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Mercados emergentes, investimento em ações e a 8ª maravilha

Em busca de retornos compostos através do investimento em ações

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Sérgio Pimentel

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“Juros compostos são a oitava maravilha do mundo. Aquele que entende, ganha. Aquele que não entende, paga”. Essa famosa frase é atribuída a Albert Einstein e busca enfatizar um dos principais pilares do mundo de investimentos: a geração de riqueza através dos retornos compostos.

Conhecido por seus altos juros históricos, o Brasil sempre foi visto como o país do rentista. Investidores do mundo todo nos olham como o destino para aplicar recursos na renda fixa e muitas vezes observamos uma ansiedade dos participantes em capturar esse prêmio (medo de perder o movimento, ou “Fomo”, “fear of missing out”).

Esse estigma dos juros, juntamente com nossa baixa capacidade de inovação e dificuldade para fazer negócios, acabaram por impedir um maior desenvolvimento do nosso mercado acionário, que passou a ser visto como um destino para investidores de commodities e um ambiente para especulação cíclica.

Diferente das bolsas nos EUA, que oferecem inúmeras oportunidades de crescimento e que representam mais da metade da poupança de longo prazo da família média americana, nosso mercado acionário sempre viveu à sombra da renda fixa e nunca deslanchou como uma alternativa viável para a maior parte dos poupadores.

E dá para entender. Com uma volatilidade bastante alta e com um custo de oportunidade praticamente impeditivo, o Sharpe (ou seja, o retorno ajustado ao risco) do Ibovespa é muito inferior ao dos principais índices acionários.

Adicionalmente, o poupador típico brasileiro costuma ter um horizonte de investimento muito curto, fruto da nossa alta inflação e instabilidade, que acabou por criar uma cultura improdutiva de CDI diário!

Bem, então a conclusão é que não vale a pena investir em ações no Brasil? Não!

Existem várias formas de obter bons retornos no mercado acionário brasileiro. Uma delas (e possivelmente a mais famosa entre estrangeiros) é através do investimento em empresas de commodities, muito relevantes no nosso mercado. O problema deste caminho é que commodities são cíclicas e voláteis e é preciso acertar o momento de compra e venda para minimizar as quedas mais abruptas (os temidos “drawdowns”).

Outra maneira de buscar bons retornos em ações é através da seleção ativa de empresas que apresentem crescimento consistente, que possuam fortalezas que as diferenciem das demais e que tenham potencial para consolidação de mercado. O problema deste caminho é que em geral essas empresas precisam investir muito no curto prazo para garantir seu crescimento, o que faz com que a maior parte de seu valor esteja no longo prazo (ou na perpetuidade, no jargão do mercado). Com o nível de instabilidade macroeconômica no país, essas empresas acabam apresentando uma volatilidade muito alta ao longo do tempo, o que torna seu carrego muito mais desafiador para o investidor médio.

Uma terceira forma de ganhar dinheiro com ações é através da compra de empresas de infraestrutura ou que ofereçam serviços essenciais à sociedade, os famosos “compounders”, assim conhecidos por compor resultados ao longo do tempo, comportamento semelhante ao obtido em títulos através dos juros compostos. Conhecidas lá fora como “bond like companies”, essas empresas se diferenciam das demais por apresentarem uma maior previsibilidade de resultados, uma maior resiliência aos ciclos econômicos, uma forte geração de caixa (nas operações maduras) e um mecanismo de repasse de inflação, extremamente importante no Brasil.

Essas companhias são capazes de unir a geração de renda com o crescimento, o que as diferencia demais do restante da bolsa de valores. Não só isso, por operar muitas vezes em setores de infraestrutura dentro de um mercado emergente, elas atendem a uma carência que irá ainda perdurar por muitos anos à frente.

Claro que a seleção de empresas de qualidade, com boa gestão e com boa capacidade de alocação de capital, faz toda diferença no longo prazo. Mas a paciência do investidor de aguardar “o retorno, sobre o retorno, sobre o retorno” ao longo do tempo é que traz o principal diferencial desse tipo de estratégia. E é justamente isso o que torna essa estratégia tão interessante para buscar acumulação de riqueza ao longo do tempo.

O valor real das empresas está na sua capacidade de geração de resultado e não no preço de tela das suas ações. O preço varia todo dia, o valor nem tanto. Especuladores e aventureiros buscam capturar pequenas oscilações de preço no curto prazo. Grandes investidores buscam identificar esse valor e aguardam (às vezes por décadas) a convergência do preço, coletando prêmio e compondo resultado ao longo do caminho!

Esse artigo foi publicado na coluna Palavra do Gestor do Valor Econômico em 07/10/22: LINK