Conflito no Oriente Médio: quando não existe saída perfeita

No Radar do Mercado: nesta edição especial, confira a análise do estrategista-chefe de investimentos, Thomas Wu, sobre as possíveis resoluções para o conflito no Oriente Médio

Por Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos

6 minutos de leitura

O conflito no Oriente Médio completará cinco semanas no próximo sábado, 4 de abril. Desde os primeiros bombardeios no Irã na madrugada de 28 de fevereiro já se passaram 33 dias e já sabemos que, daqui em diante, qualquer saída para o conflito deixará alguém insatisfeito.

Dentro dos EUA, deixar alguém insatisfeito pode significar frustrar o eixo militar, o mercado ou o cálculo político da Casa Branca. Fora dos EUA, pode significar desagradar Israel ou aliados centrais no Golfo, como os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. Para o investidor, o ponto essencial é simples: já não parece haver uma vitória limpa (doméstica e externa ao mesmo tempo).

Em análises anteriores, descrevemos o conflito como um equilíbrio delicado entre três forças: o presidente Donald Trump, o mercado e o Irã. O modelo continua útil, mas tornou‑se insuficiente. O tempo passou, o choque de energia se aprofundou e o tabuleiro ficou mais complexo. Hoje, a leitura mais produtiva é reconhecer que Washington já não age como um ator único e que os aliados regionais também passaram a operar com objetivos próprios, nem sempre compatíveis entre si.

Os EUA não são um só

Talvez o erro seja pensar em um interesse nacional americano perfeitamente coeso. Neste momento, faz mais sentido separar três eixos:

  • O primeiro é o EUA militar: Pentágono e aparato de segurança inclinados a transformar superioridade bélica em uma vitória clara e pouco ambígua.
  • O segundo é o EUA econômico: o canal pelo qual o preço do petróleo devolve rapidamente, via condições financeiras, o custo do conflito à economia americana.
  • O terceiro é o EUA político: a Casa Branca no sentido eleitoral, sensível a combustíveis caros, popularidade e calendário político com “Midterm Elections” ainda este ano.

Essa decomposição importa porque já não parece haver uma decisão capaz de satisfazer os três simultaneamente.

Uma escalada terrestre pode atender melhor ao eixo militar, mas tende a piorar o quadro econômico, ao prolongar o conflito justamente no canal mais sensível para os mercados: energia, inflação e recessão. Politicamente, o resultado também é ambíguo. Uma vitória mais clara pode gerar dividendos, mas esses viriam misturados a custos econômicos elevados e ao desgaste de uma guerra mais longa.

No extremo oposto, uma saída negociada ou um desengajamento parcial aliviam a pressão sobre petróleo e ativos, atendendo melhor ao mercado e ao vetor político, mas deixam muito menos nítida a noção de vitória militar.

No Golfo, o cálculo também já mudou

Fora dos EUA, o jogo também mudou. E isso importa, sobretudo, pelo canal de preços. Os países do Golfo não escolheram essa guerra. Havia desconforto em pagar, em volatilidade e prêmio de risco, o custo de uma guerra “que não era deles”. Com o tempo, porém, esse cálculo se alterou.

À medida que ataques iranianos passaram a afetar cidades, infraestrutura crítica, tráfego marítimo e previsibilidade regional, parte dos países da região migrou para uma posição mais dura: não basta encerrar o conflito se o prêmio de risco estrutural permanecer elevado. É preciso reduzir de forma duradoura a capacidade do Irã de usar Ormuz, energia e segurança como instrumentos recorrentes de pressão.

É nesse contexto que se entende o desalinhamento atual. Uma solução como a sinalizada recentemente por Trump, ao sugerir que o Estreito de Ormuz não é responsabilidade americana, ajuda a preparar a narrativa para minimizar o custo político doméstico de uma saída e tende a ser bem recebida pelos mercados no curto prazo. Mas ela dificilmente atende Israel ou aliados centrais no Golfo. O caso dos Emirados Árabes Unidos é um bom exemplo: ambições de consolidar Dubai e Abu Dhabi como hubs financeiros globais exigem previsibilidade, estabilidade regional e um prêmio de risco estruturalmente baixo, algo difícil de reconciliar com um Irã ainda forte o suficiente para chantagear a região.

No extremo oposto, as notícias do fim de semana sobre uma possível escalada terrestre agradam esse bloco, mas reintroduzem o trade‑off já conhecido pelos mercados: custos econômicos elevados, prolongamento do choque energético e deterioração das condições financeiras globais.

Um cenário mais binário

Na prática, o cenário ficou ainda mais binário. O miolo da distribuição das resoluções do conflito voltou a perder peso. Trump pode, de um lado, autorizar uma escalada mais dura, inclusive com uma invasão por terra para tentar reabrir Ormuz pela força, ou, de outro, sinalizar uma saída ao argumentar que a responsabilidade pelo mesmo estreito de Ormuz não é americana. Movimentos opostos, convivendo quase simultaneamente no noticiário.

Por isso, temos evitado tanto o excesso de entusiasmo com notícias aparentemente boas quanto o pessimismo exagerado diante de manchetes negativas. Em um ambiente como este, é arriscado recalibrar o cenário-base ao sabor do noticiário.

Nosso foco, portanto, tem sido menos a direção pontual das notícias e mais a forma da distribuição: aumento claro da incerteza, maior dispersão de cenários plausíveis e esvaziamento do miolo. A resposta a esse mundo não é convicção elevada, mas disciplina, ajustando portfólios para um ambiente em que não há vitória limpa e em que o principal risco, por ora, não é errar o próximo movimento, mas subestimar a amplitude dos possíveis desfechos.

*Texto escrito por Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos do Itaú, em 1º de abril de 2026, às 9h.

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