Mercado de crédito no 1º trimestre de 2026: confira os destaques no Brasil e no exterior
Na série On Credit, nosso time de especialistas em investimentos analisa os principais movimentos do crédito no Brasil e no exterior, combinando a visão local e global do mercado.
Por Itaú Private Bank
O início de 2026 trouxe movimentos relevantes para os mercados de crédito no Brasil e no exterior. Em um ambiente ainda marcado por volatilidade e mudanças na dinâmica dos fluxos de investimento, os diferentes segmentos do mercado passaram a apresentar comportamentos bastante distintos.
No mercado doméstico, o crédito isento ganhou destaque. A forte demanda por debêntures incentivadas influenciou a formação de preços e a dinâmica dos spreads, diferenciando o desempenho desses papéis em relação a outros instrumentos de crédito privado, como CRIs, CRAs e CPRs. Ao mesmo tempo, casos recentes envolvendo grandes emissores reforçaram a importância de maior cautela e seletividade nas decisões de investimento.
Já no cenário internacional, o crédito segue apoiado em fundamentos mais sólidos, com destaque para os Estados Unidos e reflexos relevantes sobre os mercados emergentes.
Confira todos os detalhes nesta nova edição do On Credit.
Brasil
• Demanda institucional elevada: as debêntures incentivadas começaram o ano em ritmo forte, impulsionadas principalmente por investidores institucionais. Esse movimento esteve ligado a exigências regulatórias que determinam a alocação desses papéis em fundos de infraestrutura. A estimativa era de que o mercado institucional precisasse alocar entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões ao longo do primeiro semestre de 2026, sustentando a pressão compradora observada no período.
• Spreads historicamente comprimidos: debêntures com classificação de risco mais elevada, como as AAA, encerraram 2025 negociadas entre 30 e 40 pontos-base abaixo da NTN-B equivalente. No início de 2026, esses spreads se comprimiram ainda mais, chegando a níveis entre 80 e 100 pontos-base negativos, refletindo a forte demanda e a redução do prêmio em relação aos títulos públicos.
• Volume relevante de emissões: com o mercado aquecido, diversas empresas acessaram o mercado de debêntures incentivadas. Sabesp, MRS, CPFL, NTS, VLI, Alupar, Energisa e Axia, por exemplo, captaram juntas mais de R$ 10 bilhões. Já outros instrumentos isentos, como CRIs, CRAs e CPRs, apresentaram comportamento mais estável.
• Aumento da seletividade: o rebaixamento do rating da Raízen, de AAA para CCC, elevou a percepção de risco entre investidores. Além disso, a recuperação extrajudicial do Grupo Pão de Açúcar contribuiu para uma postura mais cautelosa e seletiva na análise de novas alocações.
• Possível normalização à frente: para os próximos meses, existe a possibilidade de um processo de normalização dos spreads das debêntures incentivadas, com maior aproximação em relação a outros ativos isentos. Esse ajuste pode ocorrer tanto por meio de aumento da oferta, com novas emissões, quanto por uma desaceleração da demanda, que depende do ritmo de captação dos fundos de infraestrutura.
Internacional
• Resiliência econômica com aumento de riscos: a economia dos Estados Unidos segue mostrando resiliência, apesar de choques recentes. No entanto, preocupações com o potencial disruptivo da inteligência artificial, riscos associados ao crédito privado e a maior volatilidade no mercado de energia, após o conflito no Irã, reduziram o apetite ao risco nos mercados financeiros globais.
• Impactos geopolíticos sobre inflação e ativos: a escalada das tensões no Oriente Médio elevou as expectativas de inflação e limitou o papel dos Treasuries e do ouro como ativos de proteção. Ao mesmo tempo, as commodities foram beneficiadas, e o petróleo passou a sustentar o dólar, refletindo a posição dos Estados Unidos como exportador líquido de energia.
• Visão construtiva para mercados emergentes: o sentimento dos investidores internacionais em relação à América Latina permanece relativamente positivo. Empresas da região apresentam fundamentos de crédito sólidos, apoiados por preços elevados das commodities, forte demanda externa para exportadoras e economias domésticas ainda resilientes, com níveis de inadimplência moderados.
• Resultados sólidos, com sinais pontuais de estresse: a temporada de resultados foi positiva nos mercados desenvolvidos, e as taxas de inadimplência seguem próximas às mínimas históricas. Ainda assim, há sinais localizados de estresse em setores como software e crédito privado, acompanhados por maior dispersão entre setores e classificações de risco.
• Retorno da atratividade em crédito de qualidade: a recente abertura dos yields tornou os títulos soberanos e os créditos de maior qualidade mais atrativos nos principais mercados desenvolvidos. Além dos Estados Unidos, surgiram oportunidades em títulos investment grade denominados em euros e libras, ampliando as alternativas de diversificação e de travamento de taxas em níveis elevados.