Abates e as produções de proteínas animais no 1T 23

Por Consultoria Agro

21 minutos de leitura

Com a divulgação pelo IBGE dos dados estratificados dos abates e produções de proteínas animais no 4T 22, foi possível olharmos com detalhamento sobre a dinâmica dos descartes de fêmeas e vermos, em que medida, isso influenciou o balanço interno de oferta e demanda de carne bovina no ano passado.

Foram abatidas 29,8 milhões de cabeças em 2022, 7,5% acima do ano anterior. Foi o primeiro aumento desde 2019, influenciado pelo retorno dos descartes de fêmeas, aumentando a oferta de gado aos frigoríficos e, consequentemente, a produção de carne. Os anos anteriores haviam sido marcados pela retenção das vacas, estimulada naquela ocasião pela forte elevação do preço do bezerro. Em 2020 e 2021, 3,9 milhões de vacas e novilhas foram retidas enquanto em 2022, 1,8 milhão foram abatidas.

Vale lembrar que a cria começou a perder valor em maio de 2021, após alcançar R$ 3.500/cabeça em termos reais (preços de fev/23) e seguiu enfraquecendo desde então, para atuais R$ 2.350/cab (mar/23).

O efeito do aumento dos abates (7,5%) em 2022 foi um pouco menor sobre a produção de carnes, que cresceu 6,9% em função do peso médio das carcaças um pouco menor.

Pecuária de Corte

Imagem ilustrativa do artigo Abates e as produções de proteínas animais no 1T 23
Fonte: IBGE
Imagem ilustrativa do artigo Abates e as produções de proteínas animais no 1T 23
Fonte: IBGE

Aves

Na avicultura de corte, 2022 foi marcado pelo gradual aumento do ritmo de produção, começando com 1,6% de expansão (1T 22/21) e terminando com 4,7% no último trimestre. Na média do ano, o crescimento foi de 2,2%, somando 12,9 milhões de toneladas, novo recorde histórico.

Do lado das exportações, o setor também renovou recordes, com envios de 4,8 milhões de toneladas, 4,6% acima de 2021 e, ainda assim, o consumo aparente também avançou 0,8%, o maior já observado. O consumo per capita estimado foi da ordem de 37,5 kg/habitante.

O setor começou o ano pressionado pelos altos custos de produção, oferta elevada e, consequentemente, dificuldade de repasses de preços, algo que começou a aliviar a partir de março com preços do milho e, principalmente, o farelo de sojaaliviando mais recentemente.

Além disso, segue sob atenção a aproximação da gripe aviária, com casos crescentes ocorrendo nos países vizinhos. Todavia, até pelo desafio dos demais países exportadores em lidar com a doença, as exportações brasileiras se mostraram vigorosas no primeiro trimestre embora, no caso de março, os dados sejam parciais, o que acaba retroalimentando os alojamentos.

Caso a gripe não desembarque no Brasil, devemos observar mais um ano robusto para as exportações, e com possibilidades de um alívio adicional dos custos da ração, na medida em que as safras de grãos têm, até aqui, confirmado as expectativas de boas produtividades.

Imagem ilustrativa do artigo Abates e as produções de proteínas animais no 1T 23
Fonte: IBGE, Cepea
Imagem ilustrativa do artigo Abates e as produções de proteínas animais no 1T 23
Fonte : IBGE, Cepea

Suínos

Na suinocultura, diferentemente das aves de corte, a produção desacelerou ao longo do ano. De um ritmo de crescimento de 7,0% no 1T 22/21, a produção de carne suína fechou o último trimestre do ano expandindo 3,7% sobre o 4T 21. No total, foram produzidas 5,17 milhões de toneladas, aumento de 5,5% frente a 2021, marcando um novo recorde histórico. Já são nove anos consecutivos de crescimento da produção brasileira de carne suína.

As exportações também tiveram um bom desempenho no ano, apesar de 1,5% menores que no ano anterior. Ainda assim, foi a segunda melhor marca histórica, com 1,1 milhão de toneladas. E com tamanha oferta, a disponibilidade interna foi 7,5% maior, da ordem de 4 milhões de toneladas, levando o consumo per capita ao recorde de 18,5 kg/habitante.

O ano de 2023 começou com aproximação entre os custos de produção da suinocultura e os preços do animal vivo, algo que há dois anos não víamos, mais em função de uma acomodação dos custos de ração estimada pela Embrapa do que de uma alta do animal.

Com os custos aliviando, acreditamos que a produção de suínos seguirá se expandindo neste ano, o que deve restringir ajustes mais significativos do preço do animal. A variável que pode vir a surpreender positivamente é a demanda chinesa, caso uma possível redução da oferta de carne suína do país asiático decorrente de surtos mais recentes de Peste Suína Africana se materialize.

Imagem ilustrativa do artigo Abates e as produções de proteínas animais no 1T 23
Fonte: IBGE
Imagem ilustrativa do artigo Abates e as produções de proteínas animais no 1T 23
Fonte: IBGE

Ovos

.

Na avicultura de postura, a produção do último trimestre do ano passado acelerou em relação aos trimestres anteriores. A expansão foi de 3,4% ante o 4T 21, sendo que no primeiro tri havia recuado 0,8% e nos dois trimestres seguintes, cresceu 1,1%. A produção anual somou 4,06 bilhões de dúzias, aumento de 1,2% sobre 2021. A fração de ovos de incubação, 20% do total, cresceu 3,3% no ano, enquanto a produção de ovos para consumo foi 0,7% maior.

A demanda por ovos segue vigorosa, com o preço médio no atacado paulista em mar/23, da ordem de R$ 205/cx de 30 dúzias, o que é 22,2% acima de mar/22. Tudo isso a despeito do alojamento de pintainhas 26% maior ante jan/22.

Imagem ilustrativa do artigo Abates e as produções de proteínas animais no 1T 23
Fonte: IBGE
Imagem ilustrativa do artigo Abates e as produções de proteínas animais no 1T 23
Fonte: IBGE

Leite

Diferentemente das demais proteínas, a produção de leite decresceu 5% em 2022, pelo segundo ano consecutivo, o que marcou a maior queda anual da série histórica iniciada em 1997. A captação somou 23,85 bilhões de litros no ano, a menor desde 2016. As quedas ocorreram nos quatro trimestres de 2022, começando o ano com recuo de 9,7% sobre o 1T 21 e terminando com -3,2% (4T 22/21).

A alta forte dos preços dos derivados lácteos, da ordem de 23% no IPCA contra 6% da inflação média, pesou ao consumidor final, reduzindo a demanda na ponta. Ao mesmo tempo, a indústria, com baixos spreads na venda dos produtos finais, elevou as importações, dado que a produção local se manteve restrita. E apesar da oferta de leite contida, a relação de troca entre leite e milho esteve bem melhor ao produtor durante todo o ano passado e no início de 2023.

Para 2023, com os custos de ração aliviando e o clima mais favorável, é possível que a captação reaja. Entretanto, com os preços altos dos derivados lácteos ao consumidor final, somados à perspectiva econômica desafiadora, a demanda na ponta deve se manter reprimida.

Imagem ilustrativa do artigo Abates e as produções de proteínas animais no 1T 23
Fonte: IBGE
Imagem ilustrativa do artigo Abates e as produções de proteínas animais no 1T 23
Fonte: Cepea, Bloomberg