O inventário de carbono como instrumento de competitividade econômica

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Itaú BBA

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Por Luciana Nicola, diretora de Sustentabilidade e Relações Institucionais do Itaú Unibanco

Considerando a urgência de criarmos soluções práticas para combater os efeitos da mudança climática, dá para dizer que o ano de 2023 possibilitou avanços nos entendimentos sobre os principais desafios e oportunidades. Isso porque houve discussões intensas na agenda de instrumentos de mercado para promover a descarbonização do setor produtivo , fundamental para se atingirmos a meta do Acordo de Paris de manter o aquecimento médio em 1,5°C em 2100 em relação ao período pré-industrial. E tudo indica que, em 2024, seguiremos aprofundando entendimentos e propostas de atuação que considerem além do enfrentamento climático, o imapcto na competitividade econômica de empresas e países.


No Brasil, os debates têm se centrado nos projetos de lei para implementação de um mercado regulado de carbono, além de normatizações criadas pela CVM. O órgão que regula o mercado de capitais determinou no ano passado, por exemplo, que o país seguirá as normas propostas pela International Sustainability Standards Board (ISSB), desenhadas para padronizar o detalhamento de emissões de gases de efeito estufa, e que deverão se tornar obrigatórias para empresas de capital aberto a partir de 2026. Além disso, com a aprovação de um mercado regulado de carbono no Brasil, proposta em discussão no legislativo, empresas terão a responsabilidade de conhecerem suas emissões por meio da obrigação publicação de seu relatório de emissões.


Já no âmbito internacional, as discussões foram aquecidas pela proximidade da aplicação do Carbon Border Adjustment Mechanism, o CBAM, pela União Europeia. O mecanismo permite que autoridades exijam informações ambientais sobre determinados produtos, e deverá se tornar mais abrangente, permitindo também que sejam solicitados dados sobre eficiência energética e origem dos materiais utilizados na produção. E, em 2026, deverá entrar em vigor uma taxação sobre produtos exportados para o bloco com base na intensidade de suas emissões. Vale lembrar que iniciativas do mesmo tipo também estão sendo discutidas em outros grandes mercados como os Estados Unidos.


Os avanços são de tal ordem que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) chega a apontar que a mudança do clima deixou a esfera estritamente ambiental e hoje influencia diretamente a competitividade econômica. Por isso, tudo aponta para uma importância cada vez maior da coleta e do tratamento de dados ambientais pelas empresas.

Neste sentido, torna-se imprescindível a adoção de mecanismos de mensuração, relato e verificação (MRV) de emissões de gases de efeito estufa, que garantem maior comparabilidade de informações. E aqui cabe um adendo muito importante. Companhias que já se anteciparam à regulação e desenvolveram uma cultura de inventariar suas emissões terão vantagem competitiva, uma vez que sua curva de adaptação às demandas por informação de qualidade será mais acelerada.


Além disso, a tendência é de que este grupo de companhias já tenha um melhor ponto de partida, pois, conhecendo as fontes de emissões, é possível também adotar iniciativas para mitigação de riscos e ganho de eficiência o que, em muitos casos, também gera redução de custos. Tendo conhecimento dos processos MRV, a exposição a litígios e sanções também tende a ser menor.


Pioneirismo e capilaridade

O Programa Brasileiro GHG Protocol, criado em 2008, foi um marco para a criação de uma cultura de mensuração de emissões no país. O Itaú Unibanco, por sinal, é um dos membros fundadores do programa e desde então desenvolve seu inventário de emissões e dá transparência em seus relatórios e no Registro Público Emissões.


Cabe lembrar que bancos, pela sua capilaridade, e podem atuar como indutores de transformações profundas nas cadeias produtivas, apoiando seus clientes no entendimento de suas pegadas de carbono, gestão de riscos e desenvolvimento de novas oportunidades de negócios que mitiguem impactos das mudanças climáticas. As instituições financeiras que fazem parte da Net-Zero Baking Alliance, por exemplo, têm o compromisso de zerarem as emissões de suas carteiras de crédito até 2050.


É neste sentido que o Itaú, integrante da aliança, quer ser o banco da transição climática para seus clientes. Isto significa desenvolver e disponibilizar soluções completas para toda a sua jornada de descarbonização, indo muito além de soluções bancárias. Temos o potencial de apoiá-los na mensuração das suas emissões, na definição de um plano de transição e na redução e remoção de suas emissões de GEE, além de viabilizar a compensação voluntária, quando aplicável. E fazemos isso porque a sustentabilidade é fundamental para o futuro dos negócios e para a a competitividade da economia brasileira.