Duration

TenisVesting: o que Serena Williams, Cristiano Ronaldo e uma NTN-B com vencimento em 2055 têm em comum?

Por Andrea Masagão Moufarrege, Team Leader - Investment Funds Specialists

6 minutos de leitura
Bola de tênis apoiada numa toalha branca sobre uma quadra de tênis de grama, sobreposta pela imagem de gráficos de linha e de velas.

O que Serena Williams, Cristiano Ronaldo e uma NTN-B com vencimento em 2055 têm em comum?

🎾 Wimbledon, 30 de junho de 2026.

Serena Williams entra em quadra pela primeira vez em quase quatro anos. Do outro lado da rede está Maya Joint, 20 anos, menos da metade da sua idade.

Na véspera, na coletiva de imprensa, alguém perguntou por que Serena voltou e ela respondeu: "Quem sabe se algum dia voltarei aqui. Pode ser que esta seja a última vez."

Não é nostalgia. Não é vaidade. É alguém que entende que o tempo é finito e que, enquanto é possível, faz sentido estar aqui.

Serena não está sozinha nessa conta.

Vênus, sua irmã, tem 45 anos e jogou o Australian Open em janeiro. No ano passado, quando perguntaram por que ela continuava competindo, a resposta foi simples: "Por que não?"

⚽ Copa do Mundo, 2026.

Cristiano Ronaldo entrou em campo nos EUA para sua sexta participação em mundiais aos 41 anos. Luka Modrić, o craque croata, com 40. Lionel Messi completou 39 já durante a competição. Foram oito atletas acima dos 40 anos nesta competição, um recorde!

Voltando a Wimbledon, Djokovic, com 39 anos, também está jogando.

Exemplos não faltam. E o que essas carreiras têm em comum não é sorte. É algo mais preciso.

🎾 ⚽ Muitos fatores explicam essa longevidade: medicina esportiva, nutrição, recuperação, tecnologia. Tudo isso existe e importa. Mas há um ingrediente que raramente aparece na lista, e que me parece o mais decisivo: o reconhecimento do momento certo.

Serena não voltou porque ignorou os 44 anos. Voltou porque entendeu o que eles ainda permitem. Há uma diferença enorme entre não saber a hora de parar e saber exatamente por que ainda faz sentido continuar. Parafraseando Vênus: “se eu posso, por que não?”

📈 Em finanças, há um conceito que explica isso: duration.

O que você imagina quando ouve essa palavra?

Uma carreira que dura vinte ano tem mais duration do que uma que dura dez. Um título que vence em 2055 tem mais duration do que um que vence em 2027. Parece óbvio, só um estrangeirismo para “duração”, mas não é só isso.

Duration parece medir apenas quanto tempo algo dura. Mas na verdade, é uma medida de sensibilidade — especificamente, o quanto o preço de um título oscila quando as taxas de juros mudam.

Duration não é uma medida de prazo. É uma medida de risco.

Ela não mede o tempo. Mede o quanto o tempo ainda importa.

O título com vencimento em 2055 tem mais duration do que o de 2027, mas não só porque dura mais tempo no calendário, também porque, até lá, cada variação nas taxas de juros vai afetar seu preço com mais intensidade. Quando os juros sobem, ele cai mais. Quando os juros caem, ele sobe mais. É um título mais nervoso, com mais exposição, mais potencial — nos dois sentidos.

🎾📈 Assim como Serena em quadra: mais anos de carreira significam mais variáveis, mais exposição, mais risco. E também a possibilidade de estar exatamente no lugar certo na hora certa.

Não existe "a NTN-B". Existe uma família inteira.

Os títulos públicos indexados à inflação têm vencimentos que vão de 2027 até 2055, e cada um carrega uma duration diferente.

Imagine duas NTN-Bs: uma vence em 2027, outra em 2055. Amanhã os juros sobem. Qual delas sofre mais?

O preço do título de 2055 é altamente sensível a qualquer movimento de juros, pois tem longa vida pela frente e, portanto, longa exposição ao que o tempo pode trazer. O preço do título de 2027 é bem mais comportado.

O investidor que quiser duration curta escolhe títulos mais próximos do vencimento. Quem quiser duration mais longa, vencimentos mais distantes. Quem não quiser fazer essa seleção manualmente pode recorrer a ETFs de renda fixa listados na B3, como o IMAB11, que replica o índice IMA-B completo com duration elevada, ou o B5P211, de duration menor. São fundos que fazem a escolha e o rebalanceamento automaticamente, com acesso simples e custo baixo.

O Brasil vive hoje um momento raro.

As NTN-Bs estão oferecendo juros reais próximos de 8% ao ano. A média histórica fica entre 5% e 6% acima da inflação. Essa diferença, mantida por anos, faz diferença real no patrimônio.

Um exemplo concreto: R$ 1 mil investidos hoje em uma NTN-B 2035, com juros reais de 8% ao ano e inflação de 4%, dobram o poder de compra do investidor em nove anos. Ou seja: no próprio vencimento do título.

Mas há um contexto que precisa ser mencionado: a incerteza fiscal ainda está na mesa.

Incerteza fiscal se traduz em volatilidade nas taxas de juros, que, via duration, se traduz em oscilação nos preços dos títulos. Quem carrega uma NTN-B longa pode ver o valor de mercado subir e cair ao longo do caminho.

Essa variação tem nome: marcação a mercado. E não é um defeito do título. É exatamente o que duration descreve. A marcação a mercado reflete o quanto aquele título vale a cada dia, considerando as taxas de juros e o fluxo de caixa.

Quem entende esse mecanismo consegue fazer algo importante: tolerar o movimento sem vender no momento errado, reconhecer quando a volatilidade cria oportunidade, ajustar a posição conforme o cenário evolui. Duration não é uma resposta definitiva. É uma bússola que permite navegar mesmo quando o tempo fecha.

🎾📈 Serena não voltou para Wimbledon porque era seguro. Voltou porque avaliou os riscos e entendeu que ainda havia tempo para obter um retorno positivo. O investidor escolhe sua duration exatamente pela mesma razão. Não para controlar o futuro. Mas para decidir quanto do futuro quer deixar influenciar suas escolhas de hoje.

O investidor brasileiro tem uma decisão parecida diante de si. Não sobre tênis, ou sobre futebol, mas sobre duration. Não é uma aposta contra o tempo. É uma escolha sobre como conviver com ele.

Para quem quiser ir além:

🎾 Entrevistas e vídeos

Coletiva de imprensa de Serena Williams antes da estreia em Wimbledon 2026 - a entrevista que inspirou este artigo. É nela que Serena responde: "Quem sabe se algum dia voltarei aqui. Pode ser que esta seja a última vez."

Outra versão da coletiva de Serena Williams antes da estreia em Wimbledon 2026, com trechos sobre a decisão de voltar ao circuito e o diálogo interno que antecedeu esse retorno.

📈 Para aprofundar o entendimento de duration

“CFA Institute – Yield-Based Bond Duration Measures and Properties” - a melhor referência para compreender os diferentes conceitos de duration (Macaulay, Modified Duration, Money Duration e PVBP) e sua relação com o risco de taxa de juros.

“CFA Institute – Yield-Based Bond Convexity and Portfolio Properties” - excelente continuação para quem quiser entender por que duration é apenas uma aproximação e como a convexidade melhora a estimativa da sensibilidade dos títulos.

“CFA Institute – Curve-Based and Empirical Fixed-Income Risk Measures” - explica conceitos como Effective Duration e Effective Convexity, muito utilizados na gestão profissional de renda fixa.