O ano em que a rastreabilidade na agricultura disparou

Por Itaú BBA

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Ainda não se sabe como as exportações brasileiras vão reagir à Regulação da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR), que começa a valer em 30 de dezembro de 2026 para as empresas de maior porte. Mas a novidade já teve uma boa consequência: acelerou a implementação de sistemas de rastreabilidade, que mostram a um cliente ou fiscal a origem exata de um produto.

Sistemas assim são necessários porque, a partir do final de 2026, empresas que colocam um grupo específico de produtos no mercado europeu têm de comprovar que não há desmatamento associado a eles. Compõem a lista borracha natural, cacau, café, gado, madeira, óleo de palma e soja, além de produtos relacionados, como carne, chocolate e móveis.

A rastreabilidade pode até entrar em cena por causa da EUDR, mas seus efeitos benéficos para os negócios se mostram bem abrangentes – e já preparam a cadeia para exigências que tendem a crescer em outros mercados, como China e Reino Unido. Por isso, cadeias como cacau, madeira e carne vêm avançando em rastreabilidade – e o café é um dos exemplos mais claros desse movimento.

A NKG Stockler, uma das maiores exportadoras de café do Brasil, vem acelerando seu programa NKG Verified, que oferece cafés rastreáveis e provenientes de cadeias que atendem a critérios econômicos, sociais e ambientais. O número de propriedades participantes cresceu de 13 mil em 2022 para mais de 53 mil atualmente. Um marco importante para o programa foi o reconhecimento, pela Global Coffee Platform, de sua equivalência ao Coffee Sustainability Reference Code, referência internacional no setor. A cada embarque, os clientes recebem um relatório com os resultados dos indicadores avaliados.

A estratégia ganhou reforço em agosto, com uma nova operação ESG de US$ 26 milhões com o Itaú BBA, estruturada por meio de um Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC), com recursos direcionados à comercialização e à exportação de café produzido a partir de práticas agrícolas sustentáveis. Para Mario Ferreira, CFO da NKG Stockler, "iniciativas como esta mostram como o setor financeiro e o agronegócio podem, juntos, impulsionar práticas mais sustentáveis e competitivas para o café brasileiro e também a importância dos cafés originados em nosso programa NKG Verified poder fazer parte desse modelo de sucesso". Segundo a empresa, o grau de detalhamento gerado pelo sistema permite ainda o desenvolvimento de novos projetos com parceiros, como produtores e torrefadores.

O café tem grande relevância nessa conversa por pelo menos dois motivos. O Brasil tem influência nas discussões técnicas internacionais, já que o país responde sozinho por cerca de 30% da exportação global (e o volume vendido ao exterior cresceu 21% este ano até agosto, segundo o Cecafé, Conselho dos Exportadores de Café do Brasil). Além disso, trata-se de uma cultura permanente e nativa de ambientes arborizados, que convive bem com áreas florestais, projetos de regeneração e negócios sustentáveis variados. Vários sistemas de rastreabilidade e certificação nesse mercado nasceram ou cresceram nos últimos tempos:

  • Parque Cafeeiro - a Conab e a UFMG lançaram o sistema este ano, a fim de comprovar a origem livre de desmatamento já de acordo com as demandas da EUDR. O mapeamento inicial das lavouras terminou em 2025 e a conexão às bases de dados governamentais gera atualizações frequentes. “Mais do que atender à diligência devida da EUDR, trata-se de um instrumento de gestão territorial para todo o setor cafeeiro”, afirmou a pesquisadora Sônia Maria Carvalho Ribeiro, do Departamento de Cartografia da UFMG.
  • Norma de Agricultura Regenerativa (NAR) da Rainforest Alliance - a marca de café italiana Lavazza lançou este ano o primeiro produto proveniente de fazendas pioneiras globais na adoção do sistema, de Minas Gerais e São Paulo. A NAR, apresentada em 2025, propõe-se a ajudar os produtores a elevar sua resiliência climática – e a Rainforest Alliance planeja expandi-la para outras culturas, incluindo cítricos e cacau. A ONG concluiu em setembro uma grande atualização em sua plataforma de rastreabilidade, a Multitrace.
  • Certification for Climate, Conservation and Communities (4C) - sistema nascido na Alemanha para certificação de café e cacau, coordenado pelos próprios participantes. Conecta agricultores de 19 origens a mercados que demandam produtos sustentáveis e os auxilia a cumprir regulamentações internacionais. Tem duas entidades certificadoras no Brasil.
  • Cafés do Brasil - a plataforma de monitoramento socioambiental foi lançada em 2023 por Cecafé e Serasa Experian (empresa especializada em análise de dados para crédito, detecção de fraude e autenticação). Ganhou em 2025 uma nova ferramenta desenvolvida especificamente para adequação à EUDR.

O desenvolvimento de sistemas de certificação e rastreabilidade também é estratégico para o país no caso da soja. Trata-se do principal produto agrícola da pauta de exportação e do segundo item mais exportado pelo país, atrás apenas do petróleo – e as vendas ao exterior entre janeiro e agosto bateram recorde em volume. É também a cultura com maior área plantada no país, com impacto correspondente no meio ambiente e nos negócios.

A adequação à EUDR, nesse setor, também gera outros frutos. “Mais do que atender a padrões externos, essas práticas [rastreabilidade e fortalecimento de critérios socioambientais] ampliam previsibilidade, reforçam a credibilidade da companhia e sustentam sua posição competitiva no longo prazo", afirmou em relatório Gustavo Loyola, presidente do conselho de administração da Caramuru Alimentos, processadora de soja, milho e girassol.

A empresa tem um sistema próprio de certificação e rastreabilidade, o Programa Sustentar. Criado em 2015, ele combina orientação técnica, verificações de campo, monitoramento geoespacial e rastreabilidade para apoiar a evolução dos fornecedores, dar visibilidade à origem da matéria-prima e responder com transparência às demandas de clientes, parceiros financeiros e mercados nacionais e internacionais. O programa evoluiu de 55 indicadores em 2019 para 181 em 2026, todos acompanhados com rastreabilidade, e já foi reconhecido pela European Feed Manufacturers' Federation (FEFAC), pelo International Trade Centre (ITC) e, em maio deste ano, pelo Aquaculture Stewardship Council (ASC). Mais de 1200 produtores são auditados anualmente (em 2025, foram aprovados 928), que também funcionam como momentos de orientação técnica, sem custo para o produtor. “Queremos estar preparados para as exigências dos mercados nacionais e internacionais, gerando crescimento que também beneficie os produtores e as comunidades onde estamos inseridos”, afirma André Luiz Silva Soares, Gerente da Agricultura Familiar e Sustentar da Caramuru.

Entre as principais iniciativas em andamento no mercado da soja, destacam-se:

  • ISCC EU / ISCC Plus - a Certificação Internacional de Sustentabilidade e Carbono, baseada na Alemanha, cobre temas socioambientais variados, incluindo desmatamento, na produção de soja, milho, cana e outros bioprodutos, já sob medida para atender à EUDR. Em 2026, atualizou seus procedimentos de auditoria e seleção de certificadores. A ISCC tem mais de 300 integrantes, incluindo as brasileiras Acelen, J. Pacta, Petrobras e TPS Commodities.
  • ProTerra - a certificação, baseada nos Países Baixos, foi criada para incentivar a produção sustentável de grãos e a segregação de transgênicos. O sistema ganhou atualização em agosto e tem alta aderência à EUDR. Entre suas prioridades, está o suprimento de soja não transgênica e não associada a desmatamento do Brasil para a Europa. No Brasil, há pelo menos nove unidades processadoras e 600 produtores certificados.
  • RTRS (Round Table on Responsible Soy Association) - ONG com base na Suíça dedicada a promover a produção responsável de soja e milho. No início de outubro, tinha no Brasil cinco certificadoras e 61 produtores de soja certificados. A certificação indica que não há desmatamento envolvido na produção e atende às demandas da EUDR.

É importante lembrar que as certificações ajudam a reunir evidências e reduzir riscos, mas não substituem a diligência devida por cada empresa. O monitoramento do agronegócio no Brasil ainda precisa avançar para manter as exportações e afastar a ameaça do desmatamento. Há muito a fazer em frentes como padronização e comparabilidade. Mas a evolução da rastreabilidade nos últimos meses já oferece um bom exemplo de mudança que faz bem para os negócios e, ao mesmo tempo, beneficia toda a sociedade.