IPCA-15 de março surpreende e relatório do Banco Central atualiza projeções de inflação
No Radar do Mercado: apesar de surpresa para cima, composição do IPCA-15 trouxe algum alívio no lado qualitativo. Já Relatório de Política Monetária elevou as expectativas de inflação do Banco Central para os próximos trimestres
Por Carolina Sato, estrategista de investimentos
IPCA-15 surpreende em março e registra alta de 0,44%
Nesta quinta-feira, 26, o IBGE divulgou o IPCA-15 de março, registrando alta de 0,44% na passagem mensal, uma desaceleração em relação ao 0,84% de fevereiro, mas com surpresa para cima em relação à projeção de 0,29% do mercado, concentrada sobretudo em passagens aéreas. Em 12 meses, o índice recuou para 3,90%, abaixo dos 4,10% observados no mês anterior.
Na composição, o grupo “Alimentação e bebidas” foi o principal vetor altista do mês (0,88% de alta e impacto de +0,19 p.p. no índice cheio), puxado por alimentação no domicílio, enquanto “Despesas pessoais” também tiveram contribuição relevante (0,82% e +0,09 p.p.). Já em “Transportes”, o destaque foi a alta de passagens aéreas (5,94%), subitem com o maior impacto individual no resultado do mês (0,05 p.p.).
Do lado qualitativo, os serviços subjacentes continuaram pressionados, mas mostraram alguma desaceleração na margem, enquanto bens industriais apresentaram leitura mista, com possibilidade de rodar mais baixo à frente caso o câmbio permaneça comportado.
Utilizando os dados divulgados hoje para projetar o IPCA do mês de março fechado, vemos maiores pressões vindas das coletas de curto prazo, mostrando alta dos preços de combustíveis nos postos, além das passagens aéreas mais elevadas – número que veio alto e repete na leitura final da inflação ao consumidor.
No entanto, apesar da surpresa para cima no índice geral, puxado por um item volátil, a avaliação qualitativa foi melhor do que a esperada, com alguma desaceleração em serviços. Ainda assim, a expectativa de que o IPCA continue pressionado no curto prazo e um nível ainda elevado de serviços devem manter o Banco Central cauteloso na avaliação da convergência da inflação em direção à meta.
Relatório de Política Monetária: projeções de inflação sobem e hiato é revisado para cima no curto prazo
Também nesta quinta-feira, 26, o Banco Central divulgou nova edição do Relatório de Política Monetária referente ao primeiro trimestre deste ano.
O relatório manteve a projeção de crescimento do PIB de 2026 em 1,6%, vindo de um crescimento de 2,3% em 2025, mas houve uma revisão altista na estimativa do hiato do produto do 4º tri/2025, métrica que estima a diferença entre o PIB e seu crescimento potencial. Isso significa que o Banco Central estima que a economia brasileira está operando acima do potencial, sem capacidade ociosa, mas com uma visão de que o hiato converge rapidamente e se torna negativo ao longo dos próximos trimestres. Na nossa visão, no entanto, ainda que haja elevada incerteza nas estimativas dessa métrica, o hiato permanecerá em patamar positivo por mais tempo, pressionando a inflação.
Por falar em inflação, o cenário de referência do Banco Central passa a indicar trajetória mais pressionada ao longo dos próximos trimestres, sendo que no atual horizonte relevante (3º tri/27), a projeção subiu 0,1 p.p. em relação ao relatório anterior, para 3,3%. Essa subida foi atribuída à alta do petróleo e à revisão do hiato, parcialmente compensadas por apreciação cambial e leve recuo das expectativas. Além disso, para o 4º tri/27, horizonte que passa a ser o relevante na próxima reunião do Copom, também houve revisão para cima, em 0,2 p.p., para 3,3%. Cabe destacar ainda que, segundo as projeções apontadas neste relatório, a inflação não atinge a meta de 3% em nenhum momento do horizonte (no 3º tri/28, as projeções apontam para inflação em 3,1%).
Essas revisões para cima reforçam a comunicação de serenidade e cautela na calibração de política monetária, por conta do cenário bastante dependente do ambiente externo com o conflito no Oriente Médio e seus impactos sobre a inflação e as expectativas. À luz dos dados correntes, a discussão passa a ser sobre um ciclo menor de cortes de juros, reduzindo o espaço para flexibilização mais acelerada, a depender da evolução do cenário, que segue bastante incerto.
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