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Onde tem fumaça, tem fogo

O risco de novos choques causados por dados macroeconômicos, Guerra na Ucrânia, criptomoedas e políticas atrapalhadas vem aumentando

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Giovanni Vescovi

• 6 minutos de leitura

Produção: Shutterstock

Os mercados estão mais nervosos que de costume. Os movimentos que vimos recentemente nas curvas de juros globais são sem precedentes. Algo não está bem...

Na coluna de hoje vamos procurar responder três perguntas: o que mudou nessas duas semanas que fez os mercados internacionais despencarem dessa forma? Quais são as variáveis mais relevantes para o curto e médio prazo? E quais as perspectivas para a bolsa americana e a para o Ibovespa?

O gato subiu no telhado

Há duas semanas, dei destaque para o comportamento do S&P500 na terça-feira, dia 13 de setembro, quando foram divulgados os números atualizados da inflação norte-americana. Com o núcleo da inflação mais persistente e com um mercado de trabalho superaquecido, ficava claro que o Fed teria que seguir aumentando os juros para tentar destruir demanda e controlar a inflação.

Para a reunião do FOMC (a versão norte-americana do nosso COPOM) da semana seguinte, dias 20 e 21, o mercado já tinha na conta uma elevação da taxa de juros nos EUA em 0,75%, de modo que a decisão do FOMC veio em linha com as expectativas e não deveria causar nenhuma surpresa.

O que causou surpresa, e muita, foram os chamados “dots” – que são as expectativas dos membros do FOMC em relação ao patamar dos juros americanos no final deste ano, nos anos seguintes e no longo prazo. Comparando com a reunião de junho, a média das expectativas de juros de curto prazo – Fed Funds (que é a SELIC deles) – para o fim de 2022 passou de 3,4% para 4,4%. É um movimento muito significativo. Basicamente, os membros do Fed estão dizendo que devem elevar a taxa de juros para esse nível até o final do ano.

Pouco depois, quando o presidente do Fed, Jerome Powell, fez seu discurso e disse que o caminho para controlar a inflação será doloroso, a mensagem não poderia ser mais clara: se tiver que ocorrer uma recessão para controlar a inflação, que seja. Como dizem, o gato subiu no telhado!

Para efeitos práticos e para simplificar nossa discussão aqui, o primeiro impacto de uma expectativa de juros mais altos é a sua precificação nos mercados e o deslocamento das curvas de juros para cima. Ou seja, um choque no mercado de Renda Fixa, com o valor presente dos ativos caindo por uma taxa de desconto mais alta.

Outro mercado naturalmente impactado por taxas de juros mais altas é o de Ações. Neste caso específico, além do efeito natural de taxas de desconto mais altas resultarem em menor valor presente dos ativos, é preciso levar em conta a mensagem de Powell: não esperem ajuda do Fed enquanto essa inflação não estiver controlada, mesmo que isso signifique uma recessão. Ou seja, se vai ser preciso destruir demanda, coloque no preço o risco de recessão.

E os mercados estão fazendo isso. Vendendo renda fixa, vendendo renda variável, e procurando um porto seguro na moeda americana, o dólar.

Sinais de fumaça

Não bastassem os desafios de um cenário complexo que vemos com inflação global e com a política monetária contracionista, na sexta-feira passada o Reino Unido e seu novo governo vieram com um pacote fiscal que não convenceu ninguém. Há uma linha tênue entre coragem, genialidade e loucura, mas ao que tudo indica meteram os pés pelas mãos.

O resultado foi o caos nos títulos ingleses e na libra esterlina. Entre segunda e terça-feira, as taxas dos títulos de 30 anos ingleses abriram 100 pontos base, o que é muito em qualquer lugar do mundo. Investidores sofreram fortes perdas e chamadas de margem. Esse tipo de coisa pode quebrar instituições. O risco sistêmico causa pânico, pois não se sabe qual o tamanho do buraco, e até onde vai o efeito dominó.

Ontem, quarta-feira, o Bank of England veio acalmar os mercados anunciando compra de ativos. E acalmou mesmo. As taxas de títulos ingleses de 30 anos fecharam os mesmos 100 pontos base, e até mesmo as curvas americanas fecharam, com percepção de menor risco sistêmico.

Mas não se enganem: onde tem fumaça, tem fogo. O ocorrido nesses dias na terra do rei é apenas um exemplo do que choques podem ocasionar. E tem muita coisa que pode causar novos choques: dados macroeconômicos, guerra na Ucrânia, criptomoedas, políticas atrapalhadas...

Porto Seguro... Terra Brasilis?

Já há algum tempo venho batendo na tecla de que os fundamentos não são bons para a Bolsa norte-americana. No entanto, sempre há espaço para repiques e ralis de curto prazo, que não alteram em nada a tendência.

Nesse nível de 3600/3700 pontos, e ocorrendo algum alívio na volatilidade dos mercados de juros e moedas, não causaria espanto um rali de volta para os 3900 pontos ou um pouco mais. Mas o investidor global não se guia por oportunidades táticas de curto prazo, e sim por fundamentos mais positivos. Idealmente, um porto seguro.

A boa notícia no meio de toda essa confusão é que, em termos relativos, o Brasil começa a figurar entre as melhores opções. Estamos no fim do ciclo de alta de juros, em breve teremos superado a turbulência e incertezas do período eleitoral, a inflação já passou seu pico, e o valuation do Ibovespa está atrativo por diversas métricas, inclusive se ajustarmos o índice excluindo as empresas de commodities. O que complica é que se, de fato, ocorrer uma recessão global, todo mundo apanha, inclusive o Ibovespa.

Este texto foi orginalmente publicado no aplicativo do íon Itaú, na coluna Investida de Mestre. Baixe o app do Íon para ler este e outros textos sobre economia, investimentos e mercado financeiro.