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Crise, que crise?

Dados de atividade surpreendem para cima... e a China mal reabriu

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Giovanni Vescovi

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Produção: Shutterstock

Existe uma grande dicotomia nas narrativas dominantes no mercado, principalmente em relação ao pai de todos os mercados, o dos Estados Unidos.

De um lado, a teoria sugere que, após um grande aperto monetário, como este que estamos vendo desde o início de 2022 (e que não terminou ainda!), ocorre uma piora nas condições financeiras e na atividade econômica.

Afinal, com o aumento das taxas de juros e redução da liquidez do mercado, alguns efeitos com viés mais negativo começam a aparecer, como:

  • O custo do capital fica mais elevado;
  • As empresas e famílias seguram os gastos e procuram aumentar a poupança e cortar despesas;
  • O desemprego aumenta;
  • A atividade econômica desacelera;
  • As expectativas pioram;
  • E, conforme o grau do aperto, a economia corre o risco de entrar em recessão.

Mas do outro lado, existe uma narrativa muito mais otimista e que vem ganhando força neste ano.

O campo dos otimistas sustenta a visão de que o principal objetivo do banco central norte-americano era controlar a pressão inflacionária que castigou o bolso do cidadão no ano passado, e que esse objetivo está sendo cumprido sem maiores impactos na atividade econômica. E por falar em atividade, o mundo este ano contará com a volta de um grande propulsor de crescimento: a China.

Economia forte

Tivemos nesta semana a divulgação de números importantes da economia americana. O PIB do quarto trimestre veio bem mais forte que o esperado, números de inflação desacelerando conforme esperado, e o mercado de trabalho continua super apertado, apesar das manchetes de empresas anunciando demissões. Nada que se assemelhe, nem de longe, a um ambiente de recessão.

Nessa guerra entre bulls e bears, quem tem levado a melhor nas batalhas mais recentes são os bulls. A principal prova está no comportamento dos preços, com o principal índice de ações, o S&P 500, novamente se aproximando dos 4100 pontos.

Boa parte desse rali reflete uma expectativa de ganhos mais fortes com a reabertura da economia chinesa. A segunda maior economia do mundo sai de um histórico lockdown com uma demanda reprimida potencial gigantesca acumulada nesses dois anos... e mal vimos esses efeitos.

O que dizem as empresas

As empresas estão em temporada de anunciar seus resultados do quarto trimestre de 2022. A preocupação dos analistas tem sido focada no comportamento das margens. Menor demanda e menor espaço para aumento de preços implicaria em menor crescimento de receitas, em ambiente de custos elevados por conta de aumentos dos salários. Esse cenário pode implicar em queda nos lucros.

Até o momento, os resultados têm sido melhores que o esperado, mas muitas empresas estão anunciando corte de pessoal e preocupação com a demanda, que vem desacelerando. De certo modo, reflete exatamente o que estamos vendo com os dados macroeconômicos: a atividade continua firme, mas as preocupações relacionadas aos fundamentos não podem ser descartadas.

Próximo evento: reunião do Fed

A próxima reunião do Fed está agendada para dia 01 de fevereiro, na mesma data da reunião do COPOM. Com os dados fortes divulgados recentemente, principalmente em relação ao mercado de trabalho, dificilmente o presidente do Fed, Jerome Powell, vai baixar o tom. O mais provável é que entregue uma alta de 25 pontos-base na taxa básica de juros americana. A dúvida é até quando segue o ciclo e se, de fato, as taxas de juros norte-americanas vão realmente se comportar como o mercado está precificando, ou se teremos alguma surpresa.

Parece muito cedo para podermos tirar conclusões. O mercado deve continuar negociando com base na primeira derivada. Entre o presente e o futuro, os investidores estão dando mais atenção ao presente: inflação caindo e nada de recessão. Vamos ver o que pensa o Fed.

China

Já é consenso que a reabertura da economia chinesa está acelerada e que contribuirá para o crescimento econômico. Os analistas só divergem na magnitude. Por enquanto, estão incorporando gradualmente essa melhora. Há expectativas girando em torno de de 5% de crescimento do PIB chinês neste ano. Mas já vimos números mais fortes no passado.

Um risco pouco discutido é o de um cenário além das expectativas ter um efeito contrário ao esperado: manutenção de mercado de trabalho forte e pressão inflacionária com excesso de demanda. Uma eventual reaceleração da espiral inflacionária seria péssimo e aumentaria o risco de uma taxa terminal dos juros americanos em patamar ultra restritivo.

No fim das contas, esse é um problema para depois. Por ora, parece estar tudo bem. Um cenário sem recessão americana e com retomada de crescimento chinês surpreendendo para cima é a combinação perfeita para os ativos de risco.

Este texto foi orginalmente publicado no aplicativo do íon Itaú, na coluna Investida de Mestre. Baixe o app do Íon para ler este e outros textos sobre economia, investimentos e mercado financeiro.