Road to COP30: todos pela implementação
Por Itaú BBA
Os preparativos para a COP30, em Belém seguem acelerados. A urgência climática, o volume de compromissos já existentes, e o marco simbólico dos 10 anos do Acordo de Paris elevam a expectativa sobre a Conferência e movimentam a agenda de articulação e discussão. É hora de buscar e mostrar os resultados. Ganha força, mundo afora, a ideia de que essa precisa ser a COP da implementação. Esse espírito animou a Semana do Clima de Nova York, maior evento privado do mundo sobre o tema.
Representantes de mais de 890 empresas e centenas de ONGs, governos e instituições de pesquisa, além de cidadãos interessados, participaram presencialmente em setembro da edição 2025, a maior dos 16 anos da Semana, com cerca de mil eventos ocupando a cidade. Como de costume, a programação destacou o protagonismo do setor privado – um ótimo aquecimento para a COP30. Este ano, duas das principais propostas apresentadas em Nova York traziam inovações financeiras a fim de acelerar a transição:
- o TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre, na sigla em inglês), a ser lançado oficialmente na COP30, propõe um sistema para remunerar países por sua área de florestas em pé. Se funcionar, tem potencial para atrair para a preservação florestal até mesmo o capital que busca apenas remuneração. O fundo foi idealizado pelo governo brasileiro e virou tema de reunião na sede da ONU (a Semana do Clima ocorre sempre junto com a Assembleia Geral das Nações Unidas, para aproveitar a reunião de autoridades).
- O ReInvest+, parceria entre o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e a SB COP (The Sustainable Business COP30, iniciativa empresarial internacional liderada pela CNI, a Confederação Nacional da Indústria) identificou cerca de US$ 3 trilhões em empréstimos de bancos comerciais a projetos de sustentabilidade e descarbonização no mundo, sendo US$ 500 milhões na América Latina e Caribe. O mecanismo pretende transformar esses empréstimos em ativos negociáveis no mercado internacional e, assim, abrir espaço para os bancos locais oferecerem mais crédito – sempre para iniciativas de transição climática.
Esforços assim deram o tom em Nova York. A necessidade de atuação do setor privado para financiar a transição energética e conter emissões de carbono foi destacada em vários momentos da Semana.
"Para preenchermos o hiato de financiamento, sobretudo em adaptação, precisamos ampliar significativamente o investimento privado. Isso exige uso estratégico de recursos públicos catalíticos, redução do risco cambial e diminuição de assimetrias — iniciativas como o Eco Invest e o BIP (Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos) apontam nesse caminho”, afirmou Cristina Reis, subsecretária de Desenvolvimento Econômico Sustentável do Ministério da Fazenda, no evento Encruzilhada Climática (Climate Crossroads), organizado pelo Instituto O Mundo Que Queremos e parceiros.
A executiva lembrou que governos podem facilitar os negócios climáticos e canalizar o capital privado mesmo sem elevar o gasto público, por meio de regulações como a Taxonomia Sustentável e o mercado de carbono. “A COP30 deve ser o momento de consolidar esses instrumentos e transformá-los em soluções globais e disponíveis para os demais países em desenvolvimento", disse Reis.
Na Cúpula Global de Energia Renovável (Global Renewable Energy Summit), um dos maiores eventos na programação em Nova York, o recado mais direto foi dado por Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, dirigindo-se a CEOs e investidores: “Digam-nos o que vocês precisam, sejam garantias, ferramentas de compartilhamento de risco ou ambiente regulatório favorável, para que possamos providenciar isso e possibilitar que vocês invistam em grande escala no que mais importa.”
O que está planejado precisa ir para a execução; o que está em execução e funciona bem precisa ganhar escala. Para ajudar a direcionar os esforços, vários participantes da Semana apresentaram ferramentas, listas e exemplos, material útil para quem quer acelerar a mudança e procura oportunidades nela. Alguns números-chave resumem esse esforço:
29 prioridades para construir uma economia limpa foram listadas pelo setor privado e apresentadas em Nova York a André Corrêa do Lago, presidente da COP30. A Carta do Setor Privado envolveu empresas e entidades empresariais de mais de 60 países, incluindo algumas das maiores economias do mundo, como Estados Unidos, Japão e Alemanha, e foi coordenada pela CNI. Entre as prioridades estão a padronização de métricas para a agricultura sustentável, a convergência de mercados de carbono e a simplificação de regulações para a economia circular.
10 temas abrigam todas as ações listadas na Carta do Setor Privado: transição energética, economia circular, bioeconomia, sistemas alimentares, soluções baseadas na natureza, cidades sustentáveis, empregos e habilidades verdes, saúde, contabilidade de carbono e finanças e investimentos para a transição.
6 eixos temáticos organizam os objetivos-chave da Agenda de Ação, criada pela organização da COP30, publicada no fim de agosto e apresentada em diferentes painéis em Nova York. São eles: 1 - finanças, tecnologia e capacitação, consideradas “catalisadores e aceleradores”, formam um eixo transversal aos outros cinco; 2 - transição energética; 3 - gestão de florestas, oceanos e biodiversidade; 4 - transformação da agricultura e sistemas alimentares; 5 - construção de resiliência em cidades, infraestrutura e água; 6 - promoção do desenvolvimento humano e social. O empresário Dan Ioschpe, campeão de alto nível da COP30 (figura responsável pela conexão entre os governos e os atores não governamentais) explicou que essa moldura, de fácil visualização, baseia-se no que já foi acordado em COPs anteriores e é uma proposta brasileira para uso mesmo depois da conferência em Belém.
30 objetivos-chave se distribuem pelos seis eixos temáticos da Agenda de Ação. Fazem parte da lista a harmonização dos mercados de carbono, a duplicação do ritmo de ganho de eficiência energética e a ampliação do treinamento profissional para lidar com o novo cenário criado pela crise e pelas suas soluções.
600 iniciativas de enfrentamento da crise climática, espalhadas pelo mundo, foram catalogadas e compõem a base inicial da plataforma Celeiro de Soluções, apresentada em Nova York por Bruna Cerqueira, coordenadora geral da Agenda de Ação da COP30.
Ioschpe afirmou que cerca de 300 dessas iniciativas já estão avançando e que é crucial garantir apoio aos bons esforços já existentes, antes de propor novos. A plataforma está aberta para consulta e registro de novas iniciativas.
3 esferas de influência compõem um modelo de ação para as empresas que quiserem agir além dos três escopos de emissões de carbono. As esferas se baseiam em finanças, comunicação e produtos e serviços. O modelo foi proposto em Nova York pela Universidade de Oxford, do Reino Unido, e pela Futerra, empresa B e agência de sustentabilidade.
170 prefeituras de municípios americanos e canadenses ao longo da fronteira entre os dois países formam a Iniciativa pelos Grandes Lagos e Rio São Lourenço, para defender seus mananciais e promover crescimento econômico sustentável. A coalizão, exemplo de ação local e cooperação internacional, foi apresentada pelos prefeitos de Chicago e Montreal.
20 portos contribuíram com um manual de orientação sobre como esses hubs logísticos podem se tornar também hubs de transição energética, com influência local e internacional. O relatório da ONG C40 Cities, concluído em janeiro, foi apresentado em Nova York.
O foco em implementação é um recado claro e os governos e o setor privado querem demonstrar resultados na COP30, até o momento apenas 56 países apresentaram metas climáticas atualizadas, o que demonstra o tamanho do desafio do Brasil na COP30 e a relevância da articulação entre os mais diferentes atores.