Bolsas americanas avançam apesar de incertezas: o que explica a alta de abril?

S&P 500 subiu mais de 10%, enquanto o Nasdaq avançou cerca de 15%

Por Itaú Private Bank

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Abril trouxe um contraste aparente para os mercados globais. Enquanto o cenário macroeconômico ficou mais desafiador, os principais índices de ações, principalmente dos Estados Unidos, registraram ganhos expressivos. Na nova edição do International Markets, Marcio Brito, Head Investor do Banco Itaú International, analisou o que está por trás desse cenário.

Cenário macroeconômico: crescimento mais lento e inflação em foco

Os dados mais recentes apontam para uma desaceleração gradual da atividade econômica global. Ao mesmo tempo, os riscos inflacionários voltaram ao radar, impulsionados principalmente pela alta do petróleo, que voltou a superar os US$ 100 ao longo do mês.

Esse movimento é relevante porque o preço da energia afeta toda a cadeia produtiva. Com isso, aumentam as preocupações com um cenário de estagflação. Embora não seja o cenário base, essa possibilidade ganhou mais peso nas projeções.

No mercado de trabalho dos Estados Unidos, os números seguem sólidos, mas também mostram sinais de desaceleração. A redução nas horas trabalhadas e a moderação no crescimento dos salários indicam uma desaceleração gradual, sem deterioração abrupta.

Geopolítica e petróleo: os principais motores da volatilidade

Os desdobramentos no Oriente Médio tiveram papel relevante ao longo de abril. A evolução das tensões, especialmente envolvendo o Irã, influenciou diretamente o comportamento dos ativos financeiros. Em diversos momentos, o mercado reagiu mais à dinâmica geopolítica do que aos fundamentos econômicos. A alta do petróleo, nesse contexto, tornou-se um fator-chave tanto para a inflação quanto para o sentimento dos investidores.

Bolsas em alta: o que sustentou o movimento

Mesmo diante de um cenário mais incerto, os mercados acionários tiveram desempenho expressivo. O S&P 500 subiu cerca de 10% em abril, enquanto o Nasdaq avançou aproximadamente 15%.

Três fatores ajudam a explicar esse movimento:

1. Resultados corporativos resilientes

A temporada de balanços trouxe resultados sólidos e, principalmente, projeções ainda construtivas por parte das empresas. Isso ajudou a sustentar a confiança dos investidores.

2. Reposicionamento dos investidores

O mês começou com investidores mais cautelosos, mantendo níveis elevados de caixa. Com a ausência de uma deterioração mais forte do cenário, houve recomposição gradual de posições em ativos de risco.

3. Força estrutural do setor de tecnologia

O tema de inteligência artificial segue sendo um dos principais motores de longo prazo. Demandas por infraestrutura de tecnologia, como cloud computing, continuam impulsionando as expectativas de crescimento.

Um mercado mais seletivo

Apesar da alta generalizada nos índices, o movimento não foi homogêneo. Na verdade, o mercado mostra maior seletividade. Nem todos os setores participaram igualmente da valorização, e a reação aos resultados corporativos tem sido mais volátil. Em muitos casos, números positivos não são suficientes para sustentar altas. As expectativas seguem elevadas.

Juros nos EUA: “higher for longer”

No campo da política monetária, a mensagem do Federal Reserve permanece inalterada. Com a inflação ainda acima da meta, o cenário segue de juros mais altos por mais tempo.

A alta do petróleo reforça esse diagnóstico, reduzindo o espaço para cortes de juros no curto prazo.

Renda fixa: estabilidade e foco em carrego

No mercado de renda fixa, o posicionamento continua relativamente estável:

Cautela nos trechos intermediários da curva, mais sensíveis a riscos fiscais e inflação;

Crédito ainda resiliente, com retorno mais baseado no carrego do que na compressão de spreads.

Segmentos como crédito privado seguem no radar, com a volatilidade recente sendo vista mais como técnica do que estrutural.

O que esperar para os próximos meses?

O cenário base continua sendo de soft landing. Ou seja, de desaceleração econômica sem uma contração mais intensa. Mas o caminho deve seguir marcado por maior volatilidade. Alguns fatores serão decisivos.

Preço do petróleo: estabilidade pode aliviar a inflação; novas altas podem pressionar mercados;

Resultados corporativos: manutenção de projeções construtivas será fundamental;

Mercado de trabalho: sinais mais claros de desaceleração podem mudar o cenário de juros.