As empresas estão contando o que o mercado quer saber?
Por Itaú BBA
A companhia de papel e embalagens Irani identificou, em relatório divulgado em maio, oportunidades e riscos variados relacionados à crise climática e ambiental.
Do lado dos riscos, a companhia encontrou impactos potenciais associados a eventos climáticos extremos, como enchentes e estiagens, estimados em até R$ 67 milhões até 2030. Do lado das oportunidades, a lista inclui o acesso ampliado a linhas de financiamento e programas de incentivo, estimado como ganho potencial de R$ 40 milhões até 2035.
Os achados importam muito. Mas mais do que apontar cifras, o exercício permitiu estruturar planos de continuidade de negócios, medidas de adaptação e controles voltados à mitigação dos riscos identificados.
Esse Relatório de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade foi o primeiro da companhia em conformidade com os padrões globais IFRS S1 e S2 – a Irani foi uma das primeiras empresas do país, e a primeira de seu setor, a adotá-los. A organização e seus parceiros comerciais – são mais de 3.500 fornecedores – se beneficiam dessa divulgação por diferentes caminhos.
As normas S1 e S2 foram publicadas em 2023 pelo ISSB (Conselho Internacional de Padrões de Sustentabilidade), órgão ligado à Fundação IFRS. Foram criadas para que os relatórios corporativos retratem o impacto financeiro de fatores ligados à sustentabilidade e ao clima de maneira uniforme e comparável, entre empresas e ao longo do tempo.
As versões locais das regras são os pronunciamentos CBPS 01 e 02, emitidos pelo Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS) e incorporados pelas resoluções217 e 218 da CVM. A CVM chegou a determinar a obrigatoriedade de reporte segundo as novas normas, mas revisou a decisão em maio e tornou essa adoção opcional, segundo a resolução 244 (a CVM explicou por que mudou a decisão). Ainda assim, a partir de 2027, as companhias que optarem por não divulgar o relatório deverão justificar a decisão ao mercado – o chamado modelo "pratique ou explique".
Um grupo de companhias pioneiras está testando a novidade no Brasil, e deve colher os benefícios do esforço. Na B3, uma dessas organizações, o trabalho incluiu a ampliação da mensuração das emissões indiretas (Escopo 3) e um exercício mais abrangente de classificação e avaliação financeira de riscos e oportunidades relacionados a sustentabilidade, com definição de cenários, premissas e critérios de materialidade financeira. “O processo trouxe aprendizados relevantes para a gestão”, afirma Janaína Vilella, diretora de Sustentabilidade. Segundo a executiva, o trabalho ampliou o entendimento da B3 sobre como eventos climáticos extremos, mudanças regulatórias e tendências de mercado associadas à transição para uma economia de baixo carbono podem impactar os negócios em diferentes magnitudes e horizontes temporais; além disso, “fortaleceu a capacidade da organização de tomar decisões apoiadas por dados e análises de cenários, contribuindo para uma integração ainda maior entre sustentabilidade, gestão de riscos e estratégia.”
Mesmo com o fim da obrigatoriedade, as normas têm impacto. Numa pesquisa feita pela consultoria PwC com mais de mil investidores profissionais em 26 países, 29% afirmaram que querem mais transparência nas estratégias de resiliência das empresas; 39%, que usam relatórios de sustentabilidade para avaliar oportunidades e riscos; e 61%, que pretendem investir mais em empresas que usam dados de sustentabilidade para ganhar eficiência.
O aumento da atratividade dos negócios no Brasil para os investidores externos foi um argumento levantado também no evento “IFRS S1 e S2: da conformidade à estratégia”, da série Reset Conecta, que reuniu em São Paulo, em julho, executivos de empresas como B3, Vale e Itaú Unibanco. “O Brasil é um potencial receptor de capital estrangeiro na agenda climática. Portanto, aderir à linguagem global em reportes legitima companhias para competir por recursos que, sem essa interoperabilidade, poderiam migrar para outros países”, informa o paper resultante do encontro.
Para o Itaú Unibanco, é justamente essa tradução para uma linguagem comum que transforma o reporte em ferramenta de decisão. "O principal valor do IFRS S1 e S2 está em transformar informações de sustentabilidade em dados mais estruturados, comparáveis e úteis para decisões financeiras. Quando uma empresa consegue traduzir riscos e oportunidades em uma linguagem comum para o mercado, ela fortalece sua gestão, reduz assimetrias de informação e contribui para uma alocação de capital mais adequada. Isso permite que investidores e financiadores identifiquem com mais clareza negócios preparados para os desafios e oportunidades da transição", afirma Luciana Nicola, diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade do Itaú Unibanco.
A preferência dos investidores é fácil de entender. Além de o relatório de acordo com S1 e S2 oferecer ao investidor clareza sobre como a companhia vê seu próprio futuro em relação a uma transformação global em andamento, o esforço de identificar e quantificar as oportunidades e os riscos eleva a qualidade da gestão. A Irani, a B3 e as outras pioneiras, para adotar as novas normas, precisaram revisar processos de governança, gestão de riscos, tratamento de dados e relação com fornecedores. A análise da operação por um prisma que cruza finanças e sustentabilidade, diferente do habitual, abre possibilidades para melhorar o negócio. Com isso, avançam o processo de tomada de decisões, a resiliência e a transparência do negócio.
A iniciativa gera oportunidades ao longo da cadeia de valor. A C&A, outra das organizações na dianteira, divulgou seu relatório em agosto e alertou que a dependência de fornecedores representa risco para algumas de suas metas – em circularidade, rastreabilidade, uso de matérias-primas sustentáveis e redução de emissões com transporte de carga. A companhia informou ainda não dispor de dados primários específicos da cadeia de valor fornecidos diretamente pelos parceiros comerciais. É justamente aí que surge a oportunidade: empresas dispostas a se tornar fornecedoras dessas companhias encontram nesses relatórios detalhados orientações valiosas sobre como se diferenciar.
O consenso a respeito do poder dessa normatização vem se estabelecendo em dezenas de países. Até março, 20 jurisdições haviam adotado ou estavam em processo de adotar as novas normas ou uma adaptação local; em julho, o número chegava a 35, segundo a S&P Global; em setembro, passava de 40, informa a empresa de software de gestão SAP. Entre as praças financeiras mais relevantes a tornar o padrão obrigatório (com diferentes cronogramas) estão Austrália, Hong Kong, Japão, Reino Unido e Singapura.
Do lado das empresas no Brasil, já existe a preocupação de mensurar e reportar os efeitos da urgência climática. Segundo o relatório “Gerenciamento de Riscos 2026”, da KPMG, entre os 25 grandes riscos mencionados por 276 companhias abertas brasileiras à CVM. Os “Riscos Socioambientais”, por sua vez, ficaram em sétimo. O tema subiu na lista de prioridades inclusive das empresas médias. Nesse universo, a parcela com política formal de sustentabilidade passou de 21% em 2025 para 37% este ano, segundo estudo da auditoria e consultoria Baker Tilly Brasil, que ouviu 315 companhias com faturamento anual entre R$ 4,8 milhões e R$ 300 milhões.
A adoção das normas deixou de ser obrigatória para as companhias abertas no Brasil, mas o movimento já ganhou força global. Fazer os relatórios de acordo com os padrões S1 e S2 deixou de ser uma exigência regulatória – para se tornar uma forma de garantir ao negócio a visibilidade desejada junto a investidores e financiadores.