TESTE Como um setor corporativo forte pode ter ajudado a evitar uma recessão nos EUA

The Weekly Globe: neste artigo, demonstramos a melhora estrutural na saúde financeira das empresas americanas, apontamos porque essa solidez pode ter evitado uma recessão nos EUA e como isso influencia as decisões de investimento

Por Alejandro Estevez-Breton, Chief Fixed Income Strategist

6 minutos de leitura
Grafismo + bandeira dos EUA

Até agora, cerca de dois terços das empresas americanas reportaram resultados positivos no último trimestre, com pouco mais de 80% superando as expectativas de receita. No entanto, uma tendência menos discutida é a melhora estrutural na saúde financeira do setor corporativo.

Neste artigo, demonstramos essa melhora, apontamos porque a solidez das empresas americanas pode ter evitado uma recessão nos EUA e como isso influencia as decisões de investimento.

Assim como em trimestres anteriores, os lucros corporativos continuam sendo um dos principais motores dos mercados de ações e de crédito durante a mais recente temporada de resultados (maio a agosto de 2025). Até agora, cerca de dois terços das empresas reportaram resultados positivos no último trimestre, com pouco mais de 80% superando as expectativas de receita. No entanto, uma tendência menos discutida – e provavelmente ainda mais importante – é a melhora estrutural na saúde financeira do setor corporativo dos EUA. Desde a década de 1990, os balanços corporativos têm se fortalecido de forma constante, com os níveis de caixa e lucros como proporção do PIB atingindo níveis próximos a recordes, entre 12% e 13%.

Essa força estrutural pode ajudar a explicar as avaliações persistentemente elevadas nos mercados de ações e de crédito. As empresas norte-americanas aumentaram significativamente sua capacidade de geração de fluxo de caixa nas últimas décadas, levando a uma queda nas necessidades líquidas de financiamento. Como resultado, a oferta efetiva de títulos corporativos – tanto ações quanto bonds – diminuiu, criando um prêmio de escassez nos mercados públicos. Essa escassez é particularmente evidente no S&P 500, onde recompras sustentadas de ações reduziram o free float (ações em livre circulação no mercado), e nos títulos high yield (HY), onde a emissão líquida permaneceu baixa ou negativa nos últimos anos.

Caixa e lucro das empresas dos EUA (como % do PIB)

Gráfico Caixa e lucro das empresas dos EUA (como % do PIB)
Fonte: Bloomberg e Itaú Private Bank

Além da dinâmica de mercado, a posição financeira robusta do setor corporativo também levou a implicações macroeconômicas importantes, como a redução da sensibilidade das empresas ao ciclo de aperto monetário do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA). O Fed altera sua taxa básica de juros como um mecanismo para cumprir seu duplo mandato de pleno emprego e estabilidade dos preços (o que significa, na prática, uma inflação próxima de 2%). Tradicionalmente, aumentos nas taxas de juros elevam o custo de capital em toda a economia, reduzindo o investimento e o consumo para conter a inflação. Esse mecanismo continua funcionando para as famílias (via cartões de crédito e outras linhas de crédito) e para o governo federal (via mercado de títulos do Tesouro dos EUA), ambos com aumento acentuado nas despesas com juros desde 2022 (de mínimos de 1,25% a 4,25% para até 2,5% e 13,5%, respectivamente). No entanto, o setor corporativo tem estado amplamente isolado desse mecanismo de transmissão, graças a níveis recordes de caixa e lucros.

De forma notável, as despesas corporativas com juros como proporção dos lucros antes dos impostos caíram desde 2021, atingindo uma mínima histórica de 4,1%, segundo os dados do Flow of Funds, do Fed. Embora existam diferenças entre empresas de diferentes portes e setores, a agregação de todas as empresas nos EUA mostra uma queda nas despesas com juros desde que o Fed começou a subir sua taxa básica em 2022.

Taxa de juros ajustada (%) e despesas com juros nos EUA (%)

Gráfico Taxa de juros ajustada (%) e despesas com juros nos EUA (%)
Fonte: Bloomberg e Itaú Private Bank

Essa resiliência financeira permitiu que as empresas absorvessem melhor choques macroeconômicos, como o surto inflacionário da Covid-19 (2021-2022), o pico nos preços do petróleo em 2022 após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o temor de recessão em 2023 e o choque tarifário de 2025 – tudo isso sem recorrer a demissões em massa. Historicamente, o aumento dos custos de financiamento diante de choques externos frequentemente levava as empresas a reduzir o quadro de funcionários, desencadeando um ciclo negativo de queda na confiança e na demanda dos consumidores, culminando em recessão.

Em contraste, o setor corporativo atual manteve os níveis de emprego apesar da maior incerteza. Isso fica evidente na divergência entre o índice Move (um proxy da volatilidade do mercado de títulos do Tesouro dos EUA e da incerteza macroeconômica) e a taxa semanal de desemprego (calculada com base nos pedidos de seguro-desemprego).

Ao contrário de ciclos anteriores, o recente aumento na volatilidade da política monetária e do mercado não se traduziu em maior desemprego – o que destaca o papel estabilizador dos balanços corporativos fortalecidos, especialmente devido ao rápido aumento dos níveis de caixa desde a pandemia de Covid.

Índice Move vs. Desemprego

Gráfico Índice Move vs. Desemprego
Fonte: Bloomberg e Itaú Private Bank

Na nossa visão, essa dinâmica pouco reconhecida – em que saldos de caixa elevados geram receita com juros que compensa o aumento dos custos da dívida – tem sido fundamental para evitar uma recessão. Isso também ajuda a explicar por que muitos analistas estavam excessivamente pessimistas quanto às perspectivas econômicas em 2023 e 2024, prevendo alta probabilidade de recessão. Na verdade, os mercados de ações e crédito também precificaram incorretamente um risco elevado de recessão no final de 2022 e início de 2023.

No geral, a saúde financeira extremamente sólida das empresas nos EUA tem implicações substanciais para os portfólios de investimento. Primeiro, modelos tradicionais de previsão macroeconômica podem precisar ser recalibrados para incorporar a saúde financeira corporativa como uma variável-chave na determinação da sensibilidade da economia ao ciclo de aperto do Fed e ao risco de recessão. Segundo, as avaliações de crédito e ações podem permanecer acima das médias históricas, já que refletem melhor geração de caixa e escassez relativa na oferta de títulos corporativos. Terceiro, a relação entre o risco soberano dos EUA e o risco corporativo dos EUA pode ter mudado, já que os spreads de crédito (diferença entre os rendimentos de títulos corporativos e do Tesouro com vencimento similar) podem ter caído estruturalmente, dado o forte contraste entre a situação financeira historicamente sólida das empresas e os déficits orçamentários elevados e a dinâmica insustentável da dívida pública. Quarto, os investidores podem querer focar em empresas com balanços sólidos e geração consistente de caixa em períodos de incerteza macroeconômica e política como uma estratégia defensiva eficaz e confiável.

Principais conclusões

  • As empresas norte-americanas aumentaram significativamente sua capacidade de geração de fluxo de caixa nas últimas décadas, levando a uma queda nas necessidades líquidas de financiamento. Como resultado, a oferta efetiva de títulos corporativos diminuiu, criando um prêmio de escassez nos mercados públicos.
  • A posição financeira robusta do setor corporativo também levou a implicações macroeconômicas importantes, como a redução da sensibilidade das empresas ao ciclo de aperto monetário do Fed. Enquanto famílias e o governo federal continuam sendo influenciados pela alta dos juros, o setor corporativo tem estado amplamente isolado desse mecanismo de transmissão, graças a níveis recordes de caixa e lucros.
  • Essa dinâmica pouco reconhecida – em que saldos de caixa elevados geram receita com juros que compensa o aumento dos custos da dívida – tem sido fundamental para evitar uma recessão e também ajuda a explicar por que muitos analistas estavam excessivamente pessimistas quanto às perspectivas econômicas em 2023 e 2024, prevendo alta probabilidade de recessão.
  • No geral, a saúde financeira extremamente sólida das empresas nos EUA tem implicações substanciais para os portfólios de investimento. Primeiro, modelos tradicionais de previsão macroeconômica podem precisar ser recalibrados. Segundo, as avaliações de crédito e ações podem permanecer acima das médias históricas. Terceiro, a relação entre o risco soberano dos EUA e o risco corporativo dos EUA pode ter mudado. Quarto, os investidores podem querer focar em empresas com balanços sólidos e geração consistente de caixa em períodos de incerteza macroeconômica e política como uma estratégia defensiva eficaz e confiável.

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