Biometano ganha escala no Brasil com avanço regulatório e novas oportunidades de investimento
Confira os destaques desta semana
Por Comunicação Itaú Asset
EDIÇÃO #54
A transição energética brasileira tem avançado em diversas frentes nos últimos anos, mas poucos temas demonstram uma evolução tão consistente quanto o biometano. Impulsionado pelo potencial de aproveitamento de resíduos agroindustriais, urbanos e do saneamento, o combustível está assumindo um papel cada vez mais relevante na estratégia nacional de descarbonização.
Os recentes avanços regulatórios têm sido fundamentais nesse processo. A implementação da Lei do Combustível do Futuro trouxe maior previsibilidade para o desenvolvimento do mercado, enquanto instrumentos como o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) representam um passo importante para a consolidação da rastreabilidade, da transparência e da segurança jurídica necessárias à expansão do setor. Ao mesmo tempo, a definição de metas de descarbonização para o mercado de gás natural cria incentivos para o crescimento sustentável da oferta e da demanda.
Além do fortalecimento institucional, observa-se uma aceleração na adoção prática do biometano em atividades econômicas de difícil eletrificação. No transporte de cargas, por exemplo, a ampliação do uso de combustíveis renováveis demonstra que a descarbonização já não está restrita a planos futuros, mas começa a se materializar em operações de larga escala. Esse movimento reforça o papel estratégico do biometano como alternativa para reduzir emissões, diversificar a matriz energética e aumentar a competitividade de setores intensivos em energia, além de representar uma nova oportunidade de receita para segmentos como saneamento e gestão de resíduos.
CGOB: o certificado que inaugura uma nova etapa para o biometano no Brasil
A implementação do Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) marca uma nova fase para o desenvolvimento do mercado brasileiro de biometano. Criado pela Lei do Combustível do Futuro, o instrumento foi concebido para assegurar a rastreabilidade e a comprovação da origem do combustível renovável, fortalecendo a confiança de produtores, consumidores e investidores em um mercado que ganha relevância na agenda de transição energética. Produzido a partir de resíduos urbanos, agroindustriais e do saneamento, o biometano possui características equivalentes ao gás natural e pode ser transportado pela mesma infraestrutura já existente do gás.
A principal diferença está em seu perfil ambiental, uma vez que sua produção contribui para o aproveitamento de resíduos e para a redução das emissões de gases de efeito estufa. Nesse cenário, o CGOB passa a desempenhar papel central ao operacionalizar a cadeia de produção e atestar os atributos ambientais associados ao combustível. O certificado também está diretamente conectado ao mandato de descarbonização estabelecido para o mercado de gás natural.
As metas anuais definidas pelo Conselho Nacional de Política Energética deverão ser comprovadas por meio desses certificados, criando um mecanismo formal de monitoramento e cumprimento das obrigações ambientais do setor. Com regras de certificação e rastreabilidade já aprovadas pela ANP e um número crescente de plantas autorizadas no país, o CGOB estabelece as bases para ampliar a participação do biometano na matriz energética brasileira e apoiar investimentos de longo prazo no segmento.
Etanol e biometano avançam no transporte de cargas no Brasil
O avanço dos biocombustíveis para além do abastecimento convencional de veículos está ampliando as possibilidades de descarbonização de setores considerados de difícil eletrificação. Durante a Fenasucro & Agrocana 2026, representantes do setor destacaram iniciativas que vêm consolidando novas aplicações para etanol e biometano no transporte de cargas, tanto no modal marítimo quanto no rodoviário. Entre os destaques está a realização do primeiro abastecimento de um navio com etanol no Brasil.
A operação utilizou 500 toneladas do biocombustível em uma embarcação com capacidade para transportar até 13 mil contêineres, criando uma oportunidade para o etanol brasileiro e reforçando o potencial do país como ponto de abastecimento para rotas internacionais. A iniciativa busca atender à demanda por combustíveis de menor intensidade de carbono em um segmento que enfrenta desafios tecnológicos para a eletrificação.
No transporte terrestre, o Programa BioRota já utiliza 80 caminhões movidos a biometano, que transportaram mais de 1 milhão de toneladas de açúcar entre usinas, terminais de transbordo e o Porto de Santos. As iniciativas reforçam o papel crescente dos combustíveis renováveis na logística e evidenciam como etanol, biometano e outras soluções podem contribuir para a redução de emissões em cadeias produtivas e de transporte de larga escala.
Mercado de biometano ganha um gás extra antes mesmo de marco regulatório
O mercado brasileiro de biometano vem registrando forte expansão mesmo antes da completa implementação do marco regulatório previsto pela Lei do Combustível do Futuro. Dados do setor indicam que a produção nacional cresceu 75% entre 2024 e 2025, enquanto o número de plantas autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) saltou de seis unidades, em 2023, para 21 em operação até junho de 2026, além de dezenas de novos projetos em processo de autorização.
O avanço é impulsionado pelo potencial de utilização do biometano em diferentes atividades econômicas, incluindo aplicações industriais, substituição de combustíveis fósseis e descarbonização do transporte pesado. Segundo estimativas da ABiogás, o potencial técnico de produção no Brasil alcança 120 milhões de metros cúbicos por dia, equivalente a mais da metade do consumo nacional de diesel. O setor projeta ainda investimentos de R$ 246 bilhões até 2035 e a geração de aproximadamente 110 mil empregos ao longo da cadeia produtiva.
Nesse contexto, o início da emissão dos Certificados de Garantia de Origem do Biometano (CGOBs) e as metas de descarbonização previstas para produtores e importadores de gás natural tendem a criar uma demanda previsível para o combustível renovável. Empresas do setor já ampliam investimentos e preveem forte crescimento da participação do biometano na mobilidade, especialmente em frotas de caminhões e operações de transporte urbano, consolidando a integração entre economia circular, segurança energética e redução de emissões.
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