Embalagem plástica com visão estratégica e circular

Por Itaú BBA

05 minutos de leitura

Quem acompanha as tendências não foi pego de surpresa pelo “Decreto do Plástico”. Nossa newsletter ESG em Movimento já tratou da circularidade em geral e em cadeias específicas, como a dos metais. O Brasil conta com uma Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRSAs metas de conteúdo reciclado estabelecidas pela nova legislaçãoEssa visão também pode oxigenar a estratégia e as práticas de uma empresa. "A adaptação ao novo cenário regulatório é mais do que uma obrigação legal: é parte da construção de uma indústria brasileira mais competitiva, rastreável e preparada para a transição para uma economia de baixo carbono", nas palavras de Aline Tiemi Sugano-Segura, engenheira de materiais e especialista em economia circular na eureciclo – “plástico” é um nome genérico para sete categorias de produtos, com características, aplicações e exigências de desempenho muito diferentes entre si. O PET (usado, por exemplo, nas garrafas plásticas de refrigerante) tem uma cadeia circular bem mais avançada que os demais, com índice de recuperação de 53% no Brasil em 2024. Esse índice não chega a 10% para outros materiais, como PS (poliestireno, base do isopor), PEBD (polietileno de baixa densidade, usado em sacos plásticos) e PVC (policloreto de vinila, usado em tubos hidráulicos);

  • coleta – com o crescimento da demanda, cooperativas e empresas podem atuar na recuperação de embalagens de forma mais focada, por material, setor ou coletivo de companhias. É preciso desenvolver a cadeia e os fornecedores — incluindo catadores — com foco em profissionalização, capacitação e responsabilidade social;

  • gestão da logística reversa – o sistema é incipiente diante do potencial do mercado no Brasil (menos de 9% dos resíduos sólidos urbanos no país são reciclados). O país precisa de processos e ferramentas tecnológicas que ampliem a escala e a eficiência desse sistema. O trabalho precisa avançar a partir de recursos já à disposição, como o Recircula Brasil (plataforma de rastreamento de resíduos plásticos para uso de conteúdo reciclado em novos produtos) e o Sinir (Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos);

  • novos materiais – papel e outros biomateriais podem substituir o plástico, assim como bioplástico pode tomar o lugar do material feito a partir de petróleo, quando a troca for pertinente;

  • design – embalagens precisam incorporar mais reciclados e podem ser planejadas de forma a usar outro material, menos material ou um só material (em vez de vários), sempre com a finalidade de facilitar o transporte, a recuperação, o reuso e a reciclagem. Alguns produtos admitem o uso de refis;

  • serviços associados – cada uma dessas mudanças exige análise, testes em laboratório e em campo, pesquisa com consumidores, consultoria, treinamento e educação ambiental para diferentes atores ao longo da cadeia;
  • novo fluxo de capital — a economia circular será um dos temas centrais da COP31 (em Antália, na Turquia), o que deve direcionar parte do financiamento climático para a circularidade. Há vantagens para quem se antecipar.

Há desafios similares no mundo todo e potenciais soluções vêm sendo mapeadas por iniciativas como a Sustainable Packaging Coalition (SPC), que reúne mais de 550 integrantes, incluindo companhias globais como Coca-Cola e Unilever. Mais de 300 organizações compõem também a Coalizão Empresarial por um Tratado Global sobre Plásticos (Business Coalition for a Global Plastics Treaty), que reúne empresas, instituições financeiras e ONGs em apoio a um acordo vinculante na ONU para o fim da poluição plástica – companhias atuantes no Brasil, como Danone, Kimberly-Clark e Kraft-Heinz apoiam desse esforço. O mercado inteiro vêm testando, aprendendo e colocando em prática opções para lidar com essa situação.

“As empresas têm de percorrer uma rota crítica, que envolve compliance, acesso ao plástico reciclado de alta qualidade e eficiência produtiva, para usar menos plástico”, afirma Lilian Aliprandini, CEO da consultoria Acceta, especializada em inovação e incentivos fiscais. “Isso exige muita atividade de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Aliás, para atender às novas exigências, as empresas podem buscar os benefícios fiscais da Lei do Bem (de incentivo à inovação)”.

Vai ser necessária, também, muita colaboração entre organizações, com novas parcerias e arranjos. Num caso exemplar, a Nestlé lançou em 2024 um de seus chocolates mais famosos em embalagem 100% reciclada e reciclável. Por isso, recebeu em 2025 o Prêmio ABRE de Embalagem, na categoria “Estratégica – Sustentabilidade”. Esse passo exigiu trabalho bem mais intenso e próximo com o estúdio de design CBA B+G, a fabricante de embalagens Conver (que dividiu o prêmio com a cliente) e fornecedores locais da resina adequada – além da gestão junto à Anvisa para garantir a aprovação do material reciclado em contato direto com alimento.