Road to COP30: o agro é parte da solução

Por Itaú BBA

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O agronegócio vem ganhando mais e mais espaço na discussão climática internacional. O assunto aparece, na COP30, lado a lado com os pilares do regime multilateral para responder à crise. O agro é parte fundamental das negociações na Conferência em Belém, entre 10 e 21 de novembro, sobre como implementar as decisões para descarbonizar a economia global, como financiar esse esforço e como monitorar a adaptação do mundo ao novo cenário. Os novos caminhos para o investimento internacional em agricultura e sistemas alimentares viraram tema central do Fórum da ONU sobre finanças climáticas em Roma, em setembro. Os governos tentam resolver uma contradição: mais de 90% dos países colocam os sistemas alimentares como “prioridade chave” em seus esforços de mitigação e adaptação; mas a transformação desses sistemas vêm recebendo menos de 4% do financiamento climático global.

Além dos sistemas alimentares, o agronegócio inclui cadeias de biocombustíveis, fibras naturais, celulose e biomateriais em geral – um conjunto com vocação única para se tornar negativo em carbono (ou positivo para o clima) por sua contribuição dupla: as plantas absorvem carbono ao crescer e seus produtos impedem emissões de carbono ao substituir combustíveis fósseis e materiais derivados de petróleo.

Antes de chegarmos aos detalhes do agro como solução, é importante entender os desafios. Esse macrossetor exige atenção por três motivos:

1) Apesar de 85% das emissões históricas serem resultado do uso de energias de fontes fósseis, o agro tem papel relevante nas mudanças no clima. No Brasil, a agropecuária responde por 27% das emissões (um quarto desse total cabe à agricultura, três quartos à pecuária). No mundo, sistemas alimentares respondem por cerca de 30% das emissões (12% é a fatia só da agricultura). Por isso, estratégia nacional de mitigação precisa incluir o setor.

2) O agronegócio inclui as cadeias de valor mais vulneráveis à crise climática. A perda do agronegócio com eventos extremos em 2024 foi de R$ 6,7 bilhões no Brasil e US$ 20 bilhões nos Estados Unidos, para ficarmos só em dois dos grandes produtores agropecuários. Os prejuízos se espalharam também por Europa, África e Ásia. O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) dividiu o mundo em 45 regiões e constatou que, desde os anos 1950, os picos de calor se tornaram mais frequentes em 41 delas. Os episódios de seca com impacto na agricultura já avançam em 12 delas, incluindo o Nordeste da América do Sul e do Brasil. O mesmo relatório informa que, no meio das consequências ruins, a mudança no clima pode até levar algumas vantagens para a agricultura na Ásia, Europa e América do Norte. Para a América do Sul, os efeitos previstos são 100% ruins. Para o mundo, o saldo também é ruim.

Por isso, o agro tem papel-chave no esforço de adaptação e resiliência, um tema crucial na COP30. Na Meta Global de Adaptação (GGA), entre os sete aspectos que exigem atenção mundial, o agronegócio tem alto impacto sobre pelo menos quatro: alimentos, água, biodiversidade e pobreza.

No Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima do Brasil (publicado em duas partes, volume 1 e volume 2), entre 11 aspectos indicados como prioridade, o agronegócio tem papel decisivo em pelo menos três: agricultura; biodiversidade e ecossistemas; e segurança alimentar e nutricional.

O assunto ganha urgência também porque este ano termina o prazo para os países apresentarem seus Planos Nacionais de Adaptação (NAPs). Até julho, haviam mostrado seus NAPs 64 países em desenvolvimento (incluindo o Brasil) e 10 países desenvolvidos; pelo menos outras 70 nações vêm preparando esse material.

Espera-se que os planos dediquem muita atenção à produção de alimentos – segundo uma análise da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), 94% entre 193 países afirmaram, em documentos oficiais publicados de 2016 a 2024, que o tópico seria “prioridade-chave” em suas estratégias de adaptação.

3) O agro precisa evoluir sem comprometer a segurança alimentar no planeta. Ao mesmo tempo em que se promovem as mudanças desejadas do ponto de vista ambiental, é preciso garantir ou aumentar a quantidade, diversidade e disponibilidade de alimentos no mundo. Na edição 2025 de seu relatório sobre segurança alimentar global, a FAO informa que a fome no mundo continua em queda (a parcela da humanidade afligida pelo problema diminuiu de 8,5% para 8,2%), tendência que ocorre também na América do Sul. Na África e em partes do oeste da Ásia, porém, a fome aumentou. Entre as causas estão disparadas de preços dos alimentos e efeitos de guerras.

4) O agronegócio é parte importante da solução para a crise climática. Quando o plantio e a criação de animais seguem os princípios adequados, geram muitos benefícios: acumulam carbono e água, protegem mananciais, preservam a biodiversidade (com mais polinizadores e menos pragas), protegem o solo e o tornam mais fértil com o passar do tempo, em vez de esgotá-lo. Existe uma discussão sobre definições e indicadores, mas podemos dizer que o conjunto dessas boas práticas, principalmente se melhoram progressivamente o solo, compõem o agronegócio regenerativo.

Parte destas contribuições estão sintetizadas pelo Plano ABC+ fomentadas por meio do Plano Safra (que há anos inclui tópicos como “práticas agrícolas sustentáveis” e “proteção do solo”), no Plano Safra da Agricultura Familiar (com o nome de “agroecologia”) e na pauta da Embrapa na COP29.

O governo federal percebeu o potencial do setor e dedicou à recuperação de pastagens degradadas o segundo leilão do Eco Invest, programa com o objetivo de atrair capital privado, brasileiro e estrangeiro, para a construção da economia de baixo carbono. O resultado:R$ 30,2 bilhões de investimentos, a serem feitos até 2027.

O IPCC lista “múltiplas oportunidades para dar escala à ação climática” a partir do agronegócio. Muitas dessas oportunidades podem dar lucro, porque sugerem serviços com demanda crescente por parte de governos, grandes empresas e grandes produtores rurais.

A lista contém:

  • Melhor gestão do solo,
  • Melhor gestão de rebanhos,
  • Aquicultura (pela capacidade de produzir proteína animal sem uso de terra),
  • Criação ou expansão de agroflorestas (combinações variadas de espécies vegetais, sempre incluindo árvores e um esforço de reflorestamento ou preservação, para produzir alimentos, fibras, biomateriais ou biocombustíveis).

Entram na lista também serviços ambientais prestados com a criação, expansão ou preservação de áreas verdes, como proteção de mananciais, gestão da biodiversidade, conexão de ecossistemas e defesa de áreas costeiras contra tempestades e elevação do nível do mar (lembrando que áreas verdes sempre podem, adicionalmente, produzir alimento). Todos têm potencial para “gerar múltiplos benefícios e reduzir risco climático.”

Além dessas atividades, é possível gerar créditos de carbono nas áreas em questão. O Brasil tem vantagem competitiva em todas essas frentes de trabalho, por sua autoridade global em técnicas de reflorestamento e gestão de florestas, obtida, em grande parte, pelo setor de papel e celulose.

Entre as técnicas mais estudadas hoje para aumentar o poder regenerativo do agro aparecem a cobertura permanente do solo com matéria orgânica, o uso de biocarvão (biochar), o Intemperismo Acelerado de Rochas (aplicação de pó de rocha ao solo agrícola), a rotação de culturas e os consórcios de espécies com diferentes alturas e ciclos de crescimento, para aproveitar ao máximo a umidade, luz solar e os nutrientes do solo numa mesma área.

Todas contribuem com a retenção de carbono e água na área plantada – por isso, foram listadas pela Abag (Associação Brasileira do Agronegócio) no posicionamento do setor para a COP30.

Esses recursos são usados, em diferentes escalas, por companhias ligadas diretamente ao agronegócio ou com algum interesse em projetos de preservação e reflorestamento. O país virou um terreno rico em experiências com investimentos de grandes empresas como O Boticário, Danone, Klabin, Natura, Nestlé, Suzano, Sylvamo, Syngenta, West Rock e Yara (de setores tão diferentes quanto alimentos, agroquímicos, cosméticos, embalagens, fertilizantes, papel e celulose).

E a diversidade de experiências e a demanda por serviços fez surgir nos últimos anos uma geração de empresas menores, intensivas em conhecimento e tecnologia, como Belterra, Canopée, Corageous Land, Mombak, Re.green, Symbiosis e Sanctu – participantes de um novo mercado, cheio de possibilidades que mal começaram a ser aproveitadas.