O mapa do caminho, agora cheio de detalhes

Por Itaú BBA

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Desde o dia 1º de janeiro, o mercado de capitais brasileiro passa por uma mudança de paradigma para a valoração das empresas, com a obrigatoriedade da mensuração de riscos e oportunidades gerados pelas mudanças climáticas e outros aspectos de sustentabilidade.

A partir do exercício de 2026, as companhias listadas em bolsa no Brasil têm de identificar e medir esses fatores e apresentar relatórios detalhados seguindo as novas normas internacionais IFRS S1 e S2. Os dois “s” são de Sustainability Disclosure Standards e as duas normas foram criadas pela International Financial Reporting Standards Foundation. Os primeiros relatórios serão publicados em 2027, mas os dados passam a ser coletados e analisados agora.

A IFRS define o padrão de reportes financeiros de companhias abertas mais difundido do mundo (mas não obrigatório nos Estados Unidos), estabelecendo quais informações devem ser apresentadas ao mercado e como. A nova S1 trata das relações entre finanças e sustentabilidade em geral, enquanto a S2 detalha o impacto das questões climáticas nos negócios.

A novidade foi proposta em 2023, depois de a IFRS colocar sua elaboração a cargo de um conselho internacional (o International Sustainability Standards Board, ISSB na sigla em inglês também usada em referência às duas novas normas).

A meta do novo padrão é oferecer ao mercado relatórios objetivos, consistentes e comparáveis, ao longo do tempo e entre empresas e setores, sobre os efeitos financeiros das questões de sustentabilidade.

A novidade pretende orientar investidores e financiadores a calcular riscos de seus portfólios e decidir sobre a alocação de recursos entre as empresas melhor posicionadas.

Com os novos relatórios, cada grande companhia oferece também à sua cadeia de valor – e àqueles que querem se tornar seus fornecedores – um guia claro sobre produtos e serviços necessários, oportunidades prioritárias a perseguir e riscos a mitigar com mais urgência.

O Brasil assumiu a dianteira em implementar a mudança, por iniciativa da CVM (Comitê de Valores Mobiliários, órgão regulador do mercado de capitais brasileiro). As versões locais das regras se chamam CBPS (Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade) 1 e 2, apresentadas nas resoluções 217 e 218 da CVM.

O processo de implementação, com diferentes cronogramas e algumas adaptações, avança em pelo menos 36 jurisdições, incluindo China, Canadá, Chile, Japão, México e Reino Unido. Um grupo de 17 grandes empresas vem testando a metodologia e, a partir dessas experiências, a IFRS faz ajustes.

No Brasil, os bancos também serão obrigados pelo Banco Central a adotar o modelo de reporte S1 e S2. Os grandes a partir do exercício de 2026 e os menores a partir de 2028.

Pioneiras

Mesmo antes da obrigatoriedade, algumas empresas começaram a trabalhar com o padrão proposto. Vale e Renner já publicaram reportes aplicando a norma S2 em 2025, relativos a 2024 (ainda não totalmente aderentes às novas normas, como é permitido no período de adaptação). Natura, Irani e B3 informaram que vão fazer isso nos próximos meses, para tratar do exercício de 2025. Os reportes dessas pioneiras vão servir como referência para o mercado.

Os dois relatórios já publicados, de Vale e Renner, oferecem um conjunto bem rico para outras empresas avaliarem. As oportunidades identificadas no conjunto pelas duas companhias incluem 1) o corte de custos operacionais, por meio de uma estratégia de migração para o uso de energia renovável e 2) a venda de produtos mais sustentáveis, com menos emissões de carbono, menor geração de resíduos e/ou que sirvam de insumo para a economia de baixo carbono, dentro dos negócios dos clientes (no caso da Vale, isso inclui a venda de metais críticos para a transição energética).

No conjunto, a lista de riscos detectados pelas duas compreende 1) exposição a regulamentações e precificação de emissões de gases de efeito estufa, com potencial elevação de custos e/ou redução da participação de mercado, 2) mais despesas com pesquisa e desenvolvimento, 3) aumento de custo de frete (por exemplo, em função da taxação de carbono imposta pela Organização Marítima Internacional), 4) não cumprimento de metas de redução de emissões e 5) intensificação de condições climáticas extremas, com impacto sobre operações, cadeias produtivas e comunidades, além de alterações nos padrões de consumo dos clientes.

Em dezembro, a própria B3 aderiu ao período de teste. “Optamos por antecipar esse processo porque acreditamos que evoluímos mais rápido quando aprendemos fazendo”, afirmou Isaac Lee Demoner, superintendente de riscos corporativos da B3.

Esse grupo de pioneiras deve crescer. A CVM fez em 2025 uma pesquisa com as companhias abertas, com 291 respondentes, e concluiu que já em 2026, antes da obrigatoriedade, mais 15 delas querem publicar relatórios segundo as novas normas.

Apesar dos benefícios esperados para as empresas que melhor souberem navegar esse novo mundo, inclusive em termos de custo de capital, a medida foi alvo de oposição da Abrasca (Associação Brasileira das Companhias Abertas), no apagar das luzes de 2025.

A entidade pediu que adoção do novo sistema continue voluntária por prazo indefinido ou seja adiada por pelo menos três anos. O pedido foi contestado e considerado um retrocesso por outras entidades, como Ibracon, Amec e Apimec. A CVM, ao que tudo indica, não deve mexer na norma, mantendo o país entre os mercados mais preparados para a nova realidade da transição climática da economia.