Fed mantém juros parados em meio a incertezas com conflito no Oriente Médio
No Radar do Mercado: após período de silêncio em momento de rápidas evoluções no cenário global, conflito no Oriente Médio não alterou substancialmente o diagnóstico macroeconômico do Federal Reserve
Por Victor Camacho
O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) decidiu manter a taxa básica de juros dos EUA no intervalo entre 3,50% e 3,75% a.a., mas a decisão não foi unânime: Stephen Miran votou por um corte de 0,25 ponto percentual. No geral, a comunicação veio em linha com a estratégia recente do Fed de preservar uma postura restritiva enquanto avalia a evolução do cenário macroeconômico, reforçando a mensagem de cautela diante de um ambiente ainda incerto.
Na avaliação do Comitê, a atividade econômica segue se expandindo em um ritmo sólido. O mercado de trabalho mostra sinais de estabilização, com ganhos de emprego mais moderados e taxa de desemprego relativamente estável. Já a inflação permanece acima da meta. O Fed reiterou que busca promover o máximo emprego e trazer a inflação de volta a 2% no horizonte de longo prazo, destacando que a incerteza em torno do cenário econômico segue elevada, especialmente à luz de fatores internacionais.
Em termos de sinalização, o texto manteve a ênfase na dependência de dados para os próximos passos. Assim, o guidance permaneceu flexível: o Fed reforçou que está preparado para ajustar a postura da política monetária caso surjam riscos que possam comprometer o cumprimento de seus objetivos, mas sem indicar um cronograma claro para mudanças nas taxas.
É tradicional que, antes de cada reunião, os bancos centrais entrem no chamado "período de silêncio”, quando dirigentes deixam de dar entrevistas e fazer comentários públicos para evitar ruídos e concentrar a comunicação no momento oficial da decisão. Com o fato de o cenário global ter mudado rapidamente justamente enquanto o Fed estava obrigatoriamente calado, havia grande expectativa pela leitura de hoje do banco central. E a interpretação da reunião é que os eventos relacionados ao conflito no Oriente Médio elevaram o nível de incerteza, mas não alteraram substancialmente o diagnóstico macroeconômico do Fed.
Projeções do Comitê: mesmos juros, mas inflação mais alta
A reunião também contou com a atualização das projeções econômicas dos participantes. Em relação ao encontro anterior, o Comitê revisou para cima o crescimento ao longo de todo o horizonte. Para o desemprego, houve apenas ajuste marginal para o ano que vem. Já na inflação, houve revisão altista tanto no índice cheio, quanto no núcleo, especialmente este ano, mas ainda com pouco efeito para 2027. Com isso, as projeções para a taxa de juros indicaram manutenção do número de cortes esperados no horizonte, mas com leve revisão altista da taxa de equilíbrio no longo prazo.
Powell diz não ter intenção de deixar o Fed até que investigação do DOJ seja concluída
Na coletiva de imprensa, o presidente do Fed, Jerome Powell, enfatizou que, para retomar o ciclo de cortes de juros, as autoridades precisariam ver progresso na redução da inflação, especialmente de bens, pressionada por tarifas.
Quanto ao conflito no Oriente Médio, Powell afirmou ainda ser cedo para saber a magnitude e a duração dos potenciais efeitos sobre a economia. Questionado sobre o impacto da alta dos preços do petróleo sobre a inflação, ele afirmou que, em geral, bancos centrais não reagem, pois o efeito sobre a inflação tende a ser temporário. Ainda assim, destacou que isso depende da expectativa de que a inflação convirja para a meta de 2% no longo prazo, ressaltando que a inflação americana está acima da meta há cinco anos.
Powell também surpreendeu ao fazer declarações mais claras sobre seu futuro. O presidente afirmou que não tem intenção de deixar o Comitê até que a investigação do Departamento de Justiça dos EUA sobre um projeto de reforma de prédio do Fed esteja encerrada. Além disso, afirmou que, caso seu sucessor não seja confirmado antes do término de seu mandato como presidente, em maio, ele atuaria como presidente temporariamente. Por fim, disse que ainda não decidiu se deixaria o Comitê mesmo com a investigação encerrada.
Powell também declarou que o Comitê voltou a discutir a possibilidade de que o próximo movimento de juros seja uma alta, mas ressaltou que a grande maioria dos participantes não vê isso como o cenário-base.
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