Cenário macro: nossa atualização para fevereiro de 2026
Inteligência artificial se consolida como um dos vetores centrais da economia, enquanto incertezas geopolíticas e monetárias seguem moldando decisões de investimento
Por Itaú Asset
O começo de 2026 acontece em um ambiente macroeconômico que combina juros ainda elevados e um aumento relevante das incertezas geopolíticas. Já a inteligência artificial (IA) deixa de ser apenas um tema setorial e passa a ocupar o centro do debate macroeconômico. A disputa por energia, chips e terras raras conecta tecnologia, geopolítica, inflação, política monetária e câmbio, criando um cenário mais complexo para investidores, mas com oportunidades para aqueles que conseguem separar ruído de fundamentos.
Foi nesse pano de fundo que aconteceu o primeiro bate-papo de Cenário Macro de 2026, conduzido por Vanessa Daraya, do time de Comunicação do Itaú, com Thomas Wu, economista-chefe da Itaú Asset. Ao longo da conversa, Thomas analisou os principais fatores que devem influenciar os mercados globais e locais ao longo do ano.
A seguir, confirma os principais destaques da conversa.
O cenário macroeconômico global segue marcado por incertezas geopolíticas, transformações tecnológicas aceleradas e mudanças relevantes nos fluxos de capitais. Em meio a esse ambiente, a inteligência artificial (IA) deixa de ser apenas uma narrativa de crescimento e passa a redefinir preços relativos, cadeias produtivas, mercado de trabalho e até o equilíbrio de poder entre países. Ao mesmo tempo, discussões sobre tarifas nos EUA, tensões no Oriente Médio e a transição da política monetária no Brasil adicionam novas camadas de complexidade para investidores.
Foi nesse contexto que realizamos mais uma live de Cenário Macro, conduzida por Vanessa Daraya, do time de Comunicação do Itaú, com Thomas Wu, economista-chefe da Itaú Asset, e Luiz Ribeiro, gestor do Itaú Asgard. Ao longo da conversa, analisamos os principais vetores que vêm moldando os mercados globais e locais.
Cenário internacional
Geopolítica e tecnologia
Um dos principais pontos de atenção é a escalada de tensões envolvendo os EUA e o Irã. O deslocamento atípico de ativos militares para a região aumenta o risco de uma intervenção, especialmente caso não haja acordo sobre o programa nuclear iraniano e o apoio a grupos aliados no Oriente Médio.
Do ponto de vista macroeconômico, o evento se torna relevante caso haja retaliação que gere insegurança no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do comércio global de petróleo. Uma disrupção relevante poderia provocar alta expressiva do petróleo e um choque com potencial estagflacionário, semelhante ao observado após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Tarifas nos EUA e menos excepcionalismo americano
A decisão da Suprema Corte dos EUA, que declarou ilegais as chamadas “tarifas recíprocas”, reacendeu o debate sobre a política comercial. Apesar de algum alívio inicial, permanece elevada a incerteza sobre o regime tarifário e seus impactos sobre investimento, inflação e crescimento.
Mais amplamente, o embate institucional e o aumento de intervenções externas reforçam a percepção de que os EUA podem estar vivendo um momento de menor “excepcionalismo”, o que contribui para diversificação de fluxos globais. Esse movimento ajuda a explicar parte da realocação de recursos para mercados emergentes.
Fluxos globais e valorização de emergentes
Nos últimos trimestres, observou-se uma migração parcial de capital dos EUA para mercados emergentes. Esse movimento ainda é pequeno em termos relativos, mas relevante para ativos locais.
Além disso, há mudança de preferência de ações de crescimento para ações de valor, favorecendo regiões com maior peso de commodities, como a América Latina.
Mesmo após a melhora recente, o desconto de valuation dos emergentes em relação aos desenvolvidos segue elevado, sugerindo que o fluxo ainda pode ter espaço para continuar — desde que não haja um choque relevante que fortaleça novamente o dólar.
IA: abundância de inteligência e escassez de insumos físicos
A inteligência artificial continua no centro do debate. O avanço recente de ferramentas capazes de programar e se autoaperfeiçoar elevou a volatilidade entre setores, especialmente tecnologia e software.
Um ponto central é que a evolução recente não decorre apenas de novos modelos, mas de maior capacidade computacional disponível. Isso desloca o foco do mercado: se a inteligência tende a se tornar abundante, passam a ser escassos energia, chips, memória e infraestrutura de data centers.
Essa mudança altera preços relativos, cria e destrói valor de forma rápida e amplia a volatilidade. Ao mesmo tempo, traz implicações estruturais para o mercado de trabalho, com possível aumento do desemprego em determinadas funções administrativas e técnicas, o que pode gerar tensões sociais adicionais.
Pausa prolongada na política monetária dos EUA
Nos EUA, o Federal Reserve manteve os juros parados no último encontro e o debate interno indica cautela adicional. A ausência de consenso dentro do Comitê reforça a probabilidade de manutenção por mais tempo, especialmente diante de uma inflação que ainda não converge totalmente para a meta.
Cenário local
Início de cortes de juros, mas com cautela
No Brasil, o Copom sinalizou início do ciclo de cortes em março. A avaliação é que o ciclo deve começar de forma gradual, possivelmente com cortes de 0,50 p.p., e permanecer conservador.
Um ponto relevante é que parte do alívio inflacionário decorre da apreciação cambial — variável mais volátil — e não apenas da atividade econômica. Isso reduz o conforto para um ciclo mais agressivo de cortes.
Câmbio e Brasil no novo cenário global
A apreciação recente do real está ligada majoritariamente a fatores externos, como enfraquecimento do dólar e maior fluxo para emergentes. Se as forças estruturais atuais — menor concentração nos EUA, busca por commodities e diversificação geográfica — permanecerem, a tendência pode continuar. Ainda assim, o câmbio segue sujeito a volatilidade elevada, especialmente com a aproximação do debate eleitoral.
Posicionamento e alocação de investimentos
No fundo Asgard, a estratégia combina exposição internacional com investimentos no mercado local. A carteira mantém exposição a inteligência artificial — agora de forma mais seletiva — e commodities estratégicas, além de empresas industriais ligadas a megatendências globais. No Brasil, a alocação privilegia setores que se beneficiam da queda de juros, como energia e financeiro, além de posições ligadas ao tema de commodities.
O que observar à frente
- Evolução das negociações entre EUA e Irã;
- Continuidade ou reversão dos fluxos para mercados emergentes;
- Novos avanços em IA e seus impactos sobre preços relativos e mercado de trabalho;
- Evolução da política monetária nos EUA e no Brasil.
A seguir, confira o bate-papo na íntegra:
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