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Transição energética e as (boas) oportunidades para o Brasil

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Itaú BBA

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Na corrida para fazer a transição energética e descarbonizar a economia, não existe bala de prata. Para chegar ao net zero em 2050 e, com isso, limitar a elevação da temperatura na Terra e evitar os piores efeitos do aquecimento global, o mundo precisará desenvolver e escalar um leque de soluções de mitigação, como deixa claro o Net Zero Roadmap, da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês). Estamos falando de fontes de energia alternativas e também de novas tecnologias, que enfrentam enormes desafios para de fato substituírem a fonte fóssil.

A boa notícia é que essa corrida traz também oportunidades de novos negócios e o Brasil apresenta inegáveis vantagens para conquistar uma fatia do mercado global em muitas dessas frentes – resta saber se conseguiremos transformá-las em realidade.

Quando pensamos em fontes renováveis de energia, a eletrificação com base em geração eólica e solar logo vem à mente.

Segundo a IEA, escalar as fontes renováveis é o principal fator de redução de emissões até o fim desta década. A projeção é que o mundo precise triplicar a capacidade instalada até 2030, compromisso que foi assumido por mais de 100 países em dezembro, durante a COP28, em Dubai.

No ano passado, segundo a agência, o mundo atingiu investimentos de US$ 1,8 trilhão em energia renovável, mas precisa chegar a uma cifra anual de US$ 4,5 tri até o fim desta década.

No Brasil, a matriz de eletricidade já é predominantemente limpa e, com a abundância de sol e ventos, a geração solar é a que mais tem crescido nos últimos anos (já responde por 16% da capacidade instalada da matriz elétrica, segundo a Absolar), enquanto a eólica vem em segundo lugar. A elevada taxa de juro e o baixo preço da energia, nos últimos anos, desaceleraram o desenvolvimento de novos projetos, mas este é um cenário que tende a ser passageiro.

E a eólica offshore?

Com a Petrobras anunciando planos nessa área no ano passado, a geração eólica offshore entrou na pauta nacional. Mas, em um país com dimensões continentais e com um dos melhores ventos do mundo para a produção de energia em terra firme, faz sentido investir em eólicas no mar? As opiniões de especialistas se dividem sobre a viabilidade e a necessidade.

Hidrogênio verde, o combustível do futuro? Se para carros e veículos leves, a transição para alternativas energéticas de baixo carbono está nos motores elétricos e nas baterias, existe uma ampla gama de setores críticos para a descarbonização da economia aos quais esse combo não se aplica. É o caso de grandes navios ou aviões, que não podem pesar demais nem têm o luxo de paradas para recarga no meio do caminho, e indústrias pesadas, como a siderurgia, que depende da queima do carvão para produzir aço. Para muitas dessas atividades, a aposta é o hidrogênio verde.

  • Esse combustível do futuro ainda custa caro e é produzido em pequenas quantidades. O cenário tende a mudar nos próximos anos, embora o desenvolvimento esteja se dando de forma mais lenta do que o projetado.
  • O hidrogênio verde é produzido via eletrólise da molécula da água a partir de energia limpa. Água e energia renovável são dois insumos abundantes no Brasil, o que torna o país um dos candidatos a liderar esse novo segmento da indústria da energia.
  • As estimativas apontam que esse segmento poderá girar em torno de 420 e 600 milhões de toneladas de hidrogênio verde por ano em 2050. E o Brasil poderá responder por algo entre 20 e 30 milhões de toneladas, se tornando um importante exportador.
  • O Brasil tem mais de 30 projetos de hidrogênio verde mapeados em três hubs principais (nos portos de Pecém, Suape e Açu), mas ainda está tudo no papel. As primeiras decisões de investimento, efetivamente, são esperadas para este ano. Um dos principais desafios do país é não ser apenas um produtor dessa nova commodity, mas avançar na cadeia com produtos de maior valor agregado.

  • Grandes siderúrgicas, como ArcelorMittal, apostam pesado na rota do hidrogênio verde para descarbonizar a atividade. Um dos casos mais promissores é o da sueca H2 Green Steel, que começa a produzir em 2026 e tem planos de chegar ao Brasil.

(Se quiser saber mais sobre essa rota tecnológica, o Reset tem um guia sobre o hidrogênio verde)

Biocombustíveis - Os setores da economia chamados de ‘hard to abate’, ou seja, de difícil mitigação de suas emissões, são cruciais para o mundo chegar ao net zero. Se o hidrogênio é uma das apostas, os biocombustíveis despontam como a solução mais à mão para segmentos inteiros, como o de aviação. E essa é outra frente em que o Brasil se destaca.

No último dia 13 de março, a Câmara dos Deputados aprovou o PL do Combustível do Futuro, com incentivos aos biocombustíveis, incluindo a criação de um programa de estímulo ao biometano. O texto segue para o Senado.

O biometano, ou gás natural renovável, é a fonte de bioenergia que mais cresce no mundo. A agência aposta no Brasil como o quinto maior produtor mundial em 2027. Entre aterros sanitários e resíduos da agricultura e da pecuária, o país tem matéria-prima de sobra para transformar o metano emitido naturalmente em suas operações em um produto de mais alto valor, com aplicações variadas e potencial de contribuir com as metas climáticas das empresas e também do país.

O Brasil tem hoje 885 usinas de biogás, mas a maioria queima o metano para gerar eletricidade. Apenas 20 delas estão aptas a fazer a purificação que o transforma no gás renovável que pode substituir o gás de origem fóssil numa caldeira industrial ou num motor de ônibus – e apenas seis têm autorização de comercialização. A Abiogás, entidade que reúne as empresas do setor, estima que 90 plantas produzirão biometano em 2029, com investimentos previstos de R$ 11 bilhões.

SAF, combustível sustentável de aviação - Os aviões representam cerca de 2% do total das emissões de gases de efeito estufa mundiais e há cada vez mais aviões no céu  – o número de passageiros transportados pode mais que dobrar até 2040. Dois terços da meta de descarbonização da aviação até a metade do século virão do uso de SAF, que pode ser produzido a partir de óleos animais e vegetais (como soja ou macaúba) e também a partir de álcoois (etanol de cana, milho ou celulósico).

Com décadas de experiência na produção de biocombustíveis e liderança tecnológica na agricultura, o país tem o potencial de ser um grande exportador dessa nova commodity. Mais uma vez, o problema é que o SAF ainda é produzido em quantidades ínfimas.

A Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata) espera que a produção dos vários tipos de SAF engrene para valer na próxima década. Os investimentos estão sendo feitos agora, inclusive no Brasil.

Alguns destaques:

  • A gaúcha Be8 (antiga BSBIOS) está erguendo uma planta de US$ 1 bilhão no Paraguai para produzir SAF e diesel verde.
  • Na Bahia, o fundo soberano Mubadala, de Abu Dhabi, anunciou há três meses um plano de investir R$ 12 bilhões em uma biorrefinaria para produzir combustível renovável de aviação usando como insumo o óleo da macaúba, uma palmeira nativa do Brasil.
  • A GranBio, fundada pelo ex-CEO da Braskem Bernardo Gradin, detém propriedade intelectual para produzir etanol celulósico (ou de segunda geração) com resíduos orgânicos. A empresa recebeu uma subvenção de US$ 80 mi do governo americano para a implantação de uma planta piloto.
  • E a Raízen foi a primeira produtora de etanol do mundo a receber aprovação formal do Corsia, um acordo da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) para a descarbonização da aviação.

A Raízen também tem liderado a corrida para o etanol de segunda geração, ou E2G, também chamado de etanol celulósico, numa aposta de que nem só de eletrificação e hidrogênio verde se fará a descarbonização dos transportes. Ele é chamado de segunda geração porque é feito dos resíduos da moagem da cana ou do milho e apresenta vantagens competitivas em relação ao etanol de primeira geração, especialmente em mercados como o europeu, por não competir com o espaço dedicado à produção de alimentos.

No último dia 15 de março, a companhia recebeu autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para começar a produção e comercialização na sua segunda planta de E2G, na cidade de Guariba (SP), a maior planta de etanol celulósico do mundo.

E a energia nuclear tem vez na transição? Cercada de controvérsias por conta do risco ambiental comprovado por desastres como o de Chernobyl, na Ucrânia, e Fukushima, no Japão, a energia nuclear voltou à pauta com força diante da necessidade de se acelerar a transição energética.

Trata-se de uma fonte de eletricidade com zero emissão de carbono, capaz de funcionar sem intermitência (diferentemente da eólica e da solar) e com potencial de produção em larga escala.

Numa decisão histórica, o Japão, por exemplo, decidiu reativar 17 usinas nucleares e construir novas, para reduzir a dependência de fósseis. A União Europeia incluiu projetos de energia nuclear na sua taxonomia verde[FL1] , que indica quais projetos podem receber financiamentos verdes. Por aqui, a fonte responde por apenas 2% da matriz elétrica (ante 20% em países desenvolvidos) e a custo-efetividade é um dos principais obstáculos ao avanço quando se compara com eólica e solar. 

Além da mitigação

Evitar as consequências mais catastróficas da mudança climática passa tanto por reduzir as emissões de gases de efeito estufa quanto por retirar parte dos gases que já estão na atmosfera.

Não à toa, um segmento que atrai investimentos crescentes é o de captura e armazenamento de gás carbônico, ou Carbon Capture, Utilisation and Storage (CCUS). E aqui estamos falando tanto de grandes petroleiras quanto de startups que desenvolvem novas tecnologias.

O carbono pode ser capturado dos poços de petróleo, de plantas industriais, e até diretamente da atmosfera, como já está fazendo a startup suíça Climeworks e a canadense Carbon Engineering, adquirida no ano passado pela Occidental Petroleum, que quer produzir um ‘petróleo net zero’.

O CO2 capturado pode ser usado para reinjeção nos poços de petróleo para acelerar a extração, em processos industriais, como a fabricação de bebidas gasosas e até na fabricação de combustíveis sintéticos. O armazenamento permanente em formações geológicas, como os poços de petróleo vazios, são uma opção de remoção permanente do gás.

No Brasil, a discussão tem ganhado corpo e é encabeçada pela Petrobras, que tem planos de lançar um serviço de captura e armazenamento definitivo. E, para conectar diferentes players e fomentar o setor, foi criada no ano passado a CCS Brasil.   

Se a frente tecnológica é um desafio, o Brasil tem claras vantagens nas chamadas Soluções Baseadas na Natureza (NBS, na sigla em inglês). Estamos falando do reflorestamento de matas nativas e do sequestro de carbono pelo solo por meio da agricultura regenerativa (tratada na edição anterior da newsletter ESG em Movimento). Estima-se que o país detenha 20% do potencial de SBNs do mundo.

Com 90 milhões de hectares de pastagens degradadas, o potencial de reflorestamento do país é imenso. Governo federal e governos estaduais se preparam para lançar programas de concessão, enquanto têm se multiplicado as empresas dedicadas à atividade, como Regreen, Mombak, Symbiosis, Biofílica Ambipar e Belterra, com modelos distintos e atuação em biomas variados. Da mesma forma, cada vez mais grandes empresas, como Apple, Amazon, Microsoft, Cargill e Mercado Livre, têm investido nesses projetos como forma de gerar créditos de carbono de qualidade.

Os desafios não são poucos e vão do bom e velho problema da regularização fundiária, passando pelo desenvolvimento da cadeia de fornecimento de mudas e serviços, até a atração de recursos, especialmente crédito, uma vez que a atividade é intensiva em capital. O BNDES estruturou uma linha específica para financiar o reflorestamento e o primeiro contrato foi assinado este ano com a Regreen.