Como os vieses comportamentais atrapalham as decisões de investimento?
No segundo episódio do Investment Insights, Carolina Sato convida Martin Iglesias para uma conversa sobre o impacto dos vieses comportamentais sobre as decisões de investimento
Por Carolina Sato
Recentemente, a bolsa brasileira subiu mais de 8% e o real se apreciou mais de 4% em um curto período de tempo. O movimento gerou muitas perguntas para os investidores: é hora de entrar? É hora de sair? Espero um pouco mais? E se eu ficar de fora?
Nesta edição do Investment Insights, eu, Carolina Sato, convido Martin Iglesias para uma conversa sobre o impacto dos vieses comportamentais sobre as decisões de investimento, especialmente em momentos de grande volatilidade do mercado. Confira um resumo:
O que movimentos fortes no mercado podem revelar sobre vieses como investidores?
Podemos utilizar o movimento recente do dólar como exemplo. Quando a taxa de câmbio cai rapidamente, é muito comum que alguém que estava pensando em investir no exterior pense: "vou esperar mais um pouco, porque talvez caia mais". Se o movimento se inverte e a moeda começa a subir, uma outra reação possível é: "preciso mandar o dinheiro agora, antes que fique mais caro".
Nesses dois cenários, a direção do dólar mudou, mas a maneira de pensar permaneceu praticamente a mesma. Uma decisão muito mais ampla, que envolve olhar para o restante da carteira, nossos objetivos, horizonte de investimento, concentração do patrimônio no Brasil, acesso a setores que não existem no mercado local, correlação entre ativos, ou seja, uma decisão multidimensional, foi reduzida a uma decisão exclusivamente sobre o câmbio. Em finanças comportamentais, dizemos que a pessoa está sob efeito do "narrow framing" ou "enquadramento estreito".
Para escapar disso, o que os investidores deveriam fazer é: "estou tomando uma decisão sobre minha carteira ou estou fazendo uma aposta sobre a próxima cotação do dólar?".
A sensação de "deveria ter entrado antes" ou "se eu não entrar agora, vou perder oportunidade" é o chamado FOMO?
FOMO (sigla para Fear of Missing Out, algo como "Medo de ficar de fora", em tradução livre) é a maneira que se convencionou chamar parte desse sentimento. A versão mais completa desse viés é o "regret aversion" ou "aversão ao arrependimento". Esse viés acontece quando você vê algo "muito bom" acontecendo e você não está fazendo parte disso.
No mundo dos investimentos, é como olhar a bolsa subir e você não estar investido nela. O investidor, muitas vezes, não perdeu dinheiro por deixar de agir, mas psicologicamente existe uma sensação de perda pelo que "deixou de ganhar". O arrependimento nasce justamente dessa comparação entre o que fizemos e aquilo que poderíamos ter feito. E, quando antecipamos esse sentimento, ele também pode influenciar as próximas decisões: "se eu não entrar agora, vou me arrepender depois".
Veja como isso pode ser poderoso. A razão para comprar deixa de ser necessariamente uma avaliação sobre o retorno esperado daquele investimento e passa a ser evitar uma emoção futura desagradável. Uma alta de mercado pode ter razões perfeitamente justificáveis. Novas informações podem alterar perspectivas de crescimento, juros, lucros, prêmio de risco e, portanto, o preço dos ativos. Não estou dizendo que uma alta forte significa que o investidor não deva comprar. A questão é: por que você está comprando? Por conta das mudanças de fundamentos ou pelas suas emoções? .
Como o medo de ficar de fora de algo bom e o medo de entrar em algo bom e isso ficar ruim convivem?
Há um artigo de Lisa L. Posey, Anthony M. Kwasnica e Charles F. Geier, chamado “The Coexistence of Loss Aversion and Regret Aversion in Decision Making Under Risk”, publicado em 2026 no Journal of Risk and Uncertainty, que estuda justamente a atuação simultânea desses dois mecanismos na tomada de decisão sob risco. Os autores encontram evidências de que aversão à perda e aversão ao arrependimento podem coexistir na mesma decisão.
Em um caso, dói aquilo que perdi. No outro, dói aquilo que poderia ter ganhado. Uma força empurra: “faça alguma coisa”. A outra segura: “não faça nada”. Talvez seja justamente por isso que movimentos muito fortes de mercado gerem tanta ansiedade. Quando os preços se movimentam pouco, conseguimos manter alguma distância. Quando a Bolsa sobe muito rapidamente, parece que alguma decisão precisa ser tomada imediatamente. E a urgência é um ambiente bastante fértil para vieses.
Outro ponto interessante é que começamos a tratar o preço anterior como referência. Depois de observar a Bolsa em determinado nível durante algum tempo, aquele número entra na nossa cabeça. Quando o mercado salta rapidamente, surge a sensação de que estamos pagando caro simplesmente porque poderíamos ter comprado mais barato alguns dias antes. A pergunta relevante não deveria ser “quanto eu pagaria na semana passada?”, mas “considerando as informações disponíveis hoje, qual é a relação entre preço, risco e retorno daqui para frente?”.
Essa mudança parece pequena, mas altera completamente a perspectiva. O arrependimento olha para trás. O investimento precisa olhar para frente. E talvez essa seja a essência do conflito: estamos tentando tomar uma decisão sobre o futuro enquanto continuamos olhando para uma oportunidade que imaginamos ter perdido no passado.
Para quem está vivendo esse dilema, qual seria a maneira mais racional de tomar uma decisão?
Acho que o primeiro passo é voltar à pergunta que existia antes de o mercado se movimentar. Se na semana passada eu acreditava que deveria ter determinada exposição à Bolsa, o que mudou? Mudaram os fundamentos? Mudou minha capacidade de assumir risco? Mudou meu horizonte? Mudou o retorno esperado? Ou mudou principalmente o preço e, junto com ele, a minha emoção?
Essa distinção é muito importante.
O investidor também não precisa transformar todas as decisões em escolhas binárias. Às vezes pensamos apenas em duas alternativas: ou entro agora com tudo ou fico completamente de fora. Mas existem formas de construir uma exposição gradualmente, de rebalancear uma carteira e de reduzir a dependência de um único momento de entrada.
Não estou dizendo que parcelar investimentos seja sempre a estratégia correta. Estou dizendo que, comportamentalmente, muitas vezes criamos escolhas extremas que não precisavam ser extremas.
Um segundo cuidado é voltar para a alocação estratégica. Quanto de Bolsa fazia sentido para mim antes da alta? Quanto tenho hoje? A diferença é grande? Meu portfólio ficou desequilibrado ou continua compatível com meus objetivos?
Essas perguntas ajudam a transformar “acho que a Bolsa vai subir ou cair amanhã?” em algo mais administrável: “como deveria estar distribuído meu patrimônio?”.
O investidor pode contar com uma ajuda profissional para tomar as decisões de investimento?
Com certeza! Eu acho que é exatamente aí que uma boa assessoria pode agregar muito valor. Costumamos pensar no assessor de investimentos como alguém que indica um fundo, uma ação ou um produto. Mas talvez uma de suas funções mais importantes seja evitar que o investidor transforme emoções momentâneas em mudanças permanentes de carteira. Ter esse tipo de conversa entre cliente e assessor cria uma distância entre estímulo e decisão. E é justamente essa distância que os vieses tendem a reduzir.
Eu gosto de usar uma metáfora para ilustrar bem isso: nos investimentos, talvez estejamos sempre entre sereias e gorilas.
As sereias lembram o mito de Ulisses (Odisseu), em "A Odisseia", de Homero: cantos sedutores que atraem, criam urgência e nos fazem querer agir antes mesmo de pensar com calma. Nos mercados, podem aparecer na forma de uma alta muito forte, de uma narrativa irresistível ou da sensação de que todos estão ganhando menos nós.
Já os gorilas remetem ao famoso experimento registrado no livro “O Gorila Invisível”, de Daniel Simons e Christopher Chabris. Nesse experimento, enquanto as pessoas estão concentradas em contar passes de basquete, simplesmente não percebem uma pessoa fantasiada de gorila atravessando a cena, batendo no peito e tudo. É a chamada "cegueira por desatenção".
Às vezes, portanto, o risco está naquilo que nos seduz demais; em outras, naquilo que deixamos de enxergar porque nossa atenção está ocupada demais. No fundo, não precisamos escolher entre ter medo de entrar e ter medo de ficar de fora. Precisamos evitar que seja o medo, qualquer um dos dois, quem tome a decisão por nós.