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O que um banco pode fazer pela transição climática?

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Por Luciana Nicola, diretora de sustentabilidade e Relações Institucionais do Itaú Unibanco

Em agosto de 2023, enquanto os Andes enfrentavam temperaturas acima de 35°C em uma época normalmente de tempo congelante, cidades da Europa experimentavam um frio digno de inverno em um momento em que deveriam estar sob calor intenso. Isso nos lembra que as mudanças climáticas têm consequências extremas e globais, o que torna impossível combatê-las apenas em âmbito local ou regional. Se as nações ainda patinam para atuar em concerto sobre o tema, um setor com grande capilaridade vem se articulando globalmente na busca por um mundo carbono neutro: o sistema bancário.

Pode parecer estranho, num primeiro momento, considerar os bancos vetores para o alcance das metas de redução de gases de efeito estufa. No entanto, basta pensar no papel que eles têm no mundo todo para entender sua importância. De um lado, captam poupança e, de outro, canalizam esses recursos para quem precisa investir, incluindo grandes empresas, muitas delas com desafios importantes para zerar as suas emissões.

A atividade bancária, com suas agências físicas e escritórios, tem baixo impacto ambiental quando comparada a indústrias e outras atividades. Com algum esforço, é possível atingir a neutralidade nos chamados Escopos 1 e 2, que são relacionados às emissões de gases de efeito estufa da própria operação da instituição. É no chamado Escopo 3 que os bancos podem fazer a diferença, pois se trata dos efeitos indiretos, decorrentes de seus financiamentos. E, aqui, há várias maneiras de atuar.

Os bancos podem, por exemplo, atrelar a concessão de crédito a uma empresa ao atingimento de determinadas metas de redução de emissões, já que isso configura menor exposição a riscos. Também conseguem desenhar para seus clientes captações de recursos em fontes de financiamento que paguem juros diferenciados de acordo com parâmetros sociais, ambientais e climáticos. Têm, ainda, a capacidade de destinar recursos para fortalecer setores com impactos positivos, como os de energia solar e eólica, que são setores com forte crescimento de demanda e atração de capital, dentre outros.

Foi para coordenar bancos do mundo todo em torno da meta de um futuro neutro em carbono que a ONU lançou, em 2021, a Net-Zero Banking Alliance (NZBA). Segundo os dados mais recentes, a iniciativa conta atualmente com 142 instituições de 44 países, totalizando US$ 74 trilhões em recursos sob gestão. Esse robusto grupo, ao qual o Itaú Unibanco se uniu em sua missão de ser o banco da transição climática para seus clientes, tem como meta zerar as emissões em seus portfólios de créditos e investimentos até 2050, mas com objetivos de médio prazo a serem atingidos até 2030 ou antes.

Parceiros de jornada

Uma análise menos profunda poderia propor que os bancos simplesmente retirem de suas carteiras de clientes empresas de setores mais intensivos em emissões de gases de efeito estufa. É uma ilusão, no entanto, que desconsidera que os bens e produtos dessas indústrias são parte inerente da nossa sociedade e estão presentes em tudo o que fazemos, produzimos e consumimos. Mais eficiente, porém, é apoiar os clientes na jornada em direção a uma atividade mais limpa e neutra em emissões.

É isso que o Itaú Unibanco, assim como seus parceiros na NZBA, tem feito dentro do escopo da iniciativa da ONU. Definimos como prioridade inicial a descarbonização para os setores de geração de eletricidade e carvão, e estamos trabalhando no plano de metas dos demais setores carbono intensivos. É preciso considerar que esta é uma agenda muito viva, que demanda uma evolução constante da nossa pauta ESG, tanto sobre temas como formas de ação, e que depende de dados, inovação, desenvolvimento tecnológico e da configuração da economia de cada país.

Fazemos isso, num primeiro momento, entendendo em detalhes quais são os principais desafios e oportunidades de descarbonização para os setores dos nossos clientes. Atuamos, então, em parceria para que eles entendam a relevância do tema para seus negócios, mitiguem riscos e gerem novas oportunidades de negócios alinhadas às mudanças necessárias para mitigar seu impacto ambiental.

Inovações para o futuro

Um dos desafios para que essa parceria seja bem-sucedida é, de um lado, fortalecer tecnologias já existentes capazes de diminuir e até zerar emissões de carbono de determinados setores. Estamos falando de soluções como o uso de energia solar e eólica, de veículos híbridos e do mercado de créditos de carbono, de soluções baseadas na natureza, dentre outras.

De outro lado, os bancos também são importantes enquanto fomentadores de inovações que consigam acelerar a jornada rumo a um futuro descarbonizado. Isso pode ser feito, por exemplo, financiando o ecossistema de startups de seus países. E, nesse papel, mais uma vez conta a capilaridade do sistema bancário, para não apenas incentivar a criação de tecnologias de impacto ambiental positivo, como também fazer a ponte entre empresas que necessitem de soluções para combater suas emissões e as startups capazes de atender a essa demanda.

O Acordo de Paris estabeleceu um limite de 1,5°C no aquecimento global até o fim do século, em relação aos níveis pré-industriais. Já chegamos a um aumento de 1,1°C, e sentimos suas consequências globalmente. Por isso, é tão importante que o setor empresarial ao redor do mundo coloque sua força e sua capilaridade em prol de um futuro carbono neutro, investindo na transição climática. O planeta precisa de toda ajuda possível.