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A inflação de um conflito

O conflito entre Rússia e Ucrânia, mesmo após o cessar-fogo, deixará como saldo um novo choque inflacionário sobre os preços de alimentos. Entenda por que e quais serão as implicações dessa dinâmica em termos de política econômica na última análise do nosso economista-chefe.

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Thomas Wu

• 8 minutos de leitura

Um novo choque de alimentos decorrente do conflito Rússia-Ucrânia atingirá as economias globais | Fonte: Shutterstock

Nas últimas semanas, os preços de ativos têm, naturalmente, flutuado ao sabor do fluxo de notícias do conflito entre Rússia e Ucrânia. Mercados reagem de forma negativa a sinais de intensificação da agressão militar russa sobre a Ucrânia (por exemplo, o preço do petróleo sobe), assim como reagem de forma positiva a acenos em direção a uma solução diplomática entre os dois países (por exemplo, o preço do petróleo cai).

Infelizmente, não possuímos vantagem comparativa em saber quais as estratégias de Putin e Zelensky (os presidentes da Rússia e da Ucrânia, respectivamente). Na prática, isso quer dizer que não temos uma opinião forte (e seria arriscado ter) sobre quando teremos o anúncio do cessar-fogo. Se será questão de apenas alguns dias ou se estamos falando de várias semanas, ou, alternativamente, se o confronto voltará a piorar antes de melhorar definitivamente.

Logo, reconhecendo nossos limites, temos concentrado nossos esforços em entender as implicações de médio e longo prazo que resultarão dessa crise geopolítica. Quando, eventualmente, o cessar-fogo for anunciado, afora uma Rússia sofrendo com as sanções econômicas e uma Ucrânia lidando com o processo de reconstrução das áreas destruídas, o que sobra para o resto do mundo? Algum impacto econômico relevante? Ou tudo voltará ao que era antes?

Um novo choque inflacionário vem aí

Nossa análise sugere que o conflito, mesmo após o cessar-fogo, deixará como saldo um novo choque inflacionário, dessa vez sobre os preços de alimentos. Ainda é difícil estimar com precisão a magnitude e a persistência desse choque, pois elas dependerão de variáveis ainda em aberto, como o tempo de duração desse conflito. Porém, o risco parece ser assimétrico em direção a uma inflação de alimentos mais alta.

Para explicar o racional desse novo choque de alimentos, vale fazer um parêntesis e lembrar como, ao longo de 2021, descobrimos que as cadeias de produção global de bens industriais eram muito eficientes, mas pouco robustas. Cada país se especializou em produzir apenas uma pequena parte do produto todo, permitindo queda nos custos de produção. Mas quando um surto em um único país precisava ser contido, a produção da cadeia inteira era interrompida. Afinal, um smartphone não pode ser vendido sem sua tela ou sem o processador.

Assim, voltando para o presente, estamos percebendo agora que as cadeias de produção da agropecuária também são pouco robustas. Elas se tornaram, ao longo do tempo, complexas e interligadas, de modo que choques localizados acabam sendo propagados para outros produtos em outras partes do mundo.

Tomemos como exemplo trigo, milho, gás natural e petróleo, que são produtos relevantes nas pautas de exportação da Rússia e da Ucrânia. Essas commodities estão em evidência, porque suas ofertas estão sendo diretamente impactadas pelo conflito militar.

Um choque em trigo e milho afeta o preço e a disponibilidade de ração (que usa farelo de trigo e milho como matérias-primas). Com isso, a cadeia de proteínas acaba sendo afetada: carnes de boi e frango, leite e ovos.

Um choque no gás natural afeta o preço e a disponibilidade de fertilizantes, o que acaba tendo efeitos sobre todos os produtos agrícolas (gás natural não é apenas uma fonte de energia, mas também matéria-prima para a produção de fertilizantes à base de amônia).

O preço do gás natural afeta o preço de fertilizantes | Fonte: Banco Mundial (índice 2010 = 100)

Um choque no petróleo encarece o preço da gasolina. Por efeito substituição, a demanda por biocombustíveis aumenta. O principal biocombustível produzido nos EUA é o etanol, que usa milho como matéria-prima. Quanto mais milho é usado para biocombustíveis, menos sobra para ser usado como alimento.

O preço do petróleo afeta o preço do milho | Fonte: Banco Mundial (média simples entre cotações de petróleo bruto, Brent, Dubai e WTI)

Conforme comentamos anteriormente, os choques de preços nesses mercados localizados (e suas implicações inflacionárias sobre os outros mercados) persistirão no médio e longo prazo. Começando pelos grãos (trigo e milho), é importante ressaltar que uma plantação não funciona como uma fábrica, cuja produção pode ser pausada e posteriormente retomada sem maiores consequências (salvo um atraso na produção).

Não é possível “pausar” e “retomar” uma plantação. Por exemplo, o trigo que foi plantado na Ucrânia, no final do ano passado, tem que ser adubado agora em março, à medida que a neve derrete. Deixar para adubar o trigo com um mês de atraso em função do conflito não significa que iremos colher esse mesmo trigo um mês depois do planejado. Quanto mais tempo se perde (em função da guerra), menor é a produtividade (i.e., menor é a safra). Ademais, se o conflito se prolongar até o fim de abril, coloca-se em risco a safra que é plantada na primavera.

Com relação ao gás natural e o petróleo, mesmo após o cessar-fogo, a Europa terá que reorganizar sua matriz energética, de modo a reduzir sua dependência às commodities russas. Governos europeus sabem que essa decisão levará a um custo de energia mais alto, mas essa é uma questão geopolítica e não econômica.

Por fim, há um risco adicional que pode amplificar a magnitude e a persistência de todos esses choques. A expectativa de falta de alimentos pode levar a comportamentos protecionistas de vários governos. Isto é, o medo da falta de alguns produtos pode levar países a proibirem exportações (essa proibição já foi anunciada por diversos governos), o que por si só agrava o problema original de escassez em outras regiões do mundo.

Quais as implicações desse novo choque de alimentos em termos de política econômica?

Aqui é importante perceber a diferença da escassez de smartphones (um problema de inflação) para a escassez de alimentos (um problema de fome e pobreza). Essa questão humanitária levará governos ao redor do mundo a aprovarem uma nova rodada de estímulos fiscais, seja um subsídio para evitar aumento de preços ou um complemento de renda para famílias em maior dificuldade.

Do lado da política monetária, quando o choque vem de alimentos, faz sentido focar apenas nos seus efeitos de segunda ordem. Na prática, significa aceitar uma inflação corrente mais alta, desde que os outros preços (que não o de alimentos) continuem rodando em um patamar compatível com o que cada país entende como meta. Para isso, banqueiros centrais terão que manter as expectativas de inflação futuras ancoradas, o que será uma tarefa bem complicada. O ponto de partida é bem desfavorável: esse novo choque de alimentos atinge economias globais, que ainda estão sofrendo com os efeitos do choque de bens industriais, que, um ano depois, continua se recusando a arrefecer.

As incertezas seguirão presentes e previsões de um conflito são de difícil formulação, fato é que colheremos consequências de médio e longo prazo, com inflação no centro deste debate.

Por isso, nosso radar continuará bem apurado nas evoluções do conflito para incorporar constantemente os impactos em nossas projeções.