Um país rico em soluções: as mensagens da Brazil Climate Solutions 2026

Por Itaú BBA

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Mais de 260 grandes produtores de soja no Cerrado participam da iniciativa Farmer First Clusters, de compromisso com o manejo sustentável da terra. As fazendas somam mais de 1,4 milhão de hectares sob cuidados que as tornam menos dependentes de agroquímicos, menos vulneráveis a secas e mais capazes de reter água e carbono. Os agricultores e as cinco grandes processadoras de soja que conduzem o esforço, reunidas no Soft Commodities Forum (SCF), protegem a produção enquanto evitam desmatamento e degradação do solo.

O caso foi um entre dezenas apresentados numa semana dedicada à inovação climática e aos negócios sustentáveis, a Brazil Climate Solutions (BCS) – novo nome da Cubo São Paulo Climate Week, após três anos de edição. O evento ocorreu de 3 a 7 de agosto no Cubo, o hub de inovação do Itaú, em São Paulo, com o objetivo de ir além dos alertas apontar caminhos para implementar soluções. Passaram pela BCS 100 painelistas e cerca de 3 mil participantes de mais de 800 empresas, além de 25 startups que apresentaram seus serviços ao público e às grandes companhias. Durante a semana, recheada de boas ideias e ótimas práticas, algumas mensagens-chave se destacaram:

1. PENSE RÁPIDO E PENSE GRANDE

A palavra que mais se ouviu durante a semana no Cubo foi “escala”. Já existe uma riqueza de soluções climáticas com resultados comprovados, que não requerem mais de testes, e sim integração urgente às cadeias de valor, como defendeu Ana Carolina Carregaro, diretora de Assuntos Públicos e Relações Governamentais da Nestlé. A fabricante de alimentos levou ao Cubo o exemplo do Cerrado das Águas, um consórcio que reúne empresas, cooperativas e organizações da cadeia do café para elevar os padrões ambientais, a captura de carbono e a resiliência diante da seca na produção de café em 180 mil hectares de Cerrado. O programa, em expansão, envolve entidades como Sebrae e Emater a fim de criar o incentivo técnico e financeiro adequado para cada propriedade.

2. O ARGUMENTO CERTO NOS SISTEMAS ALIMENTARES

Redução de riscos, aproveitamento de oportunidades e resolução de problemas práticos, como seca, erosão, vento forte e o alto gasto com insumos químicos, são argumentos de peso na conversa com produtores rurais sobre soluções climáticas na agricultura.
A chave para implementá-las é alinhar o discurso e os incentivos corretos para o produtor, a fim de tornar a mudança uma decisão de negócios robusta.

Essa visão se repetiu em várias discussões ao longo da semana no Cubo. Em uma mesa-redonda, a Coalizão para Alimentação e Uso da Terra (
FOLU), atuante em sete países e recém-chegada ao Brasil, mostrou como a tática se aplica à produção da soja. Novos processos e tecnologia fornecem os dados para impulsionar a mudança.

A SLC Agrícola, com mais de 400 mil hectares de soja plantada, informou no Cubo que elevou a produtividade em 14% nos últimos anos graças ao manejo ambientalmente correto. O desempenho é comprovado pelo monitoramento digital e em tempo real das lavouras. “Com a mudança climática, observar o histórico ajuda cada vez menos”, disse Tiago Agne, gerente de Sustentabilidade da empresa, ao explicar a importância do monitoramento.

A relevância da cadeia da soja também foi destacada por João Adrien, head de ESG para o Agronegócio no Itaú BBA: “a soja é um excelente exemplo para mostrar como compatibilizar produção, resiliência climática e conservação ambiental. Estamos falando de um modelo que pode influenciar toda a agricultura brasileira.”

3. O NOVO SALTO DAS FINANÇAS CLIMÁTICAS

A evolução do financiamento para recuperação de florestas nativas no Brasil impressionou Nabil Kadri, superintendente de Meio Ambiente e Gestão do Fundo Amazônia do BNDES. “Quando a gente começou a trabalhar nisso de maneira mais intensa, em 2023, poucas instituições tinham projetos em carteira”, contou o executivo. “Hoje, três anos depois, temos contratos de cofinanciamento com seis outras instituições financeiras, apoiando mais de 17 grandes projetos”. Kadri viu padrão semelhante com energia eólica e solar e agora nota o mesmo com o combustível sustentável de aviação. Parte do avanço se deve ao diálogo intenso dentro do setor financeiro para fazer avançar os negócios em segmentos com pouco histórico.

A s
ustentabilidade passa a entrar nas análises de crédito por diferentes aspectos, como adaptação, eficiência, resiliência e antecipação regulatória, explicou Fabio Guido, Superintendente de Sustentabilidade e Estratégia ESG no Itaú Unibanco. “Ainda há muitos projetos sem a robustez necessária, mas precisamos lidar com isso. Não é a agenda de um banco, é uma agenda de competitividade do setor”, disse Luciana Nicola, Diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade do Itaú Unibanco. Por isso, a semana no Cubo recebeu executivos de outros grupos financeiros, como Banco do Brasil, Bradesco e Mapfre.

4. CRÉDITOS DE CARBONO SAINDO DO FORNO

Cristina Reis, secretária extraordinária do Mercado de Carbono no Ministério da Fazenda, celebrou as contribuições recebidas no período de consulta pública sobre transferências internacionais de créditos de carbono, encerrada durante a semana no Cubo. Reis se dirigiu a quem teme que a venda de créditos ao exterior comprometa a descarbonização no Brasil. A proposta do governo é que possam ser exportados no máximo 50% dos resultados de mitigação de cada projeto ou programa no período de 2031 a 2035. “Não tem como o Brasil não cumprir NDC (a contribuição do país com a descarbonização global) por causa dos ITMOs (transferência internacional dos resultados de mitigação). Os ITMOs vão só contribuir, gerando mais projetos, com mais escalabilidade”, disse a secretária.

Há um debate intenso no mercado para que seja encontrado o melhor balanço entre credibilidade e burocracia no SBCE, o mercado regulado de carbono brasileiro. Reis lembrou que o Brasil tem à frente a imensa oportunidade de fechar negócios nesse segmento com a China; que o Fundo Clima, em 2026, já prevê crédito para as atividades das empresas no escopo do SBCE; e que a meta da equipe técnica da Fazenda é credenciar pelo menos duas metodologias de verificação de créditos no prazo de até 100 dias da próxima gestão no governo federal, seja qual for o resultado da eleição em outubro.

“Estou impressionada com a velocidade e a qualidade com que está andando (a construção do SBCE), num trabalho a quatro mãos do governo com o setor privado”, disse Maria Belén Losada, head de Produtos de Carbono do Itaú Unibanco.

5. OS TRANSPORTES ACELERAM NA TRANSIÇÃO

Os transportes, setor com segunda maior parcela na emissão global de gases de efeito estufa, ainda exigem muita inovação tecnológica – mas as soluções básicas para descarbonização já estão à disposição dos interessados. Nas discussões do setor, ganharam destaque os trabalhos em parceria.

A startup Logshare, dedicada à alocação ótima de transporte de carga, mostrou os casos de cortes de emissões da ordem de 40% graças ao compartilhamento de caminhões entre empresas de setores diferentes, como Pepsi e Leroy Merlin, ou Coca-Cola e ArcelorMittal; e, num passo à frente em “coopetição”, também entre as concorrentes Nívea e O Boticário.

Leandro Siqueira, conselheiro e vice-presidente na Volkswagen Caminhões e Ônibus, confirmou o andamento do projeto “Laneshift e-Dutra”, com a meta de 1000 viagens diárias de caminhões eletrificados entre o Rio e São Paulo até 2030. O empreendimento inclui VW e cerca de 40 organizações, entre fabricantes, prestadores de serviços logísticos e especialistas em mobilidade.

Priscilla Cortezze, diretora de Sustentabilidade da Copersucar, reconheceu o valor da parceria com portos e terminais, que vêm garantindo acesso preferencial aos caminhões movidos a biometano. Assim, criam um incentivo poderoso para a transição na frota.

Juliane Carneiro, gerente de inovação no Porto do Açu, discute um corredor verde transoceânico, com o Porto de Antuérpia, na Bélgica – o que levaria o lado brasileiro a um novo grau de prontidão, diante do risco climático.

6. MENSAGEM DO EL NIÑO: OS RISCOS SE ACUMULAM

Lucas Conceição, da Climatempo, alertou que os efeitos do El Niño – seca no Norte e Nordeste, chuva acima da média no Centro-Sul – devem ganhar força a partir de agosto e perdurar até o segundo semestre de 2027.

Diante do quadro, Laborde, da FAO, assim como a FOLU e a consultoria Systemiq, insistiram num ponto no Cubo: os modelos atuais não capturam riscos correlacionados e compostos (por exemplo, a superposição de El Niño, guerra na Ucrânia e contração fiscal em vários países, reforçando mutuamente seus efeitos). Nessa situação, não há respostas simples.

O risco climático levou companhias completamente diferentes, como a concessionária de infraestrutura logística Motiva e a fabricante de produtos de consumo Natura, a reavaliar o negócio. A Motiva analisou seus ativos, quilômetro por quilômetro; a Natura, sua cadeia de suprimentos, que inclui pequenas comunidades amazônicas. Ambas chegaram a agendas de adaptação que não dependem de novas tecnologias, apenas de disposição e urgência para rever formas de trabalhar. O recado do El Niño e dos riscos compostos ficou bem claro: os jeitos velhos de pensar e fazer negócios não vão resolver os novos desafios.