Cenário macro: nossa atualização para maio de 2026
Petróleo, juros e geopolítica seguem no centro das atenções globais
Por Itaú Asset
Em maio, o cenário macroeconômico continuou sendo dominado pela combinação entre tensão geopolítica, inflação elevada e juros altos no mundo todo. O conflito entre Irã e Estados Unidos segue sem resolução definitiva, mantendo pressão sobre os preços do petróleo e sobre as curvas de juros globais.
Foi nesse contexto que realizamos mais uma live de Cenário Macro, com a participação de Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos do Itaú, e Daniel Costa, da equipe de gestão do Itaú Janeiro. A seguir, os principais destaques:
Cenário internacional
Irã e Estados Unidos: impasse continua pressionando os mercados
Desde a última live, o conflito entre Irã e Estados Unidos evoluiu para uma dinâmica marcada por sucessivas tentativas de negociação e ameaças de retomada dos ataques. Apesar de nenhum dos lados demonstrar interesse em uma escalada militar mais ampla, as divergências seguem relevantes, especialmente em relação ao controle do Estreito de Ormuz e ao programa nuclear iraniano.
O mercado tem acompanhado de perto a alternância entre notícias de avanço nas negociações e novas ameaças por parte dos Estados Unidos e Irã. Mais recentemente, surgiu a possibilidade de um memorandum of understanding entre os dois países, que prevê a reabertura do Estreito de Ormuz, a retirada parcial do embargo americano, além de uma postergação nas discussões sobre programa nuclear e urânio enriquecido.
Mesmo sem solução definitiva, a simples perspectiva de avanço nas negociações ajudou o petróleo a recuar parcialmente, saindo da faixa de US$ 100–110 para algo entre US$ 90–100.
Petróleo elevado segue impactando juros globais
O principal canal de transmissão do conflito para os mercados continua sendo a inflação via preços de energia. Nas últimas semanas, a permanência do petróleo em níveis elevados provocou forte abertura das curvas de juros globais.
Segundo Thomas Wu, esse movimento ficou especialmente intenso conforme aumentavam as ameaças de retomada dos ataques ao Irã. Juros mais altos pressionam os preços dos ativos, reduzem o apetite por risco e podem gerar desaceleração econômica caso permaneçam elevados por muito tempo. Apesar disso, a percepção do mercado é de que um eventual acordo entre Irã e Estados Unidos poderia aliviar parte dessa pressão, reduzindo o risco inflacionário global.
Bolsa americana segue resiliente
Mesmo em um ambiente de juros mais altos, o S&P 500 continua próximo das máximas históricas. A principal explicação está na força dos lucros das empresas ligadas à inteligência artificial. Os investimentos em IA seguem impulsionando a construção de data centers, a expansão da infraestrutura elétrica, a demanda por semicondutores e os investimentos em tecnologia.
Essa dinâmica permanece sustentando resultados corporativos fortes, compensando parcialmente o impacto negativo dos juros elevados. Diante disso, o mercado global hoje convive com duas forças opostas: do lado positivo está o crescimento impulsionado pela inteligência artificial; do negativo, a inflação causada pelo petróleo e pelas tensões geopolíticas. Até o momento, a força positiva continua predominando nos mercados de renda variável.
Fed: postura cautelosa diante da inflação
A expectativa é de que o Federal Reserve (Fed, Banco Central americano) mantenha uma postura cautelosa nas próximas reuniões. Embora a inflação americana permaneça acima da meta, grande parte da pressão atual vem do choque do petróleo, um fator ainda altamente dependente da evolução do conflito no Oriente Médio.
O mercado de trabalho nos EUA também segue em uma situação considerada “incômoda”: o desemprego permanece baixo, mas a economia já não apresenta o mesmo ritmo de contratações. Ao mesmo tempo, a atividade segue forte, impulsionada por ganhos de produtividade associados à inteligência artificial. Nesse contexto, o Fed deve seguir dependente dos dados, calibrando suas decisões conforme a evolução da inflação, da atividade e do petróleo.
Cenário local
Brasil: inflação resiliente e dúvidas sobre o ciclo de cortes
No Brasil, a grande discussão do mercado passou a ser a dificuldade de continuidade do ciclo de cortes da taxa básica de juros, a Selic. Embora a atividade tenha desacelerado em relação a 2024, a inflação segue surpreendendo para cima após o choque do petróleo. A projeção da equipe para o IPCA de 2025, que chegou a ser de 3,5% antes do início do conflito, hoje já supera 5%.
Banco Central pode interromper o ciclo de cortes
O nível atual da Selic segue bastante elevado, mas a economia brasileira tem demonstrado resiliência. Mesmo com juros em 14,5%, o desemprego continua baixo e o PIB segue crescendo em ritmo próximo de 2%. Por isso, a leitura atual é de que o Banco Central pode optar por interromper temporariamente o ciclo de cortes para avaliar a persistência da inflação, o impacto do choque do petróleo, os efeitos das medidas de estímulo e a evolução da atividade econômica.
Estratégia de investimentos
Itaú Janeiro: foco em diferenciação entre países
Diante da elevada volatilidade global, o Itaú Janeiro tem concentrado sua estratégia em explorar as diferenças entre países e mercados. No cenário internacional, o fundo mantém posições aplicadas em juros de países como Inglaterra, Canadá, África do Sul e Colômbia, enquanto segue tomado em juros de Europa, Estados Unidos e Chile, além de manter posições compradas em dólar contra euro e libra.
A visão da equipe é de que o mercado ainda precifica os juros globais de forma muito homogênea, sem refletir adequadamente os diferentes impactos do conflito sobre cada economia.
Brasil: preferência pela parte longa da curva
No mercado local, a equipe reduziu significativamente posições aplicadas e zerou posições ligadas à inflação após o choque do petróleo. Atualmente, o fundo demonstra maior preferência por juros longos, estratégias de flattening (tomado nos juros curtos e aplicado nos longos) e operações táticas em câmbio. Em relação ao real, a moeda teve forte valorização ao longo do ano e hoje parece mais “cara” em termos relativos, o que levou à redução das posições compradas.
O que observar até a próxima live
- Evolução das negociações entre Irã e Estados Unidos;
- Comportamento do petróleo e impacto sobre inflação global;
- Próximas decisões do Fed e do Banco Central brasileiro;
- Dados de inflação e atividade econômica no Brasil;
- Mercado de trabalho americano;
- Intensidade do El Niño e impacto sobre alimentos.
A seguir, confira o bate-papo na íntegra:
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