Fazer o inventário de carbono está na ordem do dia

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Itaú BBA

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Quantas reuniões na sua empresa já trataram de emissões de carbono este ano? Se monitoramento e ações de redução já entraram na rotina da organização, excelente!

Caso contrário, seu negócio pode estar perdendo uma oportunidade estratégica.


Mensurar e mitigar as emissões de carbono estão cada vez mais na ordem do dia das empresas mais atentas, por diferentes motivos. Primeiro, porque precisamos, todos – governos, cidadãos e empresas –, enfrentar uma crise climática que já provoca prejuízos crescentes, em termos humanos e econômicos.


Fazer um inventário de emissões de carbono é o primeiro passo do processo de diagnóstico sobre os impactos climáticos do negócio, sendo possível ter uma visão clara sobre a eficiência das operações identificando oportunidades de redução de custos e impactos. Além de ser uma etapa decisiva para que qualquer empresa entenda os riscos climáticos específicos (e nem sempre óbvios) que ameaçam seu negócio; atenda às exigências regulatórias locais e internacionais; participe do nascente mercado regulado de carbono; e para que aproveite e se fortaleça com a transformação em andamento no mercado.


Nesta edição do ESG em Movimento, você verá quais oportunidades um inventário de emissões pode revelar para sua empresa e como implementar a iniciativa, passo a passo.


Tic, tac…


Diante da urgência da crise climática, reguladores nas principais economias do mundo vêm cobrando mais transparência das empresas em relação à contabilização das emissões de carbono.


A mudança começa, em vários países, pelas companhias listadas em bolsa. Empresas de capital fechado têm um pouco mais de tempo para avaliar suas emissões, mas não muito: as grandes companhias abertas vão exigir essa informação de sua cadeia de suprimentos, conforme forem pressionadas por investidores e reguladores pelo detalhamento de emissões do escopo 3 (aquelas espalhadas pela cadeia de valor, dos fornecedores aos clientes – essa e outras definições fundamentais estão adiante).


Os interessados em vender para as grandes empresas – ou exportar para países que já começam a impor exigências – que souberem apresentar inventários de carbono bem-feitos vão se destacar. E esse é só um dos benefícios a colher.


O melhor cenário de mensuração de emissões de gases de efeito-estufa (GHG) inclui o mapeamento de todo o negócio. [BAPV4]Mas trata-se de uma jornada e é possível iniciar com um escopo mais limitado e ir ampliando a ambição conforme se avance no processo. O importante é começar.


As melhores práticas de mercado sugerem que o trabalho seja bem aproveitado, não apenas para atender a normas, mas também para encontrar e ampliar oportunidades. A EPA, agência ambiental dos EUA, destaca uma das mais fundamentais: detectar e mitigar riscos para o negócio.


Isso porque uma visão da operação enriquecida pelo filtro das mudanças climáticas consegue revelar pontos fracos antes invisíveis.


Avançando da prevenção de perdas para a obtenção de ganhos, algumas oportunidades são evidentes:

  • Economia de energia e insumos - reavaliar o negócio, levantar dados, definir metas e exigir atenção da equipe à variável carbono leva a empresa a se tornar mais eficiente e cortar desperdício.
  • Melhora da governança - num estágio posterior, o trabalho conduz o negócio a um novo grau de transparência e fluidez de informações entre a base das operações e os tomadores de decisão. Isso beneficia igualmente empresas de capital fechado e companhias abertas.
  • Atração de investidores - quatro em cada cinco investidores institucionais nos EUA consideram o reporte de risco climático tão importante quanto o financeiro.
  • Participação no mercado de carbono - O Congresso brasileiro prepara-se para aprovar o mercado regulado de carbono local. Dependendo do tamanho de suas emissões, plantas fabris e outras unidades de negócio serão enquadradas no mecanismo, que imporá um limite às emissões. Enquanto outras, que incluam em seus trabalhos iniciativas de reflorestamento, preservação de florestas ou outras atividades com benefícios climáticos, poderão ter a oportunidade de gerar e vender créditos de carbono.
  • Participação em plataformas voluntárias de divulgação do inventário, dando destaque aos valores da transparência e integridade ambiental da empresa.

Outras oportunidades foram listadas em 2023 pelo Fórum Econômico Mundial, em colaboração com a Universidade de Oxford e a Capgemini. A análise tinha como foco as emissões do escopo 3, mais difíceis de medir. Mesmo antes que uma empresa chegue a esse grau de sofisticação, porém, deve conseguir materializar vários dos benefícios apresentados:

  • Revolução no design - com produtos e serviços concebidos de forma ambientalmente responsável desde o primeiro rascunho.
  • Adoção de modelos de negócio inovadores - muitas empresas tentam inovar, mas poucas conseguem criar a cultura necessária. O esforço coletivo de medir e reduzir a poluição pode ser o melhor catalisador.
  • Promoção da bioeconomia circular - com a inserção na cadeia de mais produtos reciclados, reutilizados e de base biológica.
  • Geração de engajamento - com os modelos de negócio sustentáveis servindo como poderoso motivador de funcionários e argumento de venda.
  • Eliminação de lacunas de conhecimento do próprio negócio - o levantamento de dados sob novo ângulo gera insights, que por sua vez realimentam o processo de inovação.
  • Aprendizado na gestão de dados sobre carbono - gerar e administrar dados sobre emissões são novas necessidades do mercado.
  • Apoio à inovação e infraestrutura sustentáveis - a empreitada pode aproximar a companhia de novas tecnologias, startups, centros de pesquisa e pesquisadores – e ajudar a cativar esses novos parceiros.

Para as companhias dispostas a ir mais longe e medir emissões de sua cadeia de valor inteira, há recompensas adicionais:

  • Obtenção do status de benchmark - poucos setores e poucas companhias apresentam alta transparência ao longo das cadeias de valor. Os pioneiros ganharão destaque.
  • Reavaliação dos hábitos do cliente final - opções mais limpas do produto ou serviço precisam estar à disposição do consumidor / cliente final – um esforço que tende a conquistar mercado.
  • Incentivo aos fornecedores - o esforço conjunto de corte de emissões ao longo da cadeia reforça parcerias e gera fidelidade entre parceiros de negócios. Grandes empresas cada vez mais buscam fornecedores alinhados às práticas ESG.

O avanço regulatório

No Brasil, a CVM determinou em outubro de 2023 que o país vai acatar as normas propostas pela ISSB (International Sustainability Standards Board), com padronização e detalhamento de emissões de carbono nos relatórios das companhias abertas a serem publicados em 2026.


Mas a onda vem de todos os lados, e não fica restrita às companhias abertas. Aqui no Brasil, o projeto de lei que cria o mercado regulado de carbono também torna obrigatórios a mensuração e o relato de emissões para instalações que lancem na atmosfera a partir de 10 mil toneladas de CO2 equivalente por ano.


Nas maiores economias, os reguladores têm avançado nas exigências sobre o inventário de carbono das companhias – e as mudanças têm impacto além de suas fronteiras, podendo chegar a qualquer empresa brasileira que queira fazer negócios no exterior. Para ficar em alguns exemplos:


*Na União Europeia, começa a valer nos relatórios a ser publicados em 2025 a CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive), adotada em 2023, que exige de grandes empresas com capital fechado e todas as de capital aberto mais detalhamento de emissões, inclusive com dados do escopo 3, sobre a cadeia de valor, incluindo seus fornecedores – para aqueles que já exportam ou planejam exportar para o bloco, é importante estar atento às exigências. Cerca de 50 mil empresas têm de se adaptar a esse novo grau de transparência. A fase de transição vai até 2029;


*Também na União Europeia, começou a valer em outubro de 2023 um mecanismo de taxação de importação sobre o carbono embutido em alguns produtos fundamentais (aço, alumínio, cimento, eletricidade, ferro, fertilizantes e hidrogênio). Nesta primeira fase, as autoridades demandam apenas informações sobre os produtos. O mecanismo, chamado CBAM, vai se tornar mais abrangente em julho de 2024: as autoridades poderão exigir dados variados sobre eficiência energética e origem de materiais que entram na UE – e os importadores europeus devem repassar aos seus fornecedores fora do continente essa cobrança por dados relativos a carbono (em 2022, havia 9.750 empresas brasileiras exportando para a Europa). A cobrança da taxa deve começar em 2026;


*144 bancos ao redor do mundo, incluindo o Itaú Unibanco, fazem parte atualmente da Net-Zero Banking Alliance, iniciativa coordenada pela ONU. Os bancos participantes se comprometem a alinhar seus portfólios de empréstimos e investimentos para se tornar net-zero até 2050 e precisam iniciar essa trajetória até 2030. Os tomadores de capital mais limpos e com a contabilidade de carbono em dia saem na frente nessa conversa;


*Na Califórnia, Estado mais rico dos EUA e referência global como hub de inovação, a obrigatoriedade de reportar emissões vale para companhias listadas em bolsa e também para grandes empresas fechadas, desde outubro de 2023. A norma alcança empresas que façam negócios no Estado, mesmo que tenham sede em outro lugar.


As autoridades de Estados Unidos, China, Japão e Reino Unido, entre outras, moveram-se nos últimos meses para exigir mais transparência das empresas. Como se vê, são sólidos os argumentos a favor de se fazer o inventário e combater as emissões.


Mas, por onde começar? Até onde ir?


Um roteiro, passo a passo


1) Defina o básico. Primeiro, as fronteiras da operação a avaliar. Essa clareza é especialmente necessária em holdings, grupos de empresas e negócios com participações cruzadas. Segundo, o ano-base ao qual os dados se referem. A EPA sugere que essa etapa inicial já inclua revisão e escolha de padrões e métodos.

O modelo mais usado atualmente é o GHG Protocol, um [AR1]esforço internacional de padronização de informações sobre emissão de gases de efeito estufa. A FGV desenvolveu o programa brasileiro do GHG Protocol, tropicalizando o modelo.


2) Mapeie a organização. A coleta de dados de carbono vai exigir conhecimento detalhado do fluxo das operações. Nessa etapa, deve-se definir a abrangência do levantamento de dados, com base em três categorias definidas pelo GHG Protocol:

Escopo 1 - emissões resultantes da operação direta da empresa e que, portanto, estão sob seu controle.

Escopo 2 - emissões resultantes da energia adquirida pela empresa. Tendem a ser bem precisas.

Escopo 3 - emissões na cadeia de valor, upstream e downstream. Parte dessas emissões podem ser apenas o escopo 1 de parceiros bem organizados, que já fizeram seus cálculos – essa é a parte fácil de obter. A parte desafiadora é que uma cadeia de valor completa certamente incluirá parceiros sem informações, capacidade ou vontade para participar do trabalho. Para esses parceiros, vale o esforço de engajamento deles no tema e, enquanto não fazerem a lição de cada, métricas aproximadas podem ser adotadas.


Empresas que ambicionem mensurar o escopo 3 precisam iniciar o diálogo com fornecedores, revendedores e parceiros externos em geral. A organização precisará de um mapa de sua cadeia de valor, que indique qualidade e evolução dos dados dos parceiros.


3) Engaje toda a equipe, dos gestores à base da operação. Um equívoco ainda comum é colocar o trabalho todo nas mãos de um ou alguns poucos profissionais de uma única área[HS2]. A contabilidade de carbono e a busca das metas são fatores de motivação e construção de cultura.


4) Identifique os fatores de emissão de GEE[BAPV3][AR4]. O fator de emissão é um indicador utilizado para estimar a quantidade de emissões que ocorre a partir de uma determinada quantidade de matéria-prima queimada ou transformada. Usualmente, quanto mais negócios feitos, mais poluição gerada. O programa brasileiro do GHG Protocol disponibiliza anualmente uma planilha de cálculo gratuita com fatores de emissão atualizados.


Se o volume absoluto de emissões cresce proporcionalmente conforme aumenta o volume de negócios, é um péssimo sinal, indicador de operações ineficientes.


Nas empresas eficientes, o volume de emissões não acompanha a expansão dos negócios – o que indica que os produtos ou serviços da empresa estão se tornando menos intensivos em carbono. Isso é apenas o começo do trabalho, já que o enfrentamento da crise climática exige redução absoluta (e não apenas proporcional) nas emissões.


Sua empresa pode ter métricas muito específicas e úteis para o relatório. É hora de listá-las.


5) Crie um plano de gestão dos dados. Formalize os procedimentos de coleta; estabeleça um controle de qualidade para os dados (parte deles deverá ser duvidosa demais numa primeira tentativa); defina um processo de checagem periódica da evolução de qualidade dos dados. No programa brasileiro do GHG Protocol existem três níveis de inventário: a) bronze: contempla os escopos 1 e 2 apenas e não tem verificação externa; b) prata: escopos 1 e 2 são obrigatórios e o escopo 3 é opcional e há verificação externa; c) ouro: os três escopos são obrigatórios, assim como a auditoria externa.


6) Colete os dados, com base no mapa da organização (ou da cadeia de valor inteira), e documente tudo que for levantado. Nessa fase, lacunas de informação devem ficar evidentes. É o momento de definir uma política de recálculo das emissões para os relatórios seguintes, com base em futuros aprimoramentos do sistema de geração e coleta de dados.


No escopo 3, é previsível que a qualidade dos dados seja inferior aos dos escopos 1 e 2. Seja flexível e prepare-se para trabalhar com modelo híbrido, capaz de incluir dados primários dos fornecedores, dados baseados em gastos, médias e estimativas setoriais.


7) Defina sua meta – o que atingir e quando.


Ao iniciar essa discussão, elimine logo de saída alguns erros ainda comuns:

  • não adote apenas metas de longo prazo, de 10 anos ou mais. Estamos lidando com uma urgência climática;
  • não se apoie demais na compensação de emissões. Elas são parte do plano, mas sua estratégia precisa incluir o máximo de redução;
  • não trate áreas verdes como se fossem idênticas. Ao compensar emissões com florestamento, reflorestamento ou preservação, atente para os locais dos projetos. Áreas verdes prestam diferentes serviços ambientais em diferentes locais, servindo a centros urbanos, proteção de mananciais ou corredores verdes, entre outras possibilidades;
  • não trate créditos de carbono como se fossem idênticos. Ao compensar emissões com créditos de carbono, atente para a qualidade dos créditos, exija detalhes e fiscalize os projetos geradores.

É importante selecionar e priorizar medidas que ajudarão no alcance das metas. Essas medidas podem ser elencadas de acordo com o potencial de redução e o custo de implementação ao longo do tempo. Muitas das medidas trazem, inclusive, custos evitados.

Uma estratégia sólida demanda metas de curto, médio e longo prazo, com checagens de rota periódicas, métricas bem definidas e remuneração pelo cumprimento dos objetivos, tudo sujeito a reavaliação.


Nessa etapa, sua empresa terá de escolher um nível de ambição.


Ferramentas que podem auxiliar na produção do inventário.

Guias para produção de inventários em empresas:


Programa Brasileiro GHG Protocol - FGV

https://eaesp.fgv.br/centros/centro-estudos-sustentabilidade/projetos/programa-brasileiro-ghg-protocol


GHG Protocol

https://ghgprotocol.org/corporate-standard


CDP

https://www.cdp.net/en/guidance/guidance-for-companies


EPA

https://www.epa.gov/climateleadership/scopes-1-2-and-3-emissions-inventorying-and-guidance


EPA para pequenos negócios

https://www.epa.gov/sites/default/files/2017-01/documents/guide_to_greenhouse_gas_management_for_small_business_low_emitters.pdf


Defra (Department for Environment Food & Rural Affairs do Reino Unido) para pequenos negócios

https://assets.publishing.service.gov.uk/media/5a798993ed915d07d35b6487/pb13310-ghg-small-business-guide.pdf


The Climate Registry, ONG nos EUA dedicada a apoiar a produção de inventários de carbono

https://theclimateregistry.org/registries-resources/guidance/


E-Liability (projeto piloto)

https://e-liability.institute/get-involved/pilot-adoption/