Pavimentando o caminho: a importância da Conferência de Bonn

Por Itaú BBA

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A Conferência de Bonn é um espaço diplomático, técnico e de diálogo que desempenha um papel estratégico: alinhar visões, esclarecer pontos pendentes e construir consensos para promover avanços nas negociações climáticas globais. A Conferência é reconhecida por “pavimentar o caminho” para que decisões sejam tomadas nas COPs, no final do ano.

Desde março de 2025, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, publicou uma série de cartas que sinalizaram às Partes quais seriam os assuntos de maior importância para a condução brasileira da COP. Na terceira carta, dedicada à SB62 (jargão diplomático para Conferência de Bonn), Lago indicou as seguintes prioridades para os negociadores: (1) definir indicadores de adaptação climática, (2) promover uma transição justa rumo à economia de baixo carbono, para trabalhadores e comunidades, e (3) implementar as ações apontadas pelo Global Stocktake, o primeiro balanço global sobre o que foi feito e o que falta fazer para lidar com o clima, apresentado em 2023.

Na edição de 2025 da Conferência a Presidência brasileira para a COP30 buscou aumentar o engajamento dos negociadores. Parte importante das discussões se concentrou em como tornar as COPs mais efetivas, especialmente em meio a tensões no cenário internacional. O Brasil convoca os presidentes das últimas Conferências a refletirem sobre o futuro do processo que deve, cada vez mais, ser focado em ação. Para isso, mudanças na governança das COPS ficou em pauta, mas não houve consenso.

No que diz respeito a definição de indicadores de adaptação climática, em Bonn se estabeleceu um compromisso dos países apresentarem, até a COP30, um conjunto de até 100 indicadores para acompanhar o progresso global. Apesar do avanço, as discussões foram tomadas pelos chamados “meios de implementação” da adaptação climática, isto é, o financiamento climático. Apesar de um consenso atingido na COP26, em Glasgow, no sentido de dobrar o financiamento climático para adaptação até novembro deste ano, ainda não há clareza de quanto dinheiro deve ser destinado para esta finalidade.

Além desses pontos, em Belém os negociadores precisarão evoluir nas negociações relacionadas aos Planos Nacionais de Adaptação, que devem ser apresentados por cada um dos países membro da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC). Até o momento, apenas 63 dos 197 países participantes o fizeram – incluindo Brasil.

Na pauta de transição justa, o esforço da presidência do Brasil em Bonn foi bem-vindo e bem-visto, particularmente no que se refere às negociações sobre o Programa de Trabalho de Transição Justa. Para os países desenvolvidos, a transição justa se refere, em grande medida, ao suporte aos trabalhadores de setores que serão afetados pela transição, enquanto países em desenvolvimento têm necessidades mais holísticas. Foram discutidos também os desdobramentos da Nova Meta Coletiva e Quantificada (NCQG), estabelecida na COP29 e que estabelece a ambição de mobilizar US$ 1,3 trilhão em financiamento climático por ano até 2035, sendo que US$ 300 bilhões viriam dos países desenvolvidos. As respostas para essa equação virão da chamada rota “Baku-Belém para os US$ 1,3 trilhão”. Este valor está aquém das expectativas dos países vulneráveis, mas pode ficar ainda mais difícil de atingir depois que os Estados Unidos anunciaram a saída do Acordo de Paris e cancelaram quase que integralmente suas iniciativas de financiamento climático. Durante a SB62, os negociadores retornaram à própria interpretação do artigo 9.1 do Acordo de Paris, que afirma que os países desenvolvidos devem prover financiamento aos países em desenvolvimento, mas não esclarece quais os canais para que esse financiamento se materialize.

A defesa dos países desenvolvidos é de que uma fatia maior do financiamento climático deve vir dos recursos privados. Para além da mobilização dos recursos, no entanto, os países precisarão atingir um consenso também na interpretação do artigo 2.1c do Acordo de Paris, que define que todos os fluxos financeiros devem se tornar alinhados à meta global de limitar a elevação da temperatura a 2°C, o que passa por questões como a reforma dos bancos de desenvolvimento e a revisão da estrutura de gestão de riscos no mercado financeiro (o chamado framework de Basileia). A Rota Baku-Belém, liderada pelas presidências do Brasil e do Azerbaijão, deve ser entregue até o final de outubro, dando maior clareza sobre os itens de negociação em Belém.

Por fim, mas não menos importante, a Conferência também tinha a tarefa de lidar com os resultados do Global Stocktake, incluindo a decisão da COP28, em Dubai, de buscar uma transição que “nos afaste” dos combustíveis fósseis e a necessidade de triplicar as energias renováveis e duplicar a eficiência energética. Não houve consenso sobre a implementação dessas ambições, com discussões, novamente, voltando a entraves como o financiamento climático. Mais uma complexa tarefa, e prioridade, para a presidência brasileira.

Com a conclusão da Conferência de Bonn, os desafios e prioridades para a COP30 começam a ficar mais claros. Para o setor privado, entender os rumos da agenda climática global permite antecipar tendências, identificar oportunidades e fortalecer parcerias que gerem valor compartilhado.

No Itaú BBA, temos trabalhado para apoiar nossos clientes na incorporação de critérios ambientais, sociais e de governança em suas estratégias de negócio. Reconhecemos a importância de colaborar com diferentes setores e de promover um ambiente favorável à inovação e ao investimento sustentável.

Com a COP30 se aproximando e sendo sediada em Belém, o Brasil ganha protagonismo na condução das próximas etapas desse diálogo global. Será uma oportunidade significativa para que o país e a América Latina compartilhem suas experiências e contribuam para soluções que combinem desenvolvimento econômico e sustentabilidade.

Luciana Nicola - Diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade do Itaú Unibanco.