Carta Mensal de Investimentos de julho

Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos do Itaú, resume a análise do cenário e as alocações do Comitê de Investimentos de julho

Por Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos

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Junho trouxe um paradoxo importante para o investidor brasileiro: o petróleo caiu, mas o espaço esperado para cortes de juros também. Em tese, uma queda relevante no preço do barril deveria aliviar a inflação, melhorar o balanço de riscos e abrir mais espaço para a Selic ser cortada. Na prática, aconteceu o contrário. O mercado terminou o mês revisando de novo para cima a taxa de juros esperada para os próximos anos. E essa talvez tenha sido a principal mensagem macroeconômica do período.

A melhor forma de enxergar esse movimento é pelo Relatório Focus, pesquisa semanal do Banco Central que consolida as expectativas de bancos, gestoras, consultorias e outras instituições para as principais variáveis macroeconômicas do Brasil. O Focus não é uma previsão oficial, mas é a fotografia mais acompanhada do consenso de mercado e, por isso, uma boa régua para entender como as expectativas estão mudando.

No último Focus divulgado em junho, a mediana das projeções apontava Selic de 14,00% a.a. ao fim de 2026, 12,00% ao fim de 2027 e 10,50% ao fim de 2028. Um mês antes, essas projeções estavam em 13,25%, 11,25% e 10,00%. No fim de 2025, estavam em 12,25%, 10,50% e 9,75%. Ou seja, junho não marcou apenas uma revisão pontual: marcou a segunda rodada de frustração neste ano com o “orçamento de cortes” deste ciclo.

O mais curioso é que essa piora aconteceu em um mês de alívio relevante no petróleo. O Brent saiu de pouco acima de US$ 90 por barril no fim de maio para pouco acima de US$ 70 no fim de junho, próximo dos níveis observados antes da escalada mais recente do conflito no Oriente Médio. Portanto, embora o conflito continue sendo uma fonte de incerteza, a revisão para cima da Selic terminal não parece ser uma história sobre o petróleo apenas – nem principalmente.

Parte da explicação, é verdade, vem de fora. A última reunião do Fomc (o Comitê Federal de Mercado Aberto do Federal Reserve, o banco central dos EUA), a primeira sob o comando de Kevin Warsh, mostrou uma mudança importante de tom: o debate passou de “talvez mais um corte” para “talvez mais uma alta”. Além disso, o Banco Central Europeu e o Banco do Japão elevaram suas taxas básicas. E quando os juros ficam mais altos no mundo, o diferencial oferecido pelo Brasil fica menos atrativo para uma mesma Selic. Isso pode pressionar o câmbio e, por consequência, reduzir o espaço para cortes domésticos.

Mas a parte mais importante da explicação está dentro de casa. A atividade econômica brasileira segue resiliente e a inflação permanece pressionada. No Relatório de Política Monetária de junho, o próprio Banco Central revisou sua projeção de crescimento do PIB de 2026 de 1,6% para 2,0% – e apontou que essa melhora estava “em grande parte associada a estímulos de natureza fiscal e creditícia”.

Essa frase é importante porque retira a discussão do campo da opinião e a coloca no diagnóstico da própria autoridade monetária. O Banco Central está tentando desacelerar a economia para trazer a inflação de volta à meta. Ao mesmo tempo, políticas fiscais e creditícias seguem sustentando a demanda agregada. É o clássico caso de um pé no freio e outro no acelerador.

Esse diagnóstico explica por que mantivemos inalteradas nossas posições táticas no Brasil. Em renda fixa local, seguimos neutros tanto em prefixados quanto em juros reais. Apesar da alta recente das taxas, o ambiente ainda combina inflação pressionada, expectativas deterioradas, estímulos fiscais e creditícios e um Banco Central com pouco espaço para uma atuação mais benigna no curto prazo. Em outras palavras, as taxas já carregam parte importante da piora, mas o cenário ainda não oferece conforto suficiente para aumentarmos a exposição.

Em bolsa brasileira, também mantivemos a posição neutra. A atividade mais forte ajuda os lucros, mas também reduz o espaço para queda da Selic. Além disso, as revisões de resultados seguem concentradas em poucos setores, bastante dependentes de commodities, enquanto a proximidade do ciclo eleitoral tende a elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores.

No exterior, a lógica também foi de preservação das posições. Seguimos abaixo do neutro em juros globais, especialmente em Treasuries mais longas, porque a combinação de atividade resiliente, inflação ainda pressionada e bancos centrais mais cautelosos limita o espaço para queda relevante das taxas.

Ao mesmo tempo, mantivemos a posição acima do neutro em ações globais, concentrada na bolsa americana, onde a valorização recente continua sustentada por crescimento de lucros, revisões positivas de resultados e pelo ciclo estrutural de investimentos em inteligência artificial. E, em crédito global, preservamos a neutralidade, uma vez que os fundamentos corporativos seguem saudáveis, mas os spreads apertados reduzem a atratividade relativa da classe.

Assim, a mensagem do mês não foi de uma grande mudança de direção, mas de seletividade: continuar exposto aos ativos com suporte mais claro de lucros e tecnologia, sem aumentar o risco em classes ainda muito dependentes de uma queda rápida dos juros.

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