Resumo da semana: riscos geopolíticos retomam o destaque
No Radar do Mercado: a semana foi marcada pela piora do pano de fundo geopolítico, com pressão sobre o petróleo, além do anúncio de tarifas pelos EUA
Por Victor Camacho
Petróleo volta a ditar o tom do cenário global
O pano de fundo internacional voltou a ser dominado pela piora do conflito no Oriente Médio. Ao longo da semana, ganharam força os temores de novas disrupções no fluxo de energia, com troca de ataques entre EUA e Irã e extensão das ofensivas para novos alvos. Além de ataques iranianos a outros países do golfo, ações dos Houthis, grupo armado do Iêmen, ampliaram o risco não apenas para o Estreito de Ormuz, mas também para a rota do Mar Vermelho e para o Estreito de Bab el-Mandeb.
Houve, ainda, ameaça de intensificação dos ataques pelo lado americano. Sem avanços relevantes na frente diplomática, o mercado voltou a discutir a possibilidade de um choque de oferta mais severo, com risco para inflação, efeitos de segunda ordem e eventual impacto em crescimento, especialmente em economias mais sensíveis ao custo de energia.
Tarifas seguem no radar, mas sem mudança relevante na tarifa efetiva
Outro tema relevante no cenário global foi a confirmação de novas medidas tarifárias pelos EUA. Entraram em vigor hoje tarifas de até 12,5% sobre importações de cerca de 60 parceiros comerciais americanos, relacionadas à fiscalização de importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado, incluindo incidência mais elevada para o Brasil. No contexto brasileiro, o impacto macro deve ser amortecido pela extensa lista de exceções, mas o risco setorial segue.
Ainda assim, a leitura predominante é de que os novos anúncios não devem provocar, no curto prazo, uma alteração expressiva no nível agregado da tarifa efetiva americana. Em boa medida, os anúncios parecem funcionar como substituição de instrumentos temporários, como a seção 122, por mecanismos mais permanentes, como a seção 301, dentro de um processo já esperado de reorganização da política comercial americana.
Isso não elimina o potencial de ruído. Tarifas seguem como um vetor de incerteza para inflação, comércio internacional e sentimento de mercado, sobretudo se houver ampliação para novos setores ou países. Por enquanto, porém, o impacto macro mais imediato continua vindo do choque de energia, e não do canal tarifário.
BCE mantém juros e deixa porta aberta à frente
Na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) manteve os juros inalterados, em linha com o esperado, e preservou uma comunicação flexível. A autoridade reconheceu que os preços de energia seguem muito voláteis e ainda acima dos níveis observados antes da escalada no Oriente Médio, destacando também que os efeitos inflacionários completos do choque ainda não foram totalmente sentidos.
A mensagem central foi de flexibilidade. O BCE reiterou a abordagem dependente dos dados e reunião a reunião, sem se comprometer com uma rota específica para os juros. Ainda assim, com a trajetória esperada para os preços de energia se comportando em linha com um dos cenários traçados pelo BCE que embute aperto adicional, o mercado segue projetando alta de juros para a próxima reunião em setembro.
Europa tem sinais melhores de atividade, mas energia segue como teste
Além da decisão do BCE, a semana trouxe sinais mais construtivos para a economia europeia. Indicadores antecedentes mostraram recuperação, com melhora mais expressiva em serviços, mas também avanço na manufatura. Ao mesmo tempo, houve recuo das expectativas de inflação dos consumidores e manutenção da ancoragem das expectativas de médio prazo.
Em conjunto, os dados sugerem que, na ausência de um novo agravamento importante no choque energético, a região poderia atravessar o período recente com mais resiliência do que se temia. Ainda assim, esse quadro segue sujeito ao noticiário geopolítico. Como a Europa depende fortemente de energia externa, qualquer nova alta persistente do petróleo tende a reabrir o risco de um ambiente mais estagflacionário, com inflação pressionada e crescimento menos robusto.
Focus mantém cenário de expectativas de inflação pressionadas
No Brasil, a nova leitura do Relatório Focus preservou uma tendência já vista nas últimas semanas. Houve continuidade do recuo das projeções de IPCA para 2026, mas junto a uma deterioração em horizontes mais longos, e mais relevantes para a política monetária. Desta vez, o destaque ficou com a elevação da estimativa para o IPCA de 2028, enquanto as expectativas para PIB e Selic foram mantidas para todo o horizonte.
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