Série de debates destaca soluções climáticas em Belém
C.A.S.E. leva à COP30 respostas brasileiras às mudanças do clima e conecta setores na construção de respostas práticas
Por Itaú BBA
Conversas produtivas para lidar com as mudanças do clima – esse foi o espírito que animou a programação da Casa C.A.S.E. em Belém, entre os dias 11 e 17 de novembro. A Casa reuniu empresas, governos, academia e sociedade civil durante a COP30, com uma agenda alinhada às prioridades da Conferência, em torno de sete eixos: finanças, bioeconomia, economia circular, sistemas alimentares, transição energética, transição justa, infraestrutura e mobilidade. O espaço se tornou ponto de encontro entre quem desenvolve projetos e quem pode ampliá-los.
Sistemas alimentares abriram os debates, com foco no potencial da agricultura regenerativa e da coordenação entre setores para fortalecer cadeias de baixo carbono. As conversas destacaram o papel da rastreabilidade e da redução de desperdícios na construção de sistemas mais resilientes. A perspectiva que emergiu é de que o Brasil pode liderar globalmente nessa agenda, combinando produtividade com segurança alimentar e efeito socioambiental positivo.
Bioeconomia ganhou destaque como vetor capaz de conectar ciência, investimento e protagonismo comunitário. No painel sobre compras sustentáveis, representantes do setor privado discutiram como empresas podem impulsionar cadeias da sociobiodiversidade e ampliar competitividade em mercados globais. O consenso apontou para a necessidade de dar grande escala a soluções que integrem conhecimento tradicional, inovação tecnológica e acesso a financiamento.
O tema infraestrutura e mobilidade motivou discussões sobre eletrificação do transporte público, expansão dos modais ferroviário e hidroviário, e o papel estratégico dos biocombustíveis. A convergência entre crédito direcionado, inovação tecnológica e segurança de demanda foi apontada como essencial para viabilizar a transformação de cidades e cadeias logísticas.
A agenda de finanças trouxe uma das contribuições mais marcantes da semana. José Alexandre Scheinkman, economista e professor da Universidade Colúmbia, além de integrante do conselho consultivo de finanças da Presidência da COP30, abordou os desafios e oportunidades da comercialização de carbono. “O mercado de carbono precisa de regras que sejam transparentes e aceitas por todos”, afirmou. Para o economista, não existe hoje um sistema comum de mensuração — e isso abre espaço para que o Brasil construa um modelo crível, baseado em transparência e rigor científico.
Scheinkman defendeu que o Brasil tem condições de liderar ao adotar sistemas robustos de certificação e rastreabilidade de emissões, capazes de atrair investimentos e orientar projetos de mitigação e adaptação. Ele também chamou atenção para o potencial das florestas tropicais na captura de carbono e ressaltou que países que enfrentaram o desmatamento têm hoje a oportunidade de regenerar áreas degradadas. Sua fala trouxe um recado direto: finanças podem redistribuir risco, mas não eliminam incerteza. Para isso, projetos bem desenhados e mercados bem regulados são indispensáveis.
A discussão sobre transição energética reuniu Nigel Topping, presidente do Comitê de Mudanças Climáticas do Reino Unido, e Arunabha Ghosh, presidente do Conselho de Energia, Meio Ambiente e Água da Índia. Os debates abordaram biocombustíveis, geopolítica da energia e caminhos práticos para descarbonizar setores intensivos. Ghosh resumiu o desafio enfrentado por países do Sul global: “Estamos por conta própria. O jeito é fazer acontecer com os recursos que temos.” Topping destacou a mudança de foco desta COP: “Foi a primeira vez que a presidência afirmou que negociações importam, mas implementação e economia são igualmente importantes.”
O tema transição justa trouxe Mary Robinson, que já foi enviada especial da ONU para mudanças climáticas e alta comissária da ONU para Direitos Humanos (além de ter sido a primeira mulher eleita presidente da Irlanda). Ela reforçou o momento delicado da geopolítica global. “É muito bom que uma coalizão tenha sido formada para apoiar o mundo para o qual precisamos correr. A Presidência brasileira (da COP30) está trabalhando duro e precisa desse apoio”, afirmou.
Robinson, autora da obra seminal “Justiça Climática”, defendeu que empresas deixem de investir no “velho mundo” e acelerem a transição para modelos de negócio alinhados com a descarbonização. Citou dados que mostram que 99% dos CEOs pretendem manter ou expandir compromissos de sustentabilidade e que 91% dos projetos baseados em energia renovável já são mais baratos que alternativas com fontes fósseis. Ela também destacou a importância da recente opinião consultiva da Corte Internacional de Justiça, segundo a qual governos signatários do Acordo de Paris têm a obrigação legal de agir para limitar em 1,5°C o aquecimento médio global. “Países e empresas que não se alinham seriamente a esse objetivo podem se ver sujeitos a litígios”, alertou.
Economia circular encerrou a programação, com foco em modelos que ampliam a produtividade ao reduzir o consumo de recursos. Tamara Klink, velejadora que aos 26 anos passou oito meses isolada em um barco no gelo do Ártico, dividiu a conversa com Kim Stanley Robinson, escritor de ficção climática, autor de obras como “Os Anos de Arroz e Sal”. Robinson comentou o relato da navegadora: “A Tamara é uma das minhas heroínas agora. Achei a experiência dela maravilhosa.”
A Casa C.A.S.E. foi criada pela iniciativa C.A.S.E. (Climate Action Solutions & Engagement), formada por Itaúsa, Itaú Unibanco, Bradesco, Marcopolo, Natura, Nestlé e Vale para identificar casos de inovação ambiental que geram valor aos negócios e dar escala a soluções climáticas. A programação somou 70 horas de transmissão ao vivo em três idiomas, com sete canais simultâneos e 40 mil visualizações.