Focus: após Copom, mercado revisa projeções do IPCA e da Selic para cima
No Radar do Mercado: pela segunda semana consecutiva, expectativas de inflação e da Selic deste ano subiram. Veja também a análise do nosso estrategista-chefe sobre o conflito no Oriente Médio
Por Itaú Private Bank
Focus: após Copom, mercado revisa projeções do IPCA e da Selic para cima
Após a reunião em que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu iniciar o ciclo de cortes de juros, o Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira, 23, pelo BC trouxe revisões para cima na mediana das projeções do mercado para a inflação e a Selic deste ano, em meio à continuação do conflito no Oriente Médio.
Começando pela inflação, pela segunda semana consecutiva, o relatório trouxe uma mudança significativa na projeção de 2026, que saiu de 3,91% no relatório divulgado dia 9 de março, para 4,10% há uma semana e chegou a 4,17% agora – ainda dentro do intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual ao redor da meta de 3,0% ao ano definida pelo Conselho Monetário Nacional, mas se aproximando do topo.
Para 2027, a mediana das projeções do IPCA seguiu em 3,80% ao ano, mas para 2028 houve uma revisão de 3,50% para 3,52%, enquanto a inflação 12 meses à frente, um indicador importante para o Copom, subiu novamente, agora de 3,99% para 4,07%.
Com relação à Selic, após o Copom ter reduzido a taxa de 15,00% para 14,75% ao ano na semana passada, o mercado elevou sua expectativa para o final do ano de 12,25% para 12,50% a.a. Para 2027 e 2028, as projeções se mantiveram em 10,50% e 10,00% ao ano, respectivamente.
O PIB foi outra variável que passou por atualização. A projeção para este ano registrou uma pequena oscilação, de 1,83% para 1,84%, enquanto as expectativas para 2027 e 2028 se mantiveram em 1,89% e 2,00% ao ano.
Por fim, a mediana para o câmbio de 2026 se manteve em R$/US$ 5,40, enquanto a de 2027 caiu de R$/US$ 5,47 para R$/US$ 5,45, e a de 2028 seguiu em R$/US$ 5,50.
O conflito no Oriente Médio sob a ótica da teoria dos jogos
Desde sexta‑feira, 20, o noticiário sobre o conflito envolvendo o Irã passou a exibir sinais cada vez mais contraditórios. Primeiro, surgiram informações de que os EUA teriam preparado planos para uma possível operação terrestre em território iraniano. Logo em seguida, vieram declarações sugerindo que os objetivos americanos estariam próximos de ser atingidos e que o esforço militar poderia ser reduzido. No domingo, 22, o tom voltou a endurecer, com novas ameaças caso o Irã não reabrisse integralmente o Estreito de Ormuz.
Esse padrão voltou a se repetir na manhã desta segunda‑feira, 23. Em uma mensagem pública, o presidente Donald Trump afirmou que EUA e Irã estariam tendo “conversas muito boas e produtivas” nos últimos dias e anunciou o adiamento, por cinco dias, de eventuais ataques a instalações energéticas iranianas, condicionado ao avanço dessas discussões. Poucas horas depois, a resposta oficial de Teerã foi direta: autoridades iranianas negaram qualquer contato – direto ou indireto – com Washington, afirmaram que não há negociações em curso, reiteraram que continuarão respondendo e se defendendo e sinalizaram que o Estreito de Ormuz não retornará a um estado igual a antes do conflito “por meio de operações psicológicas”. Em outra frente, a imprensa estatal iraniana classificou as declarações americanas como uma tentativa de pressionar os preços de energia.
À primeira vista, essa sequência pode parecer apenas confusa. Na nossa avaliação, porém, ela reflete uma dinâmica mais profunda – e é justamente aqui que a teoria dos jogos ajuda a organizar a leitura. Em conflitos dessa natureza, a comunicação não serve apenas para informar. Ela é parte do próprio jogo. Serve para influenciar o comportamento do adversário, dos aliados, da opinião pública e, de forma cada vez mais relevante, dos mercados.
Quando há múltiplas audiências, mensagens aparentemente contraditórias deixam de ser uma anomalia e passam a ser um instrumento. Os EUA não estão falando apenas com o Irã. Estão falando, ao mesmo tempo, com o eleitor doméstico, com aliados estratégicos, com sua própria estrutura militar e com os mercados financeiros. Já o Irã, ao negar publicamente qualquer negociação e enquadrar a fala americana como “psicologia de mercado”, busca evitar a leitura de concessão, preservar sua posição interna e manter o custo do conflito elevado no plano econômico.
Por trás dessa comunicação está uma assimetria central: o que cada lado precisa demonstrar para considerar que venceu não é a mesma coisa. Para os EUA, uma vitória precisa ser concreta, visível e politicamente comunicável. É preciso apresentar algum resultado objetivo que justifique o custo da operação. Para o Irã, o cálculo é distinto. O regime não precisa derrotar militarmente os EUA em sentido clássico. Basta resistir, preservar sua estrutura política e impedir que Washington produza um desfecho claramente reconhecível como vitória.
Qual é o impacto do conflito no cenário econômico?
Essa diferença ajuda a entender por que o conflito vem se deslocando também para o campo econômico. Ao manter o Estreito de Ormuz sob tensão e ao sinalizar que o ambiente não retornará rapidamente à normalidade, o Irã eleva o custo global da continuidade do conflito. Com isso, o mercado deixa de ser apenas um observador e passa a atuar como um canal de pressão adicional sobre as decisões políticas.
É nesse ponto que o fator tempo se torna decisivo. Para o investidor, mais importante do que a intensidade inicial do choque é a sua duração. Agora, entrando na quarta semana, o risco de “mais do mesmo” deixa de ser apenas o de um petróleo mais alto por mais tempo. Ele passa a incluir a possibilidade de que os mercados consolidem a inflação como cenário base e, mais adiante, de que os próprios bancos centrais comecem a chancelar, em sua comunicação, as altas de juros já embutidas na curva. A partir do momento em que os bancos centrais endossam esse cenário, a curva deixa de refletir incerteza e passa a refletir convicção – e, historicamente, esse é um ajuste muito mais doloroso para os ativos.
Visto sob essa ótica, o espaço de decisão de Washington hoje pode ser organizado em três trajetórias possíveis – todas imperfeitas, mas com custos e benefícios muito distintos.
Quais são os cenários possíveis à frente?
A primeira é a continuidade do cenário atual, o “mais do mesmo”: manter a ofensiva militar nos moldes atuais, sem um objetivo final claramente declarado, com o Estreito de Ormuz fechado ou sob forte disrupção e o Irã ampliando ataques à infraestrutura energética regional. Nesse ambiente, o petróleo tende a se sustentar acima de US$ 100 por barril, os mercados passam a tratar a inflação como cenário base e o risco deixa de ser apenas financeiro para se tornar monetário, à medida que cresce a probabilidade de validação das altas de juros pelas autoridades centrais. O problema desse caminho é a assimetria entre custo e benefício: o custo econômico é elevado e crescente, enquanto o ganho geopolítico é limitado.
A segunda alternativa é um recuo militar acompanhado do anúncio de uma “vitória”. Ainda que o mercado interprete esse desfecho com ceticismo – todos sabem que se trata, em grande medida, de uma construção narrativa –, se esse movimento ocorrer cedo o suficiente, antes que o choque do petróleo se transforme em choque macroeconômico, o custo econômico é significativamente menor. Esse é o cenário que oferece baixo benefício geopolítico, mas também menor dano sobre inflação, atividade e condições financeiras globais.
A terceira possibilidade é a intensificação clara da pressão militar, com o objetivo explícito de buscar uma vitória concreta, visível e politicamente comunicável. Esse caminho oferece o maior potencial de ganho geopolítico, mas também carrega o maior custo econômico, tanto pelo impacto direto sobre energia quanto pelo risco de aprofundamento da aversão a risco e do aperto das condições financeiras globais.
O ponto central é que essas três opções não têm o mesmo valor relativo ao longo do tempo. À medida que as semanas passam, a estratégia do “mais do mesmo” se torna cada vez pior em comparação com as outras duas. O custo econômico segue se acumulando, enquanto o benefício geopolítico permanece difuso. É essa dinâmica que coloca a administração americana em uma encruzilhada cada vez mais estreita: ou recua relativamente cedo, aceitando um ganho político limitado, ou dobra a aposta em busca de um desfecho mais claro – com todos os riscos que isso implica.
Em linguagem de mercado, isso ajuda a explicar por que o cenário vem se tornando mais binário. O espaço intermediário perde densidade. Em seu lugar, ganham peso duas trajetórias extremas: de um lado, uma resolução relativamente rápida, com redução do esforço militar e alguma estabilização dos mercados; de outro, uma escalada mais evidente, capaz de prolongar o conflito e intensificar o choque energético.
Qual é o impacto do conflito nos investimentos?
Há aqui um paralelo que o investidor brasileiro conhece bem. Em eleições muito disputadas no Brasil, entre candidatos com visões econômicas bastante diferentes, o mercado não reage apenas ao cenário central, mas à distância entre os possíveis desfechos. Quanto maior essa distância, maior a sensibilidade dos preços dos ativos. A diferença, no caso atual, é que não há uma data conhecida para a resolução da incerteza – e isso torna o ambiente ainda mais desafiador.
Do ponto de vista dos investimentos, o que está sendo reprecificado não é apenas o tamanho do choque, mas a dispersão entre cenários possíveis. Este não é apenas um ambiente de maior incerteza. É, sobretudo, um ambiente de maior dispersão. Em contextos assim, cresce o custo de portfólios excessivamente dependentes de uma única narrativa e ganha importância uma alocação mais robusta, com diversificação, liquidez e disciplina na gestão de risco.
Neste momento, nosso papel não é antecipar a próxima manchete, mas garantir que o patrimônio esteja preparado para atravessar cenários distintos, inclusive aqueles em que a volatilidade permaneça elevada por mais tempo. Assim sendo, resiliência não é apenas prudência, é parte essencial do processo de geração de valor ao longo do tempo.
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