Rumo à Brazil Climate Solutions

Por Itaú BBA

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A ação climática ganhou destaque nas últimas semanas, depois que representantes de governos, empresas, sociedade civil e academia se encontraram em alguns dos eventos mais relevantes do calendário ambiental de 2026. Tivemos em junho, a primeira edição da Rio Nature & Climate Week (Semana da Natureza & do Clima do Rio ou RNCW), a Conferência Sobre Mudança Climática em Bonn, na Alemanha, e a Semana da Ação Climática em Londres (LCAW) – cada uma com contribuições em metas, ideias e iniciativas que podem ser adaptadas para as práticas e estratégias de empresas, setores e governos locais.

Considerando o cardápio extenso de assuntos que afetam o ambiente de negócios, de finanças climáticas a transição justa, passando por adaptação e agenda de ação, é bom que o calendário deste ano ainda ofereça mais oportunidades para debate e estudos de casos. Temos pela frente a Brazil Climate Solutions ––, de 3 a 8 de agosto (que, entre outros temas, vai tratar especificamente de implementar as medidas de mitigação e adaptação a partir da COP30 e como isso afeta o setor privado. Clientes Itaú têm acesso gratuito ao evento); uma Climate Week da ONU em Baku, Azerbaijão, de 7 a 11 de setembro; e os Encontros Pré-COP, nas Ilhas Fiji, de 5 a 8 de outubro – até chegarmos à COP31, em Antália, na Turquia, de 9 a 20 de novembro.

Nesse circuito anual, a Conferência de Bonn também é um encontro preparatório da agenda da COP. É o momento de os governos avançarem o máximo possível em discussões técnicas, para facilitar a tomada de decisões posteriores. Passaram pelo evento este ano representantes de 873 organizações, entre empresas e Terceiro Setor, para acompanhar as negociações, debater nos painéis e oferecer apoio técnico aos governos.

Participantes destacaram, como resultado positivo do encontro, o avanço no detalhamento do Mecanismo de Transição Justa criado na COP30, em Belém, em 2025. “Implementamos um alicerce crucial para acelerar a transição justa e aprofundar a participação e o engajamento nas sociedades”, afirmou Simon Stiell, secretário executivo da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima) em um resumo de resultados da conferência de Bonn.

O trabalho, ainda em andamento, vai estabelecer governança, cronograma e formas de ação do mecanismo, além de identificar barreiras e oportunidades para que funcione melhor. O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, lembrou que esse esforço é um legado das negociações ocorridas no Brasil.

A COP30, aliás, teve forte presença nos debates na Europa. Corrêa do Lago continuou em ação em Bonn, para garantir que seguisse na agenda da COP31 o programa de trabalho sobre financiamento climático, conforme combinado em Belém (um rascunho da pauta excluía o item). Essa linha de discussões se propõe a tornar mais previsível o fluxo de recursos públicos dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento, necessários para a transição justa.

A Presidência da COP30 foi lembrada também na Semana do Clima em Londres, como uma das promotoras da plataforma global “Eletrificar Já” (“Electrify Now”), ao lado de governos, empresas e organizações internacionais. Trata-se de um esforço para acelerar a eletrificação de transportes, indústria e construção, contemplando também armazenagem de energia em grande escala e infraestrutura de energia renovável resiliente diante de eventos climáticos extremos. A iniciativa foi lançada em Londres e Murat Kurum, copresidente da COP31, dias depois reforçou em Bonn sua meta principal: elevar de 20% para 35% a parcela de demanda energética atendida por eletricidade até 2035 – associada à expectativa implícita de que essa eletricidade venha de fontes limpas, renováveis ou de baixa emissão (da forma como está redigida, a meta não deixa isso evidente, o que gerou críticas).

Kurum, que é ministro do Meio Ambiente da Turquia, propôs em Bonn mais duas novas metas globais para 2035, em construção civil (reduzir em pelo menos 25% a intensidade de consumo energético do setor) e eficiência geral da economia (reduzir à metade o ritmo de expansão do volume de resíduos). Um pilar da COP31, “Cidades Resilientes”, inclui entre seus objetivos proteger empresas contra custos crescentes de energia.

O balanço geral de Bonn aponta oportunidades para temas importantes ganharem mais espaço e alerta para obstáculos às negociações. O biólogo Gustavo Figueiroa, diretor na SOS Pantanal, participou da Conferência porque a ONG sugeriu (e a ONU aceitou) tratar, em um painel, do manejo integrado do fogo – um tópico fundamental para a adaptação, diante da maior frequência de incêndios em diferentes biomas ao redor do mundo.

“É um tema novo, que até há pouco tempo nem tinha espaço próprio na Conferência. Vê-lo ganhar espaço e tração técnica, com o Brasil puxando essa conversa, foi um ponto alto (da Conferência)”, afirma o biólogo. Mas ele viu problemas que persistem. “O saldo geral foi parecido com o de outras conferências, de impasse, com avanços limitados e decisões empurradas para a frente”, alerta. O secretário-executivo Stiell encomendou a um grupo de especialistas sugestões sobre o formato de negociação e decisão, a fim de acelerar os trabalhos.

Um tema de difícil avanço e que afeta todos os outros é o financiamento climático – países desenvolvidos consideram irrealista a meta de elevar para US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 o fluxo de recursos para os países em desenvolvimento. Maio trouxe a boa notícia de que esse fluxo avançou de US$ 132,8 bilhões para US$ 136,7 bilhões de 2023 para 2024, segundo um relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que inclui a maioria dos países desenvolvidos). Mas há receio que o movimento tenha perdido força desde 2025.

O desafio não é só a quantia de dinheiro a mobilizar. Em Londres, participantes questionaram: para onde vão os recursos e quem participa das decisões sobre seu uso? “Comunidades tradicionais e organizações lideradas por mulheres permanecem sistematicamente à margem desses mecanismos. O desafio não é só de volume, é de arquitetura financeira”, afirma Rodrigo Cunha, CEO da consultoria de reputação e impacto Profile, que participou da LCAW como moderador de painel.

A aplicação mais eficiente de recursos amplia o impacto da ação climática. Esse lembrete marcou as Semanas do Clima em Londres e no Rio. O economista Sérgio Besserman, conselheiro da RNCW, celebrou o destaque conseguido na programação dos dois eventos para o papel do metano nas mudanças do clima, um tópico que ganhou importância também nas discussões entre governos. O metano é emitido para a atmosfera em escala muito menor que o dióxido de carbono, mas proporcionalmente tem efeito muito maior – a Agência Internacional de Energia (IEA) estima que o gás responda por 30% do aquecimento global médio ocorrido desde a Revolução Industrial. Com menor volume de emissões e menos fontes geradoras (como resíduos urbanos e extração de petróleo), trata-se de um ótimo alvo para políticas públicas e esforços privados de enfrentamento da crise. A Semana do Rio entrou para o calendário ambiental global e tem edições confirmadas até 2030, pelo menos.

A conversa não para e a próxima rodada acontece na Brazil Climate Solutions, em São Paulo. Ao longo de cinco dias, o evento com correalização do Itaú vai tratar de segurança energética, transporte sustentável, sistemas agroalimentares resilientes e regenerativos, financiamento climático, mercado de carbono, inteligência artificial responsável e eficiência energética em data centers – todos temas prioritários para os negócios engajados na construção da economia de baixo carbono.