Embalagem plástica com visão estratégica e circular
Por Itaú BBA
Quem acompanha as tendências não foi pego de surpresa pelo “Decreto do Plástico”. Nossa newsletter ESG em Movimento já tratou da circularidade em geral e em cadeias específicas, como a dos metais. O Brasil conta com uma Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRSAs metas de conteúdo reciclado estabelecidas pela nova legislaçãoEssa visão também pode oxigenar a estratégia e as práticas de uma empresa. "A adaptação ao novo cenário regulatório é mais do que uma obrigação legal: é parte da construção de uma indústria brasileira mais competitiva, rastreável e preparada para a transição para uma economia de baixo carbono", nas palavras de Aline Tiemi Sugano-Segura, engenheira de materiais e especialista em economia circular na eureciclo – “plástico” é um nome genérico para sete categorias de produtos, com características, aplicações e exigências de desempenho muito diferentes entre si. O PET (usado, por exemplo, nas garrafas plásticas de refrigerante) tem uma cadeia circular bem mais avançada que os demais, com índice de recuperação de 53% no Brasil em 2024. Esse índice não chega a 10% para outros materiais, como PS (poliestireno, base do isopor), PEBD (polietileno de baixa densidade, usado em sacos plásticos) e PVC (policloreto de vinila, usado em tubos hidráulicos);
- coleta – com o crescimento da demanda, cooperativas e empresas podem atuar na recuperação de embalagens de forma mais focada, por material, setor ou coletivo de companhias. É preciso desenvolver a cadeia e os fornecedores — incluindo catadores — com foco em profissionalização, capacitação e responsabilidade social;
- gestão da logística reversa – o sistema é incipiente diante do potencial do mercado no Brasil (menos de 9% dos resíduos sólidos urbanos no país são reciclados). O país precisa de processos e ferramentas tecnológicas que ampliem a escala e a eficiência desse sistema. O trabalho precisa avançar a partir de recursos já à disposição, como o Recircula Brasil (plataforma de rastreamento de resíduos plásticos para uso de conteúdo reciclado em novos produtos) e o Sinir (Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos);
- novos materiais – papel e outros biomateriais podem substituir o plástico, assim como bioplástico pode tomar o lugar do material feito a partir de petróleo, quando a troca for pertinente;
- design – embalagens precisam incorporar mais reciclados e podem ser planejadas de forma a usar outro material, menos material ou um só material (em vez de vários), sempre com a finalidade de facilitar o transporte, a recuperação, o reuso e a reciclagem. Alguns produtos admitem o uso de refis;
- serviços associados – cada uma dessas mudanças exige análise, testes em laboratório e em campo, pesquisa com consumidores, consultoria, treinamento e educação ambiental para diferentes atores ao longo da cadeia;
- novo fluxo de capital — a economia circular será um dos temas centrais da COP31 (em Antália, na Turquia), o que deve direcionar parte do financiamento climático para a circularidade. Há vantagens para quem se antecipar.
Há desafios similares no mundo todo e potenciais soluções vêm sendo mapeadas por iniciativas como a Sustainable Packaging Coalition (SPC), que reúne mais de 550 integrantes, incluindo companhias globais como Coca-Cola e Unilever. Mais de 300 organizações compõem também a Coalizão Empresarial por um Tratado Global sobre Plásticos (Business Coalition for a Global Plastics Treaty), que reúne empresas, instituições financeiras e ONGs em apoio a um acordo vinculante na ONU para o fim da poluição plástica – companhias atuantes no Brasil, como Danone, Kimberly-Clark e Kraft-Heinz apoiam desse esforço. O mercado inteiro vêm testando, aprendendo e colocando em prática opções para lidar com essa situação.
“As empresas têm de percorrer uma rota crítica, que envolve compliance, acesso ao plástico reciclado de alta qualidade e eficiência produtiva, para usar menos plástico”, afirma Lilian Aliprandini, CEO da consultoria Acceta, especializada em inovação e incentivos fiscais. “Isso exige muita atividade de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Aliás, para atender às novas exigências, as empresas podem buscar os benefícios fiscais da Lei do Bem (de incentivo à inovação)”.
Vai ser necessária, também, muita colaboração entre organizações, com novas parcerias e arranjos. Num caso exemplar, a Nestlé lançou em 2024 um de seus chocolates mais famosos em embalagem 100% reciclada e reciclável. Por isso, recebeu em 2025 o Prêmio ABRE de Embalagem, na categoria “Estratégica – Sustentabilidade”. Esse passo exigiu trabalho bem mais intenso e próximo com o estúdio de design CBA B+G, a fabricante de embalagens Conver (que dividiu o prêmio com a cliente) e fornecedores locais da resina adequada – além da gestão junto à Anvisa para garantir a aprovação do material reciclado em contato direto com alimento.