtos da cesta de exportações de frutas verificados, apenas 7 itens tiveram variação negativa em volumes no período.

Gráficos de barras com séries históricas dos volumes de exportações mensais de frutas.
Fonte: Secex, Itaú BBA

Comercialização interna

Do ponto de vista de comercialização interna, segundo a CONAB, as vendas de frutas pelas Centrais de Abastecimentos (Ceasas) no primeiro bimestre de 2022 foram 3,5% abaixo do mesmo período de 2021, e com preços médios das frutas frescas 12,9% acima dos praticados no mesmo período comparativo.

As frutas que mais ajudaram a puxar a redução do volume de vendas foram as bananas, mamões, maçãs e melancias nesse primeiro bimestre, em função das intempéries climáticas ao longo dos últimos meses em diferentes regiões do país impactadas pelo efeito La Niña nas lavouras.

Gráfico de barras e linhas sobre comercialização de frutas. Gráfico de pizza com participações de cada fruta nas comercializações
Fonte: CONAB, Itaú BBA

Excesso de chuvas no Vale do São Francisco

Um dos efeitos da ocorrência da La Niña é o aumento das chuvas na Região Nordeste, o que ocorreu recentemente com impactos sentidos em dois importantes polos produtores de frutas nacionais, no Vale do São Francisco, concentrando a produção em uvas, mangas e melões e, no Sul da BA e ES, cujo foco é produção de mamão e de melancias.

No caso do Vale do São Francisco, as chuvas se concentraram no mês de dezembro, registrando o maior volume mensal dos últimos 4 anos. Apesar da maioria das culturas se beneficiar com chuvas, as precipitações aumentam o ataque de pragas e doenças, o que, consequentemente, eleva gastos com defensivos e gera perdas por qualidade.

O caso mais severo foi na produção de uvas, já que o momento no qual a lavoura foi acometida pelas precipitações não era o adequado, visto que as plantas estavam florescendo e a combinação de grande volume de chuvas com temperaturas elevadas aumentou a queda dessas flores e a incidência de doenças afetando a qualidade e a produtividade das parreiras.

Em função desse clima adverso, há relatos de produtores da região, que deixaram de estimular as plantas para a 1ª safra, focando em produzir no 2º semestre, momento de melhores preços e com risco climático menor na região.

No caso das vendas internacionais, no acumulado entre jan-fev desse ano, as exportações de uva caíram 12,7% frente ao mesmo período do ano passado, totalizando 1.846 t. Os preços também tiveram uma correção negativa de 6,8% em relação ao valor médio pago no acumulado do ano anterior.

Os preços do mercado internacional seguem mistos, nos EUA o volume que chega da Am. Do Sul (Peru, Chile e Brasil) pressionou os preços. Já para EU, alguns atrasos em função dos movimentos logísticos reduziram a oferta e deram suporte aos preços da fruta no mercado europeu.

Para a comercialização interna, o mercado também reduziu o volume vendido. Entre jan-fev/21, houve uma queda do volume de 4,3% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o dado fornecido pelo Ceasa. Já em relação aos preços, a fruta fresca teve um ajuste de 13,9% frente aos preços médios cotados no acumulado entre jan-fev/21. A cotação média de uvas frescas de mesa nos Ceasas foi de R$ 9,77 / kg em fevereiro.

Gráfico de barras e linhas sobre or regime de chuvas na Bahia. Gráfcios de linhas e barras com as vendas e preços de uva.

Os mamões capixabas e baianos também sofreram

Assim como a uva, o mamoeiro estava em formação e enchimento quando houve grande volume de chuvas, o que aumentou a incidência de doenças. Com isso, além de reduzir a produção significativamente, houve prejuízo na qualidade e na estética do fruto que saiu das fazendas. A quebra de produção se refletiu também nas vendas internacionais e na comercialização doméstica.

Do lado das exportações, os embarques do mamão no acumulado de jan-fev/22 recuaram 11,2% frente ao que foi exportado no acumulado do ano passado, somando entre os dois primeiros meses 7.212 t. Em relação aos preços médios praticados, a tonelada da fruta foi cotada a USD 1.130, alta de 15,8% frente ao mesmo período do ano anterior.

Nos Ceasas, foi a maior queda de volume comercializado entre as frutas no acumulado jan-fev/22 frente ao mesmo período do ano passado. A redução foi de 17,9 mil toneladas frente ao que foi ao acumulado em 2021, totalizando 54,3 mil t nos dois primeiros meses, 24,8% menos do que no 1º bimestre de 2021. Contudo, essa queda deu suporte para que os preços alcançassem patamares recordes da série histórica. Em fev/22, o mamão era cotado em média a R$ 4,57, alta de 106% frente a fev/21.

Fonte: CONAB, Itaú BBA

Falta de chuvas no RS e as maçãs

Na Região Sul, o efeito da La Niña foi a redução significativa das chuvas. Em Vacaria - RS, maior produtor de maçãs do Brasil, as chuvas entre dez/21 – fev/22 foram 31,1% menores frente ao volume médio de precipitação. Nessa janela de redução do volume disponível para as lavouras, a planta estava num momento de enchimento do grão o que afetou a quantidade de frutas e o calibre (tamanho) do fruto a ser colhido.

Segundo a ABPM (Associação Brasileira dos Produtores de Maçã), a oferta nesta safra poderá ser 30% menor em relação à temporada anterior, que totalizou 1,28 milhão de toneladas da fruta. A justificativa foram dois eventos climáticos: chuvas acima da média ao longo da florada e seca no período de desenvolvimento do fruto, que interferiram na produtividade.

A colheita da nova safra iniciou há algumas semanas, e as vendas têm tido um bom volume. No acumulado de jan-fev/22, a comercialização cresceu 3,5% nos Ceasas frente ao mesmo período do ano anterior. Já em relação aos preços, estes tiveram um ajuste negativo no mesmo período de 20%, sendo a fruta no mês de janeiro, em média, cotada em R$ 5,49/kg.

Segundo o CEPEA, a redução do calibre das frutas favoreceu a exportação para países asiáticos, que têm preferência por esse porte de produto. Os dados de exportação indicaram um panorama favorável à fruta no primeiro bimestre do ano, com crescimento de 33% em relação ao volume embarcado frente ao mesmo período do ano passado, totalizando 4.013 t. Contudo, a tonelada da fruta foi cotada em média a USD 718 nos primeiros meses do ano, 7,9% a menos do que os praticados há um ano.

O mercado de exportação segue atento aos andamentos da guerra, visto que a Rússia é um grande comprador do setor. Em 2021, foi responsável por 21% das compras totais da fruta do Brasil. O pico das vendas para os portos russos é de abril até junho. Além da redução das compras do Brasil, a preocupação é como o conflito pode afetar o mercado global da fruta, afinal uma redução importante da demanda pode gerar pressão nos preços em USD, impactando diretamente a margem das exportadoras do produto.

Gráficos de linhas e barras sobre o regime de chuvas no RS e série de preços de maçã.
Fonte: CONAB, Itaú BBA

Conclusões

Os primeiros dois meses do ano iniciaram desafiadores para alguns tipos de frutas, já para outras o cenário ainda continua favorável às margens e à lavoura, contudo ainda há muitas incertezas e riscos que podem se intensificar ao setor como um todo, tanto do ponto de vista operacional como de mercado. A boa liquidez das empresas rurais produtoras de frutas pode ser um fator-chave para atravessar o cenário de riscos de mercado atual.

Do ponto de vista operacional, os preços dos fertilizantes, podem aumentar ainda mais o custo das lavouras. Além disso, há riscos de entrega dos adubos, o que pode influenciar na janela ideal de operações e, consequentemente, a produção.

Em relação ao mercado, o doméstico está sentindo os efeitos da inflação e da alta taxa de desemprego, o que não é favorável ao aumento do consumo e dificulta os repasses de preços, ou seja, correções muito elevadas das cotações, mesmo que positivas ao setor produtivo, podem levar a uma redução do consumo.

Do ponto de vista das vendas externas, há dois fatores importantes a ser destacar. O primeiro deles é o atual patamar de câmbio mais fortalecido, o que reduz o preço recebido ao produtor. Além disso, o conflito no Mar Negro também adiciona incertezas quanto ao fluxo de comercialização de frutas, no geral, para aquela região e para a EU. Portanto, ressaltamos que o risco está em um possível excesso de oferta em função dos embargos e problemas logísticos, o que pode gerar uma pressão nos preços internacionais das frutas.

Gráficos de linhas com as séries históricas dos preços de fertilizantes.
Fonte: Bloomberg, Itaú BBA

Exportações de frutas e derivados em Fev 2022

Tabela de exportações por frutas em 2022.
Fonte: Secex

Exportações acumuladas de frutas e derivados

Tabela de dados com as exportações acumuladas de frutas e derivados por ano.
Fonte: Secex

Vendas nos Ceasas das principais frutas fev 2022

Tabela de dados com as vendas nos CEASAS em 2022.
Fonte: CONAB

Vendas nos Ceasas das frutas acumuladas de 2022

Tabela de dados com as vendas nos Ceasas das frutas acumuladas de 2022.
Fonte: CONAB