Livre de desmatamento: como a certificação florestal vira vantagem competitiva

Por Itaú BBA

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Madeira e outros insumos florestais são essenciais para as atividades de empresas em diversos setores, incluindo celulose, móveis, construção, decoração, alimentação e beleza. Cada vez mais, essas companhias e seus fornecedores se deparam com exigências de clientes, investidores e reguladores quanto à origem e sustentabilidade das matérias-primas. As exigências vêm se multiplicando e se tornando mais rigorosas.

A União Europeia, que tem regras para importações de produtos florestais desde 2013, apresentou em 2023 uma nova regulação, mais rigorosa (EUDR), para impedir a entrada no bloco de produtos associados a desmatamento ocorrido a partir de 31 de dezembro de 2020. O Parlamento Europeu discute ajustes ao texto para simplificar parte das exigências operacionais, e o cronograma prevê que as regras comecem a valer em dezembro de 2026. A lei europeia atrai a atenção global neste momento, mas não é a única.

No Reino Unido, as UK Timber Regulations (UKTR), instituídas em 2021, entraram no ano passado em fase de implementação e exigem dos grandes importadores de produtos florestais análises de risco da cadeia de suprimentos. O Japão reformulou em 2023 a sua “Lei da Madeira Limpa” (Clean Wood Act), tornando-a mais rigorosa e incluindo punições para importadores que não comprovem a legalidade da madeira. Outras grandes economias, como Austrália, Coreia do Sul e Indonésia, também aumentaram suas exigências para coibir importações associadas ao corte ilegal de árvores.

Certificação como resposta estruturada

Uma resposta estruturada a esse cenário de complexidade crescente é a certificação do FSC (Forest Stewardship Council), por meio de uma metodologia que promove manejo florestal responsável, rastreabilidade e conformidade socioambiental ao longo da cadeia produtiva.

O FSC, uma ONG que atua em rede, com representantes em 89 países, criou o selo de forma pioneira há 32 anos, originalmente para madeira. Ao longo do tempo, diversificou sua aplicação, que hoje alcança mais de 40 produtos florestais, como bambu, sementes, chá, resinas, óleos, cortiça, frutas, cogumelos e mel. O esforço serviu de inspiração: nessas três décadas, iniciativas similares se multiplicaram até cobrir mais de 2 mil produtos agrícolas, além de insumos de outras cadeias, como pecuária e mineração.

Mercado, resultados e evidências concretas

As certificações florestais ganham relevância diante do seguinte quadro: no mundo inteiro, quase 80% da extensão de matas está fora de áreas protegidas. Desde os anos 1990, por iniciativas principalmente do Terceiro Setor, a área certificada – com manejo sustentável e auditado – passou de praticamente zero para 11% do total. O avanço obedece a uma lógica socioambiental, ancorada no reconhecimento de que as florestas prestam serviços ambientais essenciais à humanidade, e também econômica, com empresas interessadas em acessar ou manter o acesso a mercados cada vez mais exigentes.

O diferencial obtido com compromissos pró-florestas não é teórico e seu alcance vai além da madeira. Em 2025, por exemplo, uma associação de 100 empresas na China se comprometeu a comprar do Brasil 50 mil toneladas de carne livre de desmatamento, com base no selo Beef on Track, criado pela ONG Imaflora, uma das certificadoras FSC no Brasil.

Certificação na prática: acesso a mercados e financiamento sustentável

Outro caso é o da Brasilmad, de Curitiba, exportadora de madeira para móveis, embalagens e construção civil. A matéria-prima sai de florestas plantadas, originadas principalmente de um viveiro de mudas em Monte Carlo (SC). A companhia, fundada em 1997, obteve a certificação FSC em 2011 e desde então vem expandindo operações. Atualmente, vende para Estados Unidos, México, Emirados Árabes, Arábia Saudita, Marrocos e vários países da União Europeia.

Na visão de sua diretoria, a certificação FSC é mais que um selo de conformidade -- é um pilar estratégico que sustenta a competitividade global da empresa. "Ao aliarmos nossas operações de ACC Verde (Antecipação de Crédito Cambial para atividades sustentáveis) a cadeias de suprimentos rastreáveis, atendemos às exigências rigorosas dos grandes varejistas e também reafirmamos nosso compromisso de conectar o mercado financeiro à economia real, de forma sustentável e transparente", informa a Brasilmad. Com apoio do Itaú BBA, a empresa chegou a uma solução robusta em termos financeiros e ambientais. A empresa utilizou como lastro ESG a aquisição de madeira FSC 100% com os recursos captados por meio de ACCs.

Oportunidades para o Brasil e para os negócios

Esse quadro tem importância estratégica para o Brasil, maior exportador mundial de celulose. Florestas plantadas geram 2,8 milhões de postos de trabalho no país, que vendeu ao exterior US$ 14,9 bilhões em 2025 em celulose, papel, painéis de madeira, madeira serrada e outros – um aumento de 52% em relação a 2020. A Ibá, Indústria Brasileira de Árvores, informa que, de 2020 a 2024, a área de florestas certificadas no país cresceu 57%, chegando a 10,7 milhões de hectares, entre áreas de produção e conservação. A expansão ocorreu, na maior parte, com a certificação FSC, que passou a cobrir 4,7 milhões de hectares.

O Brasil tem a maior área de florestas tropicais do mundo e apenas 1,8% do total conta com certificação – abaixo dos 4% registrados na América Latina como um todo –, o que indica um desafio e uma oportunidade para todos os setores que consomem e produzem insumos florestais e queiram agregar valor a produtos e serviços ou atender a novas exigências de mercado. A certificação pode atender a fins estratégicos variados:

  • Acesso a mercados, diferenciação comercial e reputacional: a certificação FSC é amplamente reconhecida por compradores e marcas globais, atuando como habilitador de acesso a mercados e clientes mais exigentes, além de contribuir para a redução de barreiras comerciais e o fortalecimento reputacional.
  • Mitigação de riscos regulatórios e socioambientais: companhias que lidam com insumos florestais – seja na venda, rotulagem, embalagem, promoção ou design – podem buscar a certificação de Cadeia de Custódia (CoC), que rastreia o insumo desde a origem até o consumidor final. Essa certificação oferece à empresa segurança quanto às práticas socioambientais do fornecedor e à redução de riscos ambientais, trabalhistas e legais – e ao cliente final, a garantia de que está contribuindo com um manejo florestal responsável. A lista de produtos certificáveis segue em expansão, com borracha natural e viscose entre as inclusões mais recentes. Há no Brasil 1.350 certificados de Cadeia de Custódia;
  • Ganho de eficiência na gestão de suprimentos: cadeias certificadas oferecem mais transparência e controle sobre os insumos fornecidos – uma previsibilidade que se torna valiosa diante da multiplicação de riscos climáticos e geopolíticos.

E não é preciso ser uma gigante exportadora de celulose nem plantar florestas inteiras para buscar essa diferenciação. Desde 2025, o Brasil conta com uma certificação FSC específica para florestas naturais que, além de atestar a gestão sustentável dos recursos, confirma a geração de benefícios socioambientais, protege direitos de comunidades locais e promove a biodiversidade – uma opção voltada a pequenas empresas, cooperativas e grupos de produtores que atuem em áreas naturais, sistemas extrativistas ou agroflorestais.