Resumo da Semana: corte de juros no Brasil e curva de juros mais pressionada nos EUA
No Radar do Mercado: a semana foi marcada por decisões de política monetária ao redor do mundo, incluindo Brasil e EUA
Por Victor Camacho
Fed mantém juros e projeções reforçam leitura mais dura
A reunião desta semana do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) era particularmente aguardada. Não apenas pelo atual contexto de inflação pressionada e incerteza elevada, ou pelo fato de um novo presidente estar assumindo o comando da autoridade monetária, mas também porque este presidente vinha sinalizando disposição a promover ajustes relevantes tanto no arcabouço quanto na comunicação do Banco Central. E, conforme mencionamos na própria quarta-feira (17), a reunião não frustrou essas expectativas, com mudanças relevantes no comunicado da decisão, nas projeções feitas pela autoridade e anúncios feitos na coletiva de imprensa.
Apesar do Fed ter mantido a taxa de juros no intervalo de 3,5% a 3,75% ao ano, o comunicado foi totalmente reformado. Houve redução relevante do conteúdo, ainda que a mensagem central não tenha divergido das expectativas. Nas projeções, o destaque ficou com as revisões altistas na inflação, com o núcleo não retornando à meta no horizonte relevante, e, por consequência, nos juros. Se até a reunião anterior a mediana das expectativas para juros indicava um corte neste ano, agora ela passa a indicar uma alta, esperada por nove dos dezoito participantes que enviaram projeções.
Na coletiva de imprensa após a reunião, Warsh destacou a elevada incerteza em torno do cenário e a limitação das projeções como guia, mas o destaque ficou com o anúncio de grupos de trabalho para revisar comunicação, balanço, dados, produtividade e emprego, além do arcabouço de inflação da autoridade monetária. A reação de mercado foi de abertura das curvas de juros, refletindo a percepção de postura mais restritiva.
Copom reduz Selic para 14,25% a.a., com tom mais dovish
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil também se reuniu essa semana e decidiu reduzir a taxa Selic em 0,25 p.p., para 14,25% ao ano, em linha com as expectativas e mantendo o processo gradual de flexibilização da política monetária. A comunicação trouxe um tom mais brando, combinando indicação de continuidade do ciclo com reforço da necessidade de serenidade e cautela.
Conforme analisamos na própria noite de quarta-feira (17), O Copom reconheceu a deterioração do quadro inflacionário, destacando aceleração da atividade econômica, com maior contribuição de setores cíclicos, e avanço da inflação cheia e das medidas subjacentes, que superaram o limite superior da meta.
As projeções também pioraram, a estimativa para o 4º trimestre de 2027 subiu, enquanto as expectativas do Focus para 2026 e 2027 avançaram, refletindo maior dificuldade no processo de convergência inflacionária. O Comitê ainda adicionou novos riscos de alta, incluindo fatores climáticos e estímulos à demanda agregada.
Apesar desse cenário mais desafiador, a autoridade monetária indicou que diferentes trajetórias para a taxa de juros ainda levam à convergência da inflação à meta, agora no horizonte do início de 2028, o que sugere maior flexibilidade na condução da política.
A leitura do comunicado é de que permanece algum espaço residual para cortes adicionais, mas a continuidade do ciclo dependerá da evolução do cenário macroeconômico e da estabilização das expectativas. Na próxima semana, teremos a divulgação da Ata do Copom (terça-feira, 23) e do Relatório de Política Monetária (quinta-feira, 25) para entendermos melhor o racional da autoridade monetária.
Política monetária em outras regiões
Entre as demais economias, maior notoriedade para o Banco Central do Japão (BoJ, na sigla em inglês), que subiu a taxa de juros para 1% e indicou continuidade de normalização gradual à frente. Para outras autoridades, prevaleceu uma postura ainda cautelosa, com o Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) e o Banco da Austrália (RBA, também na sigla em inglês) mantendo juros estáveis, mas com viés atento à persistência inflacionária. Em conjunto, o ambiente global ainda sugere condições monetárias restritivas por um período prolongado, com eventuais ajustes dependendo da evolução da inflação e da atividade.
Conflito no Oriente Médio
A semana também foi marcada por alívio adicional nos mercados de petróleo, em meio à assinatura do memorando de entendimento entre EUA e Irã. O documento, dentre outros temas, estabelece a reabertura do Estreito de Ormuz, o alívio de restrições financeiras ao Irã e expectativas para o programa nuclear iraniano, alvo de negociações futuras. Nos próximos dias, o foco deve se concentrar no ritmo de retomada do tráfego pelo estreito, com alguma recuperação já aparecendo nos dados. Ao mesmo tempo, houve cancelamento da primeira rodada de tratativas entre EUA e Irã sobre a aplicação do memorando, que aconteceria hoje na Suíça, após ataques envolvendo Israel e Hezbollah.
Atividade no Brasil
Ainda nesta semana, na terça-feira (16), o IBGE divulgou a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) de abril, fechando os dados de atividade compilados pelo instituto para o mês. Em abril, as vendas do varejo restrito registraram queda de 1,5% em relação ao mês anterior, enquanto o varejo ampliado, que inclui itens como veículos, motos, partes e peças, material de construção e atacarejo, registrou queda de 0,7% no mesmo comparativo. A leitura foi mais fraca do que o esperado e com recuo relativamente disseminado entre os setores.
Junto às leituras de indústria e serviços, divulgadas anteriormente, o conjunto de dados de abril sugere uma atividade econômica ainda resiliente no Brasil, consistente com um crescimento ao redor de 2% ano contra ano (a/a), mas sem aceleração disseminada. Segundo o Relatório Focus, os analistas continuam revisando suas projeções para o PIB de 2026 para cima, em linha com a nossa visão de um crescimento mais robusto para o ano.
Atividade na China
Na China, dados de atividade de maio reforçaram a dinâmica de crescimento em “K”, conforme mencionamos na terça-feira (16), com desaceleração da demanda doméstica contrastando com a resiliência do setor externo. A produção industrial avançou 4,5% a/a, sustentada pelo ciclo de tecnologia e inteligência artificial, enquanto a produção de veículos elétricos também manteve forte expansão. Em contrapartida, as vendas no varejo voltaram a recuar (-0,6% a/a), com desempenho pior que o esperado.
Após a surpresa positiva do PIB no 1º trimestre, os dados recentes apontam para moderação do crescimento no 2º trimestre, com estímulos ainda focados em setores específicos, como tecnologia e serviços.
💬 O que achou deste conteúdo?
Confira os artigos mais recentes
Confira os artigos mais recentes
Copom reduz Selic para 14,25% a.a., em linha com as expectativas, com tom mais dovish
No Radar do Mercado: Comitê reafirmou serenidade e cautela à frente, mas sinalizando [...]
Fed mantém juros e adota comunicação mais enxuta, enquanto projeções reforçam leitura mais dura
No Radar do Mercado: sob a nova liderança de Kevin Warsh, Federal Reserve divulga dec [...]
Indústria e serviços sustentam atividade no Brasil, enquanto comércio mostra fraqueza
No Radar do Mercado: IBGE divulga última pesquisa de atividade relativa a abril, às v [...]