Uma leitura sobre os fatos que mais marcaram 2025
Por Itaú Private Bank

“Você realmente não saberá nada se apenas lembrar de fatos isolados. Se os fatos não estiverem ligados por uma estrutura teórica, eles não estarão numa forma utilizável.”
Charles Munger, renomado investidor e vice-presidente da Berkshire Hathaway, costumava dedicar grande parte do seu tempo para refinar seus modelos mentais voltados à gestão de recursos. E são justamente os modelos, as crenças e os processos que determinam como reagimos aos estímulos contínuos apresentados pelos mercados.
Em nossa busca constante por vantagens competitivas, temos nos debruçado sobre infindáveis séries temporais para compreender quais são os fatores, ou suas combinações, que permitem a realização de retornos estatisticamente relevantes, bem como o aumento na probabilidade de sucesso nos ajustes táticos. Ou seja, parafraseando o economista J. M. Keynes, preferimos estar “aproximadamente certos do que precisamente errados”.
E é nessa busca pela adaptação darwiniana que obtivemos certo sucesso ao navegar por mares muitas vezes revoltos em 2025. Tivemos como estrela guia o movimento de crescimento difundido e consistente nos dados de atividade na maioria das geografias, assim como a desaceleração das tendências inflacionárias no mundo, exceção feita aos EUA, onde a inflação permaneceu elevada para seus padrões.
Que tal revisitarmos o ano de 2025? Quais os fatos mais relevantes?1. Ambiente global: crescimento resiliente e desinflação gradual
De fato, o ano de 2025, demonstrou a resiliência da economia global ao choque de incerteza vindo da guerra comercial, com crescimento difuso e uma inflação que, embora ainda acima das metas – especialmente nos EUA –, não impediu os bancos centrais de cortarem juros.
Os principais blocos econômicos – EUA, Europa e Ásia – mantiveram níveis de atividade razoavelmente saudáveis, sustentados por mercados de trabalho sólidos, consumo resiliente e estímulos pontuais – ou pelo menos promessas – de investimento público em infraestrutura e transição energética.
O crescimento global deve encerrar o ano acima de 3%, um resultado que, embora inferior à média prépandemia, superou projeções iniciais e reforçou a adaptabilidade da economia mundial após anos de choques simultâneos. Já a inflação, que havia surpreendido persistentemente para cima entre 2022 e 2024, começou a recuar de forma mais consistente – refletindo a redução dos preços de energia e alimentos.
Os bancos centrais, de forma geral, continuaram no processo de normalização dos juros básicos. 25 bancos centrais, de uma amostra de 33, reduziram taxas ao longo do ano. Em setembro, o Federal Reserve se juntou ao grupo começando um novo ciclo de cortes nos EUA. A comunicação foi de vigilância contra a inflação, mas com crescente preocupação sobre os custos de manter as taxas elevadas por mais tempo.
A surpresa ficou por conta das tensões geopolíticas e comerciais que influenciaram significativamente o humor dos mercados – desde disputas tecnológicas e protecionismo até conflitos localizados que mantiveram voláteis os preços de commodities agrícolas e energia. Ao mesmo tempo, avanços em inteligência artificial, semicondutores e energia limpa sustentaram o otimismo de longo prazo e impulsionaram investimentos direcionados a produtividade e inovação.
Esse cenário híbrido – de crescimento resiliente, inflação ainda pressionada, mas com alguma tendência de arrefecimento, e juros historicamente altos – moldou o comportamento dos mercados: renda variável com retornos positivos, mas concentrados; renda fixa com oportunidades de travar bons cupons; e moedas refletindo preocupações com a necessidade de diversificação.
2. Renda variável global: seletividade e dispersão
2025 também foi um ano bem favorável para os mercados acionários globais. Nos EUA, passado o choque inicial das tarifas, vimos os principais índices renovarem máximas históricas, impulsionados por lucros corporativos acima do esperado e pela força das empresas de tecnologia e saúde, beneficiadas por megatendências como digitalização, inteligência artificial e envelhecimento populacional. O resto do mundo também performou muito bem, ultrapassando os retornos da bolsa americana pela primeira vez desde 2017, ajudado pela fraqueza do dólar.
Destaque para mercados emergentes, onde a combinação de dólar em desvalorização, avanços tecnológicos na Ásia e busca por diversificação trouxe ganhos expressivos – incluindo a valorização de bolsas latino-americanas, que cresceram apoiadas em preços atrativos e fluxo estrangeiro. De forma geral, 2025 premiou a diversificação e a gestão ativa, num ambiente de forte dispersão setorial e geográfica que favoreceu investidores com foco em fundamentos, empresas lucrativas e vantagem competitiva. Nesse contexto, aproveitamos o aumento da volatilidade no segundo trimestre e aumentamos taticamente a nossa exposição em ações de perfil de alto crescimento de lucro no mundo desenvolvido e em mercados emergentes.
3. Renda fixa global: o retorno da atratividade
O movimento global de redução de juros criou um ambiente em que, de maneira geral, os títulos de curto e médio prazo ofereceram retornos reais positivos. Nos países desenvolvidos, títulos soberanos e crédito corporativo de alta qualidade ganharam tração, sendo vistos como porto seguro em meio à volatilidade das ações e das moedas. Já o segmento de crédito privado e high yield, mesmo com índices de inadimplência em níveis historicamente baixos, enfrentou um ambiente mais seletivo, com spreads comprimidos e duration curto.
Em abril, com a incerteza do aumento das tarifas, chegamos a reduzir nossa exposição em renda fixa high yield , mas já no segundo trimestre voltamos a ficar acima da posição de longo prazo em crédito privado. Assim como na renda variável, a resiliência da atividade econômica permite que crédito privado HY ofereça retornos superiores à média histórica em razão dos níveis baixos de perdas por inadimplência.
4. Câmbio e moedas: dólar fraco, mas volátil
O dólar americano sofreu forte desvalorização no primeiro semestre de 2025, tanto em relação a moedas de economias desenvolvidas quanto a diversas divisas de mercados emergentes – um movimento diretamente associado às recentes tarifas impostas pelos EUA e ao aumento da incerteza sobre o futuro da economia americana. A imposição das tarifas pelo governo americano provocou um receio generalizado de que o protecionismo poderia desacelerar o comércio e o crescimento global, além de questionar o papel do dólar como porto seguro.
Esse contexto de menor previsibilidade e tensões comerciais levou investidores a buscar diversificação – seja pela realocação de ativos para outras moedas ou pela redução da dependência de ativos denominados em dólar. Embora sigamos recomendando a diversificação global de moedas sob a ótica estrutural, taticamente percebemos a perda de momentum neste movimento após o mês de maio.
Seja pela taxa de juros relativamente mais alta nos EUA ou pelas oportunidades oferecidas por investimentos em tecnologia, as demais divisas tiveram dificuldades em se valorizar frente ao dólar no segundo semestre. Mas vale ressaltar que as premissas de retorno de longo prazo das demais classes internacionais em 2026 passarão a incorporar uma leve desvalorização anual do dólar no horizonte de três a cinco anos.
5. Brasil: inflação em desaceleração e juros altos sustentam atratividade
O Brasil em 2025 apresentou uma combinação de crescimento moderado, inflação em queda e juros elevados, um cenário que reforçou a atratividade dos ativos domésticos. O PIB deve crescer pouco mais de 2%, puxado por agronegócio, serviços e consumo, enquanto a inflação acumulada de 12 meses recuou para cerca de 4,5%, o menor patamar em mais de um ano – ainda acima do centro da meta, mas com clara tendência de desaceleração. O Banco Central manteve a Selic em 15% ao ano, optando por preservar a credibilidade do regime de metas antes de iniciar cortes. Isso manteve o real como uma das moedas de maior retorno real do mundo, atraindo fluxo estrangeiro e sustentando o interesse em títulos públicos e crédito privado, especialmente isentos.
Na renda variável, o Ibovespa deve encerrar o ano entre os mercados emergentes de melhor desempenho – favorecido pela valorização cambial, fluxo externo e expectativa de início do ciclo de flexibilização monetária em 2026. Setores ligados ao consumo e bancos tiveram bons resultados, embora a aversão ao risco global e as incertezas fiscais tenham limitado ganhos mais expressivos. O quadro fiscal e a dificuldade de destravar reformas que permitam maiores ganhos de produtividade para além dos setores extrativistas e do agronegócio seguem como as principais fontes de incerteza.
Logo no primeiro trimestre deste ano, percebemos que o regime havia mudado no Brasil, com o fluxo de capitais para mercados emergentes e o potencial de retornos com os juros reais e nominais elevados. Assim, ao longo do ano, aumentamos significativamente nossas posições em bolsa e em prefixados para posições compradas acima do longo prazo. Mas recentemente, no início de dezembro, voltamos a trazer nossas posições em prefixado para o neutro. De acordo com nossas estatísticas, acreditamos que a expectativa de um ciclo de corte de juros normalmente permite a compressão dos prêmios de risco em todas as classes de ativo, oferecendo a melhor relação risco-retorno possível.