Dados de inflação e projeções trazem surpresas no Brasil e nos EUA

No Radar do Mercado: no Brasil, IPCA-15 de junho veio abaixo do esperado, enquanto RPM mostrou projeção surpreendente para o horizonte relevante. Nos EUA, revisão do PIB e PCE de maio mantém Fed sobre pressão e cautela

Por Carolina Sato e Victor Camacho

6 minutos de leitura

IPCA-15 de junho vem abaixo das expectativas e com composição melhor na margem

O IBGE divulgou na manhã desta quinta-feira (25) que o IPCA-15 de junho avançou 0,41%, desacelerando frente aos 0,62% de maio e vindo abaixo do esperado pelo mercado (0,44%). No acumulado em 12 meses, a alta passou de 4,64% para 4,80%.

Gráfico de barras mostrando o IPCA-15 de junho de 2026
Fonte: IBGE e Itaú Private Bank

Na composição, o grupo de “Alimentação e bebidas” avançou 0,74% e respondeu pela maior contribuição no resultado do mês, seguido de “Habitação” (+0,72%). O principal impacto individual veio de energia elétrica residencial, com alta de 2,04% e contribuição de 0,08 p.p., por conta da bandeira tarifária amarela e incorporação de reajustes tarifários em diversas capitais. Na outra ponta, o destaque fica com o grupo de “Transportes”, que recuou 0,03%, com combustíveis caindo 1,22%, enquanto passagem aérea subiu 7,24%.

Do lado qualitativo, o principal destaque foi a surpresa para baixo em serviços. Ainda assim, o núcleo de serviços segue rodando em patamar elevado, acima de 5%. A medida de bens industriais subjacentes, por sua vez, veio abaixo do esperado, mas observamos aceleração em relação à leitura anterior.

De forma geral, após surpresa altista nas leituras recentes de inflação, o dado divulgado hoje traz algum alívio. Ainda assim, a inflação ao consumidor continua bastante pressionada e demanda cautela por parte da política monetária.

Relatório de Política Monetária traz surpresa na projeção da inflação

Por falar em política monetária, o Relatório de Política Monetária (RPM) de junho também foi divulgado na manhã desta quinta-feira, pelo Banco Central, e mostrou revisão altista para a atividade e para a inflação no horizonte relevante, em comparação ao documento anterior.

O relatório também mostrou que a projeção de crescimento do PIB para 2026 foi elevada de 1,6% para 2,0%, refletindo surpresa positiva recente, melhora nas projeções para agropecuária e indústria extrativa, além de maior dinamismo da demanda interna, em grande parte associada a estímulos de natureza fiscal e creditícia. Assim, o hiato do produto, métrica que estima a diferença entre o PIB e o seu crescimento potencial, segue positivo e foi revisado para cima, indicando que a economia ainda opera acima do potencial, sem ociosidade.

Para a inflação, houve revisão expressiva até o horizonte relevante (4º tri de 2027, cuja projeção subiu de 3,3% para 3,7%), por conta da surpresa inflacionária recente, hiato do produto mais alto e choque de commodities, além de expectativas de inflação mais elevadas.

Por outro lado, segundo a autoridade monetária, contribuíram como atenuantes a trajetória mais alta considerada para a taxa Selic e a apreciação cambial. A trajetória projetada indica aceleração até o fim de 2026, seguida de desaceleração gradual até 3,1% no final de 2028.

Cabe destacar que, para o 1º trimestre de 2028, horizonte relevante a partir da próxima reunião do Copom, a projeção para o IPCA se manteve em 3,2%, o que foi uma surpresa. Esperávamos um número mais elevado.

A comunicação reforça postura de cautela diante de incerteza elevada e expectativas ainda desancoradas, com o Comitê enfatizando a dependência de dados para definir a calibração da política monetária à frente.

PCE e revisão do PIB dos EUA mantém Fed sob pressão e cautela

Nos EUA, também na manhã desta quinta-feira (25), o Escritório de Análise Econômica (BEA, na sigla em inglês) divulgou os dados do Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês) de maio, indicando avanço de 0,4% frente a abril. O número veio abaixo do esperado, mas a taxa acumulada em 12 meses atingiu 4,1%, o maior valor em três anos.

Já o núcleo do PCE, medida que exclui os componentes mais voláteis de energia e alimentação, e é acompanhada de perto pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), avançou 0,32%, alinhado às expectativas. Frente a maio do ano passado, a alta foi de 3,4, se distanciando ainda mais do nível de inflação buscado pelo Banco Central.

Ainda nos EUA, a terceira revisão do PIB do 1º trimestre também foi divulgada nesta quinta-feira (25) e trouxe um ajuste importante: de 1,6% (tri/tri anualizado) divulgado anteriormente para 2,1%.

A melhora, no entanto, foi puxada pelo setor externo, enquanto a demanda doméstica perdeu fôlego. Após a revisão, os dados indicaram um consumo mais fraco em janeiro e fevereiro, mas em recuperação nos últimos meses. O investimento também foi revisado um pouco para baixo, mas segue robusto em meio à força do componente ligado à inteligência artificial.

Os dados divulgados hoje, tanto de inflação quanto de crescimento, sugerem uma atividade um pouco “menos forte” na margem, mas ainda sem apontar uma deterioração mais ampla da economia, que segue resiliente. Pelo lado de preços, não houve deterioração adicional da avaliação, que segue de uma inflação pressionada e distante da meta do Banco Central, mantendo pressão sobre a autoridade.

Diante disso, à frente, é importante monitorar se será confirmada a esperada desaceleração das leituras mensais, à medida que os impactos de choques perdem força, levando ao pico da inflação doze meses e, portanto, cedendo a partir daí.

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