Embalagem plástica com visão estratégica e circular
Por Itaú BBA
Empresas de todos os setores e tamanhos precisam ficar atentas às determinações do “Decreto do Plástico”, valendo desde outubro de 2025. As obrigações, para reduzir o descarte inadequado de embalagens plásticas e aumentar o índice de reciclagem, afetam diretamente fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes desses produtos. Mas o efeito é transversal. Mesmo aqueles negócios que apenas consomem embalagens plásticas (existe algum que não consuma?) podem aproveitar a mudança para rever práticas, mostrar ao mercado uma visão mais avançada da sustentabilidade e melhorar seus indicadores de desempenho.
Isso porque economia circular saiu do discurso e entrou na conta de resultado. Em um painel de discussão organizado em junho pelo Itaú BBA, com Boticário, Cirklo e Electrolux, os participantes mostraram como redesign de produtos, conteúdo reciclado e logística reversa reduzem custos, mitigam risco de matéria-prima e abrem acesso a financiamento mais barato. Com regulação avançando e novos fluxos de capital a caminho — inclusive como tema central da COP31 —, a circularidade é hoje uma oportunidade concreta de negócio para empresas de todos os setores.
Quem acompanha as tendências não foi pego de surpresa pelo “Decreto do Plástico”. Nossa newsletter ESG em Movimento já tratou da circularidade em geral e em cadeias específicas, como a dos metais. O Brasil conta com uma Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que prevê há mais de uma década a criação de um sistema de logística reversa para ampliar a reciclagem no país.
As metas de conteúdo reciclado estabelecidas pela nova legislação se aplicam desde janeiro para os negócios de grande porte e começam a valer em julho para os pequenos e médios. Em resumo, determina o seguinte:
- Meta de conteúdo reciclado: As embalagens devem conter pelo menos 22% de material reciclado (resina pós-consumo, ou PCR) já em 2026. A meta é chegar a 40% até 2040. Essas metas não se aplicam às embalagens com regulamentação própria, como as de alimentos e medicamentos;
- Meta de recuperação: Passa a valer uma meta de recuperação de embalagens de plástico (em peso) para cada região do país. No total, a meta nacional parte de 32% em 2026 e chega a 50% em 2040. Entre as regiões, esse índice avança de 2,15% para 3,36% na região Norte, com a meta mais baixa do país; e de 15,63% para 24,42% na região Sudeste, com a meta mais alta.
- Para cumprir essas metas, as empresas podem escolher entre o modelo individual, em que cada uma organiza seu próprio sistema, ou o coletivo, em que cooperam com outras organizações, sob coordenação de uma entidade gestora habilitada pelo Ministério do Meio Ambiente;
- Fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes (individualmente ou por meio de sistema coletivo) deverão apresentar relatório anual de resultados de 2027 em diante. A lei determina que esses atores compartilham a responsabilidade pelo destino correto das embalagens plásticas;
- Até 2030, deve haver pelo menos um ponto de entrega voluntária em cada município com até dez mil habitantes; e pelo menos um ponto para cada dez mil habitantes nos municípios mais populosos.
Enxergar a mudança apenas como um conjunto de obrigações é desperdiçar oportunidades. A principal força a considerar no momento é a evolução da velha lógica econômica linear (extrair, produzir, consumir e descartar) para uma circular, capaz de produzir o mesmo (ou mais) com menor uso de recursos e gerar valor a partir do que antes era tratado só como resíduo e custo.
Essa visão também pode oxigenar a estratégia e as práticas de uma empresa. "A adaptação ao novo cenário regulatório é mais do que uma obrigação legal: é parte da construção de uma indústria brasileira mais competitiva, rastreável e preparada para a transição para uma economia de baixo carbono", nas palavras de Aline Tiemi Sugano-Segura, engenheira de materiais e especialista em economia circular na eureciclo.
A circularidade permite revisão abrangente das operações da empresa porque vai muito além da gestão de resíduos. Inclui redesign de processos, busca de maior eficiência no uso de recursos e ganho de resiliência da cadeia de valor (ao reduzir a dependência de insumos novos, o que torna a operação menos exposta a choques externos). Há muito a fazer, em diferentes etapas da cadeia das embalagens de plástico:
- colaboração intra e intersetorial — a transição para a economia sustentável funciona melhor como pauta coletiva, não individual. Concorrentes podem ser parceiros nas pautas ambientais e no advocacy junto aos governos;
- inovação tecnológica na recuperação e reciclagem – “plástico” é um nome genérico para sete categorias de produtos, com características, aplicações e exigências de desempenho muito diferentes entre si. O PET (usado, por exemplo, nas garrafas plásticas de refrigerante) tem uma cadeia circular bem mais avançada que os demais, com índice de recuperação de 53% no Brasil em 2024. Esse índice não chega a 10% para outros materiais, como PS (poliestireno, base do isopor), PEBD (polietileno de baixa densidade, usado em sacos plásticos) e PVC (policloreto de vinila, usado em tubos hidráulicos);
- coleta – com o crescimento da demanda, cooperativas e empresas podem atuar na recuperação de embalagens de forma mais focada, por material, setor ou coletivo de companhias. É preciso desenvolver a cadeia e os fornecedores — incluindo catadores — com foco em profissionalização, capacitação e responsabilidade social;
- gestão da logística reversa – o sistema é incipiente diante do potencial do mercado no Brasil (menos de 9% dos resíduos sólidos urbanos no país são reciclados). O país precisa de processos e ferramentas tecnológicas que ampliem a escala e a eficiência desse sistema. O trabalho precisa avançar a partir de recursos já à disposição, como o Recircula Brasil (plataforma de rastreamento de resíduos plásticos para uso de conteúdo reciclado em novos produtos) e o Sinir (Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos);
- novos materiais – papel e outros biomateriais podem substituir o plástico, assim como bioplástico pode tomar o lugar do material feito a partir de petróleo, quando a troca for pertinente;
- design – embalagens precisam incorporar mais reciclados e podem ser planejadas de forma a usar outro material, menos material ou um só material (em vez de vários), sempre com a finalidade de facilitar o transporte, a recuperação, o reuso e a reciclagem. Alguns produtos admitem o uso de refis;
- serviços associados – cada uma dessas mudanças exige análise, testes em laboratório e em campo, pesquisa com consumidores, consultoria, treinamento e educação ambiental para diferentes atores ao longo da cadeia;
- novo fluxo de capital — a economia circular será um dos temas centrais da COP31 (em Antália, na Turquia), o que deve direcionar parte do financiamento climático para a circularidade. Há vantagens para quem se antecipar.
Há desafios similares no mundo todo e potenciais soluçõesvêm sendo mapeadas por iniciativas como a Sustainable Packaging Coalition (SPC), que reúne mais de 550 integrantes, incluindo companhias globais como Coca-Cola e Unilever. Mais de 300 organizações compõem também a Coalizão Empresarial por um Tratado Global sobre Plásticos (Business Coalition for a Global Plastics Treaty), que reúne empresas, instituições financeiras e ONGs em apoio a um acordo vinculante na ONU para o fim da poluição plástica – companhias atuantes no Brasil, como Danone, Kimberly-Clark e Kraft-Heinz apoiam desse esforço. O mercado inteiro vêm testando, aprendendo e colocando em prática opções para lidar com essa situação.
“As empresas têm de percorrer uma rota crítica, que envolve compliance, acesso ao plástico reciclado de alta qualidade e eficiência produtiva, para usar menos plástico”, afirma Lilian Aliprandini, CEO da consultoria Acceta, especializada em inovação e incentivos fiscais. “Isso exige muita atividade de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Aliás, para atender às novas exigências, as empresas podem buscar os benefícios fiscais da Lei do Bem (de incentivo à inovação)”.
Vai ser necessária, também, muita colaboração entre organizações, com novas parcerias e arranjos. Num caso exemplar, a Nestlé lançou em 2024 um de seus chocolates mais famosos em embalagem 100% reciclada e reciclável. Por isso, recebeu em 2025 o Prêmio ABRE de Embalagem, na categoria “Estratégica – Sustentabilidade”. Esse passo exigiu trabalho bem mais intenso e próximo com o estúdio de design CBA B+G, a fabricante de embalagens Conver (que dividiu o prêmio com a cliente) e fornecedores locais da resina adequada – além da gestão junto à Anvisa para garantir a aprovação do material reciclado em contato direto com alimento.