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Atualização dos impactos climáticos no Agro

Consultoria Agro

• 22 minutos de leitura

Panorama das chuvas recentes

Seguindo o típico padrão do fenômeno La Niña, as precipitações ao longo de dezembro continuaram fracas na Região Sul e intensas em partes do Nordeste e áreas próximas, caso do centro e norte de MG, GO, PA e partes do MT.

Nas regiões agrícolas do MATOPIBA também têm chovido acima das médias históricas, favorecendo a recuperação dos reservatórios e o desenvolvimento das lavouras de primeira safra, mas em algumas áreas como no sul do MA e na capital do PI houveram alagamentos.

Já no Sul do país se observa o contrário, com o milho já impactado pela intensificação da seca e as preocupações agora se transferindo para a soja, plantada mais tarde emrelação ao cereal.

Na Região Sudeste, área de transição dos efeitos da La Niña, as chuvas nos últimos 15 dias continuaram variando bastante conforme a localização. Os volumes acumulados foram menores em SP quando comparados com MG, ficando inclusive abaixo do normal climatológico.

Mapa climático precipitação de chuvas.
Fonte: USDA

Culturas perenes pecuária

Café: As chuvas ocorrendo em boa parte das áreas cafeeiras (MG, ES e Alta Mogiana) aliviaram a condição de seca e vêmfavorecendo o desenvolvimento vegetativo das lavouras, o que é positivo para a safra 2023/24 mas não muda o prognóstico da safra 2022/23 comprometida pelos efeitos negativos da longa seca de 2021. As boas floradas observadas na ocasião do retorno das chuvas em outubro foram seguidas por um baixo pegamento dada a má condição fisiológica das plantas devido à seca e o frio intenso no inverno.Mas apesar da impossibilidade de elevar o volume a ser colhido em 2022, o enchimento dos grãos para esta safra tem tido boa condição.

Laranja: As chuvas abaixo do normal no estado de SP e o calor excessivo mantêm a situação desafiadora para a recuperação dos pomares, o que deve levar a uma produção na safra 2022/23 (teoricamente ano de bienalidade positiva) ainda menor que a 2021/22. A seca associada à La Niña tem penalizado o estado de SP e partes do Triângulo Mineiro, com chuvas abaixo do normal, a despeito de seus efeitos serem normalmente mais perceptíveis no Sul do país.

Cana de açúcar: Após o longo período seco, as chuvas nos últimos meses de 2021, na região canavieira, ainda que abaixo da normalidade, aliviaram parte do alto estresse que a cana vinha sofrendo. Porém, o volume de cana para a safra 2022/23 depende principalmente da precipitação do 1º trimestre de 2022, que é essencial para o desenvolvimento da planta.

É importante ressaltar que mesmo com as precipitações recentes, a cana da safra 2022/23 ainda herdará os impactos do clima seco do ano passado, como o atraso no desenvolvimento da planta e as falhas no canavial que foram causadas pela geada e pelos problemas enfrentados no plantio com a falta de água.

Pecuária de corte e de leite: A pecuária leiteira tende a ser mais penalizada pela La Niña do que a bovinocultura de corte por duas razões. Primeiramente porque a relevância da Região Sul é maior no leite, especialmente os estados do PR e RS, e com as pastagens em condição aquém do ideal, a captação de leite também deve vir abaixo do potencial. Em segundo lugar, sendo a atividade mais dependente de grãos, os custos do alimento concentrado podem se manter pressionados, a depender da dimensão das perdas na primeira safra de milho. No caso da pecuária de corte, além da ampla distribuição da produção no país, as chuvas satisfatórias para as pastagens especialmente no Centro Oeste não devem restringir a oferta de gado, que dependerá mais da propensão ao abate de fêmeas, por sua vez associado ao preço do bezerro, até aqui em patamar elevado. Porém, vale destacar que o MS, um importante estado produtor de gado, principalmente de bezerros, decretou situação de emergência em função da seca, e embora as perdas nas lavouras sejam mais relevantes, os pecuaristas também vêm sofrendo com a piora das pastagens e elevação dos custos de produção.

Mapa climático de precipitação de chuvas.
Fonte: USDA

Culturas anuais

Milho verão: O período seco que tem acometido a Região Sul já tem seus efeitos sentidos fortemente nas condições das lavouras da região, que é responsável por cerca de 45% da produção nacional. No caso do PR, por exemplo, o Deral (Departamento de Economia Rural do Estado do PR) apontou no seu último relatório sobre as condições da lavoura, que 25% da área plantada de milho está em condição “ruim” enquanto na semana anterior esse percentual era de 10%. Com essa piora do quadro climático nas principais regiões produtoras, o órgão paranaense cortou a projeção da produção do milho verão em Dez/21 em 12,2%frente a estimativa do mês anterior, totalizando uma oferta do estado em 3,68MMde toneladas. Olhando para os próximos dias, ainda há preocupações com os volumes de chuvas visto que ainda há uma concentração das lavouras em fases fenológicas sensíveis ao déficit hídrico (floração – 31%; frutificação – 49%) o que pode impactar ainda mais a produtividade do milharal.

No RS, já é indicado pela Emater que haverá quebras significativas de produtividades principalmente na região Oeste e Noroeste do estado, mas ainda não foram atualizadas as estimativas de produção. Nas regiões em que a colheita já foi iniciada (milho mais precoce) há produtores que colhem o milho com finalidade de silagem para produção animal já que os níveis de produtividade observados têm sido baixos. É válido ressaltar que mesmo as lavouras irrigadas não passaram incólumes à falta de chuvas e temperaturas elevadas, de acordo com a instituição. Vale destacar que cerca de 44%da área do cereal está em fases críticas (florescimento – 17%; frutificação- 27%) ainda podendo ser impactadas.

O resultado disso é que os prêmios dos preços locais deverão voltar a aumentar sobre as paridades com a cotação internacional, o que deve seguir exercendo pressões sobre as agroindústrias que utilizam tal produto como insumos em seus processos de produção.

Soja: Embora nós acreditemos que ainda seja cedo para estimar com precisão os impactos das condições climáticas adversas na Região Sul do Brasil e no MS, diante do ciclo mais tardio da safra em alguns estados, o sentimento é que perdas relevantes deverão ocorrer. O Deral, por exemplo, reduziu o percentual da safra em boas condições para 30% no dia 3/jan frente a 57% em 20/dez e 79% no mesmo período do ano anterior. Diante disso, o órgão revisou para baixo a sua perspectiva da safra para 13,1mmt emrelação às 18,4mmt estimadas na revisão anterior.

Esse cenário juntamente da piora das condições da lavoura na Argentina e no Paraguai devem deixar o balanço global ainda apertado e podem voltar dar fôlego as cotações da commodity no mercado internacional.

Feijão verão: A oferta de feijão preocupa os agentes do mercado visto que, em MG e GO chove concentrado, o que compromete a sanidade da lavoura e consequentemente a qualidade do grão. Já para o principal fornecedor de feijão verão, o Paraná, a estiagem reduziu a qualidade e a produção da leguminosa. O último relatório do DERAL cortou a estimativa de produção da safra verão em 10,4% frente ao relatório anterior, totalizando 247 mil ton de oferta do estado. Ao que tudo indica, há pouco espaço de melhora para a oferta do feijão no Paraná visto que a cultura já está concentrada nos estágios finais de frutificação ematuração e com 20%da condição considerada “ruim”, ou seja,mesmo com possíveis chuvas futuras a lavoura possivelmente não se recuperará a tempo. No RS, a EMATER também apontou redução do potencial produtivo no estado em função do déficit hídrico, com relatos de lavouras que não desenvolveram vagens.

A preocupação do setor também se deve à menor produção de sementes com qualidade para a safrinha. Além disso, os preços da leguminosa podem encontrar espaço para altas no mercado doméstico em função da oferta e qualidade reduzidas.

Arroz: Apesar da concentração de 70% da produção de arroz no Rio Grande do Sul, a lavoura no estado é majoritariamente irrigada e dessa forma fica menos susceptível a falta de chuvas, visto que grande parte dos reservatórios estão em níveis confortáveis de capacidade hídrica. Dessa forma, dias quentes e secos ajudam a planta de arroz a se desenvolver com qualidade e sanidade, indo em direção contrária às condições das culturas de sequeiro discutidas acima.

Os próximos dias e o que esperar para o verão

Os mapas de previsão de chuvas para os próximos dias estão indicando a intensificação das precipitações na Região Sudeste, principalmente no centro e sul de Minas Gerais. As chuvas também devem continuar presentes nas regiões agrícolas do MATOPIBA, além de GO, no MT e PA. Além disso, é esperado que as chuvas se espalhem por todo o estado de SP e no norte do MS. Já para o PR e SC os volumes previstos são menores enquanto o RS seguirá sentido os efeitos da estiagem.

Já na previsão mais estendida, entre os dias 12 e 18/jan, mais sujeita a alterações, as chuvas diminuem bem em MG, ES e GO, mas não no MATOPIBA e no PA. No estado de SP as precipitações não cessam mas reduzem em relação ao previsto para os próximos 7 dias. Para o RS há expectativa de retorno das chuvas para todo o estado porém em volumes relativamente baixos de até 40mmacumulados no período, assim como no PR e SC. No MS a parte norte continua mais favorável e o sul do estado seco.

Além da atenção com as perdas de produção na Região Sul, atenção deve ser dada ao ritmo de colheita da soja no Centro Oeste, que pode ser dificultada pelo excesso de chuvas, eventualmente atrasando a instalação da safrinha.

Olhando um pouco mais para frente, com a probabilidade de manutenção da La Niña acima de 60% ao longo do verão, é de se esperar a continuidade deste padrão de chuvas insuficientes no Sul do país e excesso no NE.

Mapa climático de previsão de chuvas.
Fonte: USDA