Como são tomadas nossas decisões de investimento?

No primeiro episódio do Investment Insights, Carolina Sato convida Roberto Martins para uma conversa sobre o processo de decisão das recomendações de investimentos aos clientes do Itaú

Por Carolina Sato

4 minutos de leitura

Cada recomendação de investimentos que é feita para nossos clientes passa por um processo de decisão longo e robusto dentro do nosso Comitê de Investimentos. Nele, reunimos os especialistas responsáveis por cada uma das classes de ativos e usamos ferramentas e modelos criados e aperfeiçoados ao longo do tempo para fazer a recomendação mais precisa para cada perfil de investidor.

Nesta primeira edição do Investment Insights, nosso novo produto na prateleira de conteúdos de investimentos, eu, Carolina Sato, estrategista de investimentos do Itaú, convido Roberto Martins, Head Portfolio Manager de Solutions Internacional, para uma conversa que se propõe a abrir esse processo de decisão para nossos clientes.

Diferença entre alocações táticas e alocações estratégicas

Recomendar investimentos é um trabalho que passa por saber lidar com incertezas. Alguns dados, alguns horizontes, no entanto, oferecem menos incertezas do que outros. No geral, é menos incerto fazer uma previsão para o longo prazo, onde temos mais histórico, do que para o curto prazo, onde existe mais ruído.

O processo de decisão de investimentos, portanto, passa por duas fases. Primeiro, construímos uma carteira pensando no longo prazo, baseada em números e hipóteses com um pouco mais de peso e um pouco mais de convicção. Essas são as alocações estratégicas. Depois disso, fazemos discussões semanais sobre a necessidade de fazermos movimentos para cima ou para baixo em termos de risco, para tentar aumentar a rentabilidade ou proteger a carteira recomendada da volatilidade que prevemos à frente. Essa segunda parte é o que podemos chamar de ajustes táticos.

Como funciona o Comitê de Investimentos do Itaú

Fundamentalmente, a pergunta que o Comitê de Investimentos do Itaú se propõe a responder sempre é: queremos aumentar ou diminuir o risco das nossas carteiras recomendadas? Para isso, utilizamos um modelo de três fases.

Primeiro, uma discussão sobre economia. Depois, sobre o fundamento das empresas, por exemplo. E, por fim, baseado nessas duas análises, uma discussão sobre o valor dos ativos.

Esse modelo caminha do que é menos incerto (economia) para o que é mais incerto (preço dos ativos) e vem sendo aperfeiçoado ao longo do tempo. E a maneira como a economia é avaliada atualmente, em termos de regime, talvez seja a maior novidade.

Como funciona o modelo de regime econômico utilizado pelo Itaú

Nosso modelo de regime econômico se baseia em duas variáveis centrais: crescimento e inflação. Essas variáveis ocupam, respectivamente, o eixo x e o eixo y do nosso gráfico e o cruzamento das linhas médias desses dois eixos cria quatro quadrantes, cada um com um histórico de performance diferente para as classes de ativos que acompanhamos.

Esse modelo é bastante simplista, mas nos permite ter uma boa noção de quais classes de ativo tendem a encontrar um ambiente mais ou menos favorável naquele estágio do ciclo econômico em que estamos. Essa leitura não elimina as incertezas do mercado, mas ajuda a incorporar probabilidades ao processo de investimento. Na prática, o modelo nos ajuda a responder uma das perguntas mais importantes do processo de investimento: qual é a probabilidade de as ações entregarem retornos superiores aos ativos mais conservadores no ambiente atual?

A partir dessa leitura, nosso Comitê de Investimentos avalia se as condições do mercado favorecem uma postura mais construtiva ou mais cautelosa em relação aos ativos de risco. E a partir disso, entram outras discussões, como posicionamento em renda fixa, crédito, moedas e commodities. Mas a avaliação sobre o nível de risco adequado para as carteiras segue sendo o principal direcionador das recomendações.

O que esperar dos quadrantes ‘estagflação’ e ‘overheat’

Em linhas gerais, o regime de 'estagflação' tende a exigir mais cautela, enquanto o 'overheat' costuma ser mais favorável aos ativos de risco. Ainda assim, uma mudança de quadrante não leva automaticamente a alterações nas recomendações de investimento. Os regimes funcionam como um ponto de partida para a análise, mas representam apenas uma parte de uma realidade muito mais complexa.

Foi justamente essa combinação de fatores que ajudou a embasar a recente decisão de aumentar a exposição à bolsa americana. Além do ambiente macroeconômico mais favorável, também pesaram tendências estruturais levantadas por nós e que o modelo não captura diretamente, como o avanço da inteligência artificial, o ciclo de investimentos associado a essa transformação e o crescimento dos lucros das empresas americanas, próximo de 35% ao ano.

O que esperar dos quadrantes ‘recessão/deflação’ e ‘goldilocks’

Entre os quatro regimes do modelo, o quadrante de 'recessão/deflação' costuma ser o mais desafiador. Nesse ambiente, a atividade econômica perde força e os mercados podem enfrentar correções relevantes, exigindo maior cautela na gestão das carteiras. O principal desafio é atravessar esse período sem perder a recuperação que normalmente acompanha a saída da recessão e que costuma ser um momento historicamente muito bom.

No extremo oposto está o quadrante 'goldilocks', marcado por crescimento acelerando e inflação desacelerando. Nesse cenário, os retornos tendem a ser mais positivos e a volatilidade mais baixa, favorecendo os ativos de risco de forma mais ampla. Não por acaso, é visto como um dos ambientes mais favoráveis para a construção de carteiras e um dos mais desejáveis para gestores e investidores.

Como e com que frequência o modelo de regime econômico utilizado evolui

O modelo de regime econômico não é estático. Novos dados e informações surgem continuamente, e a equipe revisita suas análises com frequência para identificar oportunidades de aprimoramento. O objetivo é entender cada vez melhor como as mudanças no ambiente econômico afetam os investimentos.

Essa evolução acontece de forma gradual. Em vez de grandes mudanças, o processo é marcado por ajustes contínuos, seja pela incorporação de novas variáveis, seja pelo aperfeiçoamento das técnicas utilizadas. Da mesma forma que as decisões de investimento são construídas ao longo do tempo, o modelo também evolui continuamente para acompanhar a dinâmica dos mercados.

Assista ao vídeo na íntegra.