Copom corta Selic em 0,25 p.p. e inicia um ciclo cercado de incertezas
No Radar do Mercado: em ambiente de elevada incerteza, Comitê inicia ciclo de calibração da política monetária, mas reconhece que o cenário está bastante incerto e os próximos passos devem ser cautelosos
Por Carolina Sato, estrategista de investimentos
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic para 14,75% a.a., vindo de 15,00%, em linha com as expectativas, iniciando assim um ciclo de calibração da política monetária cercado de incertezas. Cabe ressaltar, no entanto, que antes do conflito no Oriente Médio, o mercado esperava um corte de 0,50 p.p. – e havia até mesmo discussões de um corte inicial ainda mais intenso.
Após um período prolongado de manutenção da taxa de juros em patamar contracionista, a autoridade monetária julgou haver evidências mais claras da transmissão da política monetária, abrindo espaço para ajustes na taxa básica de juros. A projeção de inflação do Copom para o horizonte relevante de política monetária (3T27) encontra-se em 3,3% no cenário de referência, ante 3,2% na reunião anterior.
No comunicado, o Copom reforça que o ambiente externo se tornou mais incerto, em função do acirramento dos conflitos no Oriente Médio, com impacto sobre as condições financeiras globais e maior volatilidade de preços de ativos e commodities. No cenário doméstico, o diagnóstico segue apontando moderação da atividade econômica, mercado de trabalho ainda resiliente e inflação em processo de arrefecimento, embora acima da meta.
À frente, o processo de flexibilização monetária exige serenidade e cautela, em ambiente de incertezas e riscos elevados, condicionado à evolução do ambiente externo e seus efeitos sobre inflação e expectativas. Assim, o Comitê preservou sua flexibilidade para reagir diante de possíveis mudanças de cenário.
Continuaremos monitorando os desdobramentos dos conflitos geopolíticos, a dinâmica das expectativas de inflação e a confirmação da desaceleração doméstica. Esses fatores serão determinantes para o ritmo e a extensão do processo de calibração da política monetária.
Nossa visão para os mercados
Acreditamos que a adoção de uma postura mais cautelosa faz sentido diante de um cenário externo que está bastante volátil, e que tem impacto direto na inflação brasileira por meio do preço do petróleo e seus derivados. Ainda assim, considerando o grande espaço para cortes de juros que o Comitê antevia há menos de um mês, a autoridade monetária continuou enxergando a possibilidade de recalibrar o grau de aperto mesmo diante do choque recente e optou por dar início a esse processo de “recalibragem”.
Enxergamos como adequada essa estratégia mais conservadora, que não reage em excesso a um noticiário muito volátil. Um movimento diferente, como a manutenção da taxa, poderia ser lido como uma mudança brusca de diagnóstico e levar a mais volatilidade. Por outro lado, um passo maior de redução de juros estaria ignorando que a situação mudou e que o tamanho total do ciclo está sob uma incerteza maior do que a usual.
Com relação à nossa alocação tática, mantemos nosso viés positivo para a renda fixa, em especial o juro real, que oferece uma proteção em momentos de surpresa inflacionária, por enxergarmos espaço para uma redução dos juros reais em um ambiente de atividade menos aquecida e expectativas de inflação mais próximas da meta. Porém, reconhecemos que as incertezas aumentaram. Seguiremos acompanhando os desdobramentos no exterior e seus impactos para a política monetária local, ajustando as posições, se necessário, sempre buscando os investimentos de melhor risco-retorno.
Para a renda variável, vemos o início do ciclo de corte de juros como positivo, uma vez que, historicamente, períodos de afrouxamento monetário são os que apresentam melhores performances da bolsa brasileira. Entretanto, no curto prazo, o cenário internacional deve ditar o rumo da bolsa brasileira. Nossa recomendação para o Ibovespa segue em um nível acima do neutro.
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