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Alpha, beta e portfólios diversificados

Quando eventos improváveis acontecem, os ativos perdem valor. Desta realidade surge a ideia de que gestão de “alpha” é superior a gestão de “beta”. Confira a análise de Eduardo Camara Lopes, CIO da Itaú Asset, sobre a questão.

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Eduardo Camara Lopes

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A batalha entre a gestão de “alpha” e a gestão de “beta” | Fonte: Shutterstock

Recentemente, analisando os cenários possíveis dos acontecimentos na Ucrânia, comentei com meus colegas que “nunca imaginei precisar analisar cenários tão extremos como os atuais.”

Imediatamente na sequência me lembrei de março 2020 (covid), março e setembro de 2008 (Bear Stearns e Lehman Brothers), setembro de 2001 (11 de setembro), agosto de 1998 (desvalorização do Rublo) e Outubro 1997 (Crise da Ásia). Em cada uma destas ocasiões falei ou pensei a mesma frase.

E é esta a natureza dos mercados e da História. Coisas improváveis e impensáveis acontecem com frequência maior que os estatísticos sugerem. Leia “Black Swan”, de Nassin Taleb, caso não tenha lido ainda.

Tipicamente, quando estes eventos improváveis acontecem os mercados sofrem. Em alguns casos sofrem muito. E os ativos perdem valor. Desta realidade surge a ideia de que gestão de “alpha” é superior a gestão de “beta”.

Gestão de alpha x Gestão de beta

Gestão de alpha é a gestão típica de hedge funds (ou multimercados no Brasil), na qual os gestores procuram posicionar o portfólio de maneira pouco correlacionada a um ativo e olhando horizontes tipicamente de curto prazo. Gestão de beta por sua vez envolve portfolios que intencionalmente têm uma exposição a um ou vários ativos específicos, que podem ser índices de bolsa, moedas, juros, ou mesmo uma ação.

Falar de alpha é mais sexy do que falar de beta pela maior criatividade das exposições, maior frequência na rotatividade das posições, e às vezes poder dizer que escapou do furacão ileso.

Mas vale fazermos uma checagem de fatos. Em 2021 havia 2.755 bilionários no mundo, dos quais 8 centibilioários – bilionários com mais de 100 bilhões de dólares. Como estes indivíduos chegaram nesta riqueza? Quase sem exceção eles chegaram ao bilhão carregando muito beta (e não alpha). No caso destes centibilionários carregaram muito beta por décadas eram ações da Tesla , Amazon, LVMH, Microsoft, Berkshire Hathaway, Google e Oracle. Todos eles, sem exceção, viram suas fortunas oscilar com enorme volatilidade ao longo do tempo. Não tinham histórias inteligentes para contar no jantar sobre o que fizeram com suas posições naquele dia, mas apenas como estavam trabalhando para melhorar a performance do seu beta, suas empresas.

Pensando neste conceito, Warren Buffet, em 2007, quis fazer o ponto de maneira mais clara. Apostou com um gestor de fundos de fundos que ele poderia montar o portfólio de hedge funds (alpha) que quisesse, enquanto Buffet só compraria o S&P 500 através de um ETF (beta). Depois de 10 anos eles veriam o resultado, e quem tivesse retorno superior ganharia a aposta. Apesar de os hedge funds terem superado a performance do ETF na crise de 2008 (que caiu 37%!), o S&P 500 entregou no período de dez anos um retorno anual de 7,1% em comparação a 2,2% do fundo de HFs, investindo em alguns dos mais prestigiados gestores no seu portfólio.

Carregar beta é um negócio arriscado, certamente tem mais volatilidade e pode parecer intelectualmente menos desafiador. Mas é como os grandes retornos em períodos longos são entregues. Portfolios de alpha podem te proteger muito mais nos momentos mais desafiadores. Em momentos incertos como os atuais, gestores de alpha podem diminuir os riscos, apostar contra e até ganhar dinheiro.

Quem vence a batalha?

Então qual o ponto? Quando pensamos em alocação de capital e construção de portfólios de longo prazo, pensamos preponderantemente em portfólios de beta. Construímos portfólios diversificados, com ativos que tenham correlação baixa ou negativa entre si de forma que os diferentes ativos performem e entreguem retorno em diferentes momentos do ciclo e em diferentes ambientes. Em um contexto de Brasil em que estamos inseridos, a diversificação com betas internacionais é essencial.

Por exemplo, dado o momento do ciclo que estávamos, imaginávamos outra performance dos ativos de risco. Estamos agora discutindo uma guerra. Estamos de um lado vendo o real se apreciar cerca de 10% no ano, ouro e commodities subindo 10 e 30% respectivamente, enquanto bolsas internacionais caindo bem.

Se por um lado a concentração de beta é o caminho dos bilionários, a diversificação bem construída de um portfólio de betas é o que garante a combinação de retornos adequados e superiores no longo prazo. A diversificação de betas procura trazer a resiliência em momentos que imaginávamos nunca ver em nossas vidas. O alpha entra como complemento para descorrelação e proteção em momentos como os atuais. Existe espaço para ambos nos portfólios bem construídos.