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Hora da verdade

A Bolsa americana vem surfando um rali, mas algumas grandes empresas decepcionaram nesta temporada de resultados; é hora de o mercado se decidir

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Giovanni Vescovi

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Produção: Shutterstock

Estamos no meio da temporada de resultados das empresas que compõem o S&P 500, e esta é a semana mais importante para o mercado. Na terça-feira passada, dia 25, duas das maiores empresas de tecnologia reportaram: Microsoft e Google. Ontem à noite foi a vez da Meta (nome atual do Facebook) e, hoje à noite, o mercado vai olhar com muita atenção os números de Apple e Amazon.

Reações iniciais

Conforme esperado, o mercado vem dando um peso especial ao conference call que as empresas fazem após a divulgação dos resultados, onde os principais executivos passam suas expectativas em termos de vendas, lucros e investimentos para o curto e médio prazo – o famoso “guidance”.

Vejamos o caso da Microsoft. Os números divulgados para o terceiro trimestre não foram ruins: receita em linha, lucro em linha, taxa de crescimento do segmento cloud em níveis saudáveis e dentro do esperado, mas... a empresa comentou que espera uma queda do ritmo de crescimento do segmento cloud. Foi o suficiente para o preço da ação despencar quase 8%.

Já o visionário Mark Zuckerberg parece ter sido abduzido para o seu metaverso. A empresa segue num ritmo muito forte de investimentos, o que resultou num lucro quase 30% abaixo do esperado no trimestre. Um desastre na percepção do investidor, que não está com nenhuma paciência para dar o benefício da dúvida num ambiente de risco de recessão iminente, e as ações da empresa abriram o dia de hoje com um tombo de quase 20%.

A bolsa americana vem surfando um rali nessas últimas duas semanas. Conforme comentei no artigo do dia 13, a barra estava relativamente baixa, o sentimento bem negativo, e o histórico dos últimos trimestres em termos de resultados das empresas foi positivo. Agora é a hora da verdade para este rali. Será que o mercado vai ter força para seguir subindo em direção aos 4000-4100 pontos?

Obviamente, os exemplos de Microsoft e Meta não representam todo o mercado. Em geral, os resultados em si não estão ruins, mas o nível de surpresas positivas está abaixo do normal e, principalmente, o guidance passado pelos executivos das empresas tem sido negativo, o que leva os analistas a revisarem suas projeções para baixo. Ou seja, a economia ainda está resiliente, mas o cenário à frente está piorando.

Outros sinais

Que o cenário à frente deveria piorar, não é novidade. Afinal, para domar a inflação o Banco Central americano vai procurar desaquecer a economia. Alguns indicadores antecedentes, como os de confiança do consumidor, já apontam para essa direção. Mas entre dever piorar, e realmente piorar, fica a incerteza. E nesse trajeto o mercado vai calibrando tanto a confirmação da expectativa quanto a magnitude da piora.

A verdade é que a principal bússola do investidor neste momento é a taxa de juros norte-americana. Recentemente, vem ganhando força uma narrativa otimista de que o BC americano poderia reduzir o ritmo de aumento das taxas de juros.

É curioso ver o desespero do mercado para tentar se agarrar a qualquer sinal de esperança. Tradicionalmente, um pivô do BC (“Fed pivot”) ocorre, como o nome sugere, quando ele interrompe um ciclo de alta e vira a mão, ou ao menos o mercado começa a precificar cortes.

Agora, a possibilidade de o Fed elevar a taxa de juros em 0,50% ao invés de 0,75% na reunião de dezembro (para a reunião da semana que vem o mercado já precifica em quase 100% um aumento de 0,75%), esse ritmo mais “moderado” estaria sendo visto como um Fed pivot...Parafraseando o vampiro Aro na saga Crepúsculo: “There is no Fed pivot in here…”

Hora de decidir

Os resultados (e guidance) desanimadores das empresas vieram como um balde de água fria para o investidor otimista que estava ficando mais animado com o rali. Certamente, o centro das atenções na noite desta quinta-feira serão os resultados de Apple e Amazon.

A Apple, em especial, vai ser importante, a meu ver. Considerando os impactos do ciclo nas empresas de semicondutores e os anúncios de redução de produção do iPhone novo, o mercado já não espera grande coisa, mas uma nova surpresa (e guidance!!) negativa pode ser bem ruim.

Pessoalmente, acho que esse rali já deu o que tinha que dar. Os dados de emprego continuam fortes, o que sugere que, mesmo que o próximo número de inflação seja mais animador, o Fed ainda deverá continuar firme em sua política monetária contracionista.

Tendo em vista que a narrativa da resiliência e lucro das empresas está perdendo força, enquanto o Fed não mudar de direção, o mercado deverá visitar novas mínimas.

Este texto foi orginalmente publicado no aplicativo do íon Itaú, na coluna Investida de Mestre. Baixe o app do Íon para ler este e outros textos sobre economia, investimentos e mercado financeiro.