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Robôs em tempo de mudança

Faz sentido tomar uma decisão de investimento hoje baseada em um modelo matemático estudado em um período sem inflação?

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Victor Dweck

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tomada de decisão nos fundos quantitativos diante da escalada da inflação global | Fonte: Shutterstock

O ano de 2022 começou agitado, com notório movimento de queda nos principais mercados de bolsa mundiais e de títulos soberanos globais. A inflação, que há décadas estava adormecida nas economias desenvolvidas, voltou com força e resiliência.

Ainda assim, vimos no primeiro semestre muitos fundos quantitativos obtendo bons resultados, tanto no Brasil quanto nos EUA. Em especial, fundos que alocam a maior parte do risco em estratégias que capturam tendências de mercado, com base em modelos matemáticos operados usualmente por robôs. Esses fundos foram bem-sucedidos em capturar tendências fortes nos mercados de commodities, juros, moedas e índices de ações.

Quando me perguntam quais são as principais vantagens de operar o mercado com o uso de robôs, a resposta é inequívoca e pode ser dada em tópicos: primeiro, porque robôs são capazes de processar vasta quantidade de informação. A partir disso, a tomada de decisão de investimento é feita sempre da mesma maneira: como não possuem sentimento, perdendo ou ganhando, tomam decisões conforme o seu algoritmo (o seu código de programação). Robôs podem ainda, em conjunto com outros robôs, operar diversos ativos em diferentes localidades do globo. E por fim, não menos relevante, robôs não costumam ter correlação com humanos. Esse efeito de diversificação para qualquer carteira de investimento em fundos é relevante quando se tem um fundo quantitativo em um portfólio.

Uma outra característica dos fundos quantitativos é a possibilidade de se ter um controle de risco mais apurado. Isso se dá porque a volatilidade esperada para um robô é calculada considerando sua posição atual e sua performance em dados históricos de décadas. Tendo essa informação referente a cada robô, e tomando-a como medida de risco, podemos estimar com maior precisão a volatilidade para todo o time de robôs, determinando, assim, o risco do fundo quantitativo.

Mas o que acontece quando há uma mudança drástica de regime? Podemos ainda confiar nas estimativas de risco desses robôs? Faz sentido tomar uma decisão de investimento com enfoque macro, baseada em um modelo matemático que foi estudado em um período sem inflação no mundo desenvolvido, quando, hoje, a palavra que define o momento é justamente esta: INFLAÇÃO?

Quando o ambiente para o robô operar se assemelha ao que ele enfrentou nos períodos anteriores ou nos períodos de estudo, devemos permitir que ele opere conforme seu algoritmo. Agora, quando a percepção é de que o ambiente não é mais o mesmo, cabe à gestão avaliar se a expectativa de sucesso do robô permanece a mesma. Se não permanecer, algo precisa mudar.

No caso do robô com enfoque macro, uma possibilidade é otimizar seus parâmetros considerando períodos da história em que as condições macroeconômicas eram mais próximas às condições presentes nesse novo regime. Algo não muito diferente do que fazem os gestores de fundos macro discricionários, que aprofundam seus estudos a respeito desses períodos. Com a vantagem, no caso do estudo quantitativo, de que sabemos a performance simulada do robô.

De uma forma mais ampla, a supervisão de um time de robôs deve ser tarefa constante de um gestor quantitativo, analisando o cenário macroeconômico e os fundamentos microeconômicos que podem afetar de forma relevante o comportamento esperado para cada um de seus robôs. Conduzindo a gestão dessa forma, estaremos nos apropriando do melhor que há nos dois mundos da gestão: o dos humanos e o dos robôs.