Carta Mensal de Investimentos de outubro
Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos do Itaú, resume a análise do cenário e as alocações do Comitê de Investimentos de outubro
Por Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos
A mesma história, em um novo capítulo.
Na edição anterior desta carta, argumentamos que governos e empresas estavam disputando um recurso escasso: capital. De um lado, o aumento das necessidades de financiamento do governo americano. De outro, o avanço do maior ciclo de investimentos em infraestrutura de inteligência artificial da história recente. Diante disso, nossa conclusão era simples: quando a demanda por capital permanece elevada, seu preço tende a subir.
Setembro foi, em grande medida, a continuação dessa história.
Se em agosto a pressão se concentrou principalmente nos títulos mais longos do Tesouro americano, em setembro ela começou a se espalhar para vencimentos mais curtos. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) voltou a elevar sua taxa de juros e o mercado passou a incorporar novas altas para os próximos meses. Em conjunto, os movimentos reforçaram a percepção de que as condições financeiras podem permanecer restritivas por mais tempo do que se imaginava há alguns meses.
Os vetores estruturais por trás dessa dinâmica permanecem essencialmente os mesmos. O quadro fiscal americano continua pressionando as necessidades de financiamento do governo. O conflito envolvendo o Irã segue representando um choque inflacionário relevante para a economia global. E o ciclo de investimentos em inteligência artificial continua exigindo volumes extraordinários de capital para financiar data centers, semicondutores, infraestrutura elétrica e energia, ao mesmo tempo em que sustenta a atividade e contribui para pressões inflacionárias persistentes.
Os dois últimos fatores empurram a inflação na mesma direção, ainda que seus efeitos sobre a atividade sejam distintos. O resultado é um ambiente em que a inflação permanece pressionada, enquanto os juros precisam acomodar tanto as necessidades de financiamento do setor público quanto as do setor privado.
Diante disso, seguimos monitorando especialmente dois temas que poderiam alterar essa narrativa.
O primeiro é a evolução do conflito no Oriente Médio. Em setembro, os EUA intensificaram a pressão econômica sobre o Irã, movimento que pode ser interpretado tanto como um sinal de prolongamento das tensões quanto como uma tentativa de aumentar o poder de negociação americano.
O segundo é o ciclo de investimentos em IA. O manifesto recente de Dario Amodei reacendeu o debate sobre uma eventual desaceleração no desenvolvimento dos modelos mais avançados, mas, como escrevemos em edição recente do The Weekly Globe, continuamos avaliando que os incentivos econômicos, competitivos e geopolíticos seguem apontando para a continuidade desse ciclo.
Por enquanto, nenhum dos dois parece suficiente para alterar nossa visão central. A disputa por capital continua intensa e seguimos trabalhando com um cenário em que os juros globais permanecem elevados por mais tempo.
No campo da alocação, a principal mudança deste mês ocorreu no exterior, onde voltamos a recomendar uma posição overweight em ações globais. Como detalhamos no último Visão de Investimentos que enviamos para nossos clientes Private, os dados mais recentes passaram a apontar uma aceleração mais disseminada da atividade econômica global, enquanto as estimativas de lucros continuaram avançando e os valuations se tornaram mais atrativos. Apesar dos juros elevados e das incertezas discutidas neste editorial, entendemos que o balanço entre riscos e oportunidades voltou a favorecer a renda variável global. Por isso, elevamos nossa recomendação tática de neutro para overweight em ações americanas.
No restante das carteiras, optamos por manter uma postura mais cautelosa. No Brasil, seguimos neutros em ações, renda fixa e câmbio, entendendo que valuations atrativos continuam sendo contrabalançados por desafios fiscais, expectativas de inflação ainda elevadas e um ambiente global mais desafiador para os ativos domésticos. No exterior, também mantivemos posição neutra em juros globais e crédito, uma vez que, apesar dos rendimentos absolutos elevados, os riscos associados à inflação, à trajetória dos juros e às tensões geopolíticas seguem recomendando seletividade.
Para acessar o relatório completo, com a íntegra das nossas recomendações, fale com sua equipe de atendimento.