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Na terra do Tio Sam, o Natal já foi

Para o S&P 500, nos Estados Unidos, o rali natalino acabou; entenda o porquê

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Giovanni Vescovi

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Produção: Shutterstock

Estamos nos aproximando do final de mais um ano e, como investidor também é gente, vai se criando aquela expectativa com a performance dos mercados. Sazonalmente, o último trimestre do ano costuma apresentar os melhores retornos nos mercados globais de renda variável, e todo mundo gosta de presentes.

Não podemos negar que, pelo menos nos mercados internacionais, foi feito um esforço para que os investidores pudessem surfar um rali de Natal. Na semana passada, antes de iniciar o período de silêncio que antecede a próxima reunião do FOMC (o COPOM norte-americano), a ser realizada na semana que vem, o presidente do Fed, Jerome Powell, surpreendeu os mercados com um discurso mais dovish (quando a política monetária tende a cortar juros).

Do outro lado do globo, as lideranças chinesas finalmente começaram a sinalizar medidas concretas para estimular a economia, com injeção de liquidez no sistema, apoio ao setor imobiliário e, principalmente, medidas de relaxamento da política de Covid zero.

E a inflação, que foi a grande vilã do ano, parece estar dando sinais de desaceleração. Melhor que isso só mais uma rodada de cheques do governo, mas aí já é demais até para o Papai Noel.

Objetivo atingido

Na coluna do dia 10 de novembro comentei que a euforia do mercado norte-americano poderia estender o rali do S&P500 taticamente até os 4100 pontos, quem sabe, dentro das duas semanas seguintes. É muito raro algum prognóstico bater na vírgula, mas a máxima intraday, desde então, foi justamente 4100 pontos, só que no dia 01 de dezembro.

No entanto, depois de atingido esse objetivo o mercado começou a perder força. Na minha opinião, ter chegado tão longe já foi uma grande conquista, considerando os fundamentos e riscos macroeconômicos. O viés é, sem dúvida, para baixo.

A semana que vem é importante, pois teremos a divulgação dos números de inflação dos Estados Unidos e a decisão de política monetária do FOMC. Esses foram os eventos mais relevantes e que criaram maior volatilidade para os mercados ao longo deste ano, e não há de ser diferente dessa vez.

Mas se mesmo com os esforços mencionados anteriormente o mercado não está conseguindo sustentar o rali, me parece que o que está passando a ditar o rumo dos mercados é a percepção da inevitabilidade de uma recessão que se aproxima inexoravelmente.

Ou seja, números bons de inflação e um tom otimista do FOMC podem ajudar, mas não o suficiente para superar essa máxima recente. Na terra do Tio Sam, o Natal já foi.

Risco de Recessão

A queda do preço do petróleo é outro. Se mesmo com a possível reabertura da economia chinesa o mercado precifica queda de demanda por energia, isso significa uma perspectiva muito cautelosa. Recessão significa queda no produto agregado, o que implica numa contração no lucro das empresas e das famílias, e isso só saberemos depois do fato. No entanto, os analistas já estão revisando para baixo suas expectativas e as empresas estão se antecipando e começando a cortar custos.

Há diversos sinais que começam a apontar com mais força na direção de recessão. A inversão da curva de juros é um dos sinais antecedentes mais fortes e está em níveis recordes dos últimos 40 anos.

Força, Brasil!

Por aqui, é preciso reconhecer que não está ocorrendo grande esforço para impulsionar um rali de Natal nos mercados locais, e, normalmente, é difícil acreditar num cenário muito otimista para ativos brasileiros se o mundo passar por uma recessão global.

Os motivos são óbvios: aumenta-se o prêmio de risco, há fuga de capital para economias mais seguras (o que fortalece o dólar) e há, consequentemente, redução no comércio internacional e menor crescimento econômico.

No entanto, apesar disso tudo, é possível que o impacto por aqui seja menor do que o esperado e a performance dos ativos brasileiros seja melhor em termos comparativos. As taxas de juros brasileiras já estão em níveis elevados, a economia brasileira está crescendo e a nossa balança comercial se beneficia bastante de preços de commodities elevados.

A renda fixa brasileira está muito atrativa e a bolsa pode se beneficiar dessa reabertura chinesa: mais minério de ferro e commodities para os chineses são mais dólares entrando e sendo convertidos para reais. Quanto mais arrecadação para o governo, mais liquidez é gerada na economia.

Apesar das incertezas, é possível estar otimista com o Brasil, principalmente se compararmos com o resto do mundo. A manutenção do ciclo de commodities já está contribuindo. Agora só falta o hexa!

Este texto foi orginalmente publicado no aplicativo do íon Itaú, na coluna Investida de Mestre. Baixe o app do Íon para ler este e outros textos sobre economia, investimentos e mercado financeiro.