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Alerta Vermelho

Estado de emergência no sistema financeiro pressiona Fed a mudar para modo de gestão de desastres

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Giovanni Vescovi

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Produção: Shutterstock

No dia 10 de março, tivemos o primeiro grande acidente deste ciclo de aperto monetário norte-americano, com a quebra do SVB, um banco regional no estado da Califórnia com cerca de $200 bilhões em ativos. Durante o final de semana, um segundo banco regional quebrou, o Signature Bank, de Nova Iorque. Esse alerta vermelho cancelou os planos de fim de semana dos investidores, analistas e reguladores.

Sem um comprador interessado em assumir as operações desses bancos, o Fed e demais reguladores trouxeram a solução para tentar estancar a sangria: dar um jeitinho nas regras e acalmar os depositantes não somente dessas instituições, mas de todo o sistema. Foi uma jogada forçada do Fed: era isso ou a manhã de segunda-feira seria um salve-se quem puder.

Mas, apesar da reação inicialmente otimista, os ânimos seguem agitados. Sinais de extrema dificuldade do banco Credit Suisse preocuparam os mercados nesta quarta-feira, e os movimentos nas curvas de juros e no preço do petróleo mostram investidores apostando numa recessão iminente.

Crédito é um negócio de confiança

O principal negócio de um banco é captar recursos dos poupadores (seu passivo) e emprestar ou investir esses recursos em títulos de renda fixa (seu ativo), buscando ganhar com a diferença do spread entre as taxas que paga sobre seu passivo e as que recebe de seus ativos.

O maior pesadelo de um banco é uma corrida dos depositantes pedindo seu dinheiro de volta, o que pode causar uma crise de liquidez. Essa corrida ocorre quando os depositantes perdem a confiança na capacidade de pagamento do banco, e o risco de contágio gera uma dinâmica perigosa.

Quando vários bancos começam a quebrar, é sinal de que os excessos do ciclo econômico foram elevados e o risco de uma crise mais grave é grande. O que estamos vendo nos mercados nestes dias reflete essa realidade.

Dinâmica de uma recessão e o ciclo atual

Para o cidadão comum pode parecer ainda muito distante a possibilidade de uma recessão, quando vemos as pessoas empregadas e bares e restaurantes lotados apesar dos preços disparando. Só que as coisas estão sempre bem até não estarem mais.

Para quem ainda não viu, recomendo pesquisar um vídeo feito pelo fundador da Bridgewater, o investidor Ray Dalio, chamado “How the Economic Machine Works”. Ele explica de forma bastante didática esse processo.

O ciclo econômico atual teve início em 2009 e foi marcado por um longo período de excesso de liquidez e dinheiro barato. Tão barato que vimos taxas de juros nominais negativas. Ambiente perfeito para bolhas como o das criptomoedas e de startups de tecnologia com carta branca para queimar caixa em troca de cliques e usuários virtuais. Os primeiros sinais de rachaduras estão aparecendo.

A tempestade perfeita e o Fed

No seu discurso no Congresso, no início do mês o presidente do Fed deixou claro seu comprometimento com o controle da inflação, e sinalizou que poderia ter que seguir elevando as taxas de juros, inclusive num ritmo mais forte.

Dias depois, o cenário mudou completamente. Recentemente comentei que a impressão é a de que o Fed está voando às cegas: no meio de uma tempestade inflacionária, com baixa visibilidade e sem instrumentos adequados e confiáveis, o risco de acidentes só aumenta. Agora, a prioridade é adotar o modo de gestão de desastres.

As maiores crises e recessões da história foram marcadas por problemas no sistema financeiro ocasionados por uma crise de crédito. Nos séculos XVIII e XIX, quando havia menos regulação, era quase uma rotina. A crise conhecida como o Pânico de 1907 resultou na criação do Fed. A mais recente, a Crise Financeira de 2008, deixou marcas profundas na economia americana e mundial, e teve longa duração.

A próxima reunião do FOMC será no dia 22, e até lá o Fed estará em período de silêncio. A visão do mercado é que a prioridade agora é evitar um contágio no sistema financeiro, e objetivos de médio e longo prazo, como controlar a inflação, são colocados de lado, pelo menos por ora.

A ordem do dia é manter a cautela

O ambiente está muito tático, conforme tenho destacado há algum tempo. E como estamos vendo, decisões e eventos importantes podem se desenvolver muito rapidamente. Num final de semana, o Fed fez vista grossa para as regras estabelecidas pelo Dodd-Frank Act e voltou a salvar instituições financeiras.

Historicamente, esse tipo de intervenção ocorre quando os mercados estão nas mínimas, em pânico, e é tomada para resolver de vez o problema. Mas novos acidentes estão à espreita. Além dos bancos, começam a surgir discussões sobre a fragilidade do setor imobiliário comercial americano.

O receio é que tenhamos um longo período recessivo e, neste caso, o melhor a fazer é esperar para aproveitar as pequenas oportunidades que aparecerão no caminho.

Este texto foi orginalmente publicado no aplicativo do íon Itaú, na coluna Investida de Mestre. Baixe o app do Íon para ler este e outros textos sobre economia, investimentos e mercado financeiro.