Copom corta Selic em 0,25 p.p. novamente, mas adota tom mais duro
No Radar do Mercado: em ambiente de elevada incerteza, Comitê reafirmou serenidade e cautela no processo de calibração da política monetária à frente
Por Carolina Sato
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu dar sequência ao ciclo de calibração da política monetária em reunião finalizada nesta quarta-feira, 29, cortando a taxa Selic em 0,25 p.p., para 14,50% a.a., em linha com a expectativa do mercado.
No cenário externo, o Banco Central enfatizou a indefinição sobre a duração, extensão e desdobramentos dos conflitos no Oriente Médio, com reflexos sobre condições financeiras globais e preços de commodities.
Já em relação ao cenário doméstico, houve piora no diagnóstico inflacionário. O comunicado destacou que a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram e as expectativas de inflação mostraram piora adicional, distanciando-se ainda mais da meta. Além disso, a projeção do Copom para a inflação do 4º trimestre de 2027 (horizonte relevante para a política monetária) subiu de 3,3% na reunião anterior para 3,5%, acima do esperado.
Cabe destacar que a autoridade monetária manteve o balanço de riscos para o cenário inflacionário equilibrado, mas destacou o risco de desancoragem das expectativas por período mais prolongado, com especial atenção a horizontes mais longos e potenciais impactos de segunda ordem do choque de oferta de petróleo e derivados.
O Comitê reafirmou serenidade e cautela, e acrescentou que novos ajustes poderão ocorrer no ritmo e na extensão dessa calibração. A sinalização reforça uma barra mais alta para aceleração dos cortes de juros e menor espaço para um ciclo mais intenso, especialmente diante da projeção de inflação mais alta e da preocupação com expectativas mais longas.
À frente, o cenário continuará dependente da profundidade e duração do conflito no Oriente Médio, em seus efeitos sobre petróleo, inflação e expectativas. A reação dessas variáveis deve seguir condicionando o ritmo e a extensão do ciclo. Seguiremos monitorando e mantendo nossos clientes atualizados.
Nossa visão para os mercados
Na nossa visão, o tom mais preocupado com a inflação adotado pelo Banco Central no comunicado era necessário devido a alta das expectativas que vimos desde o início do conflito. Ao fazer projeções mais altas para a inflação, o Copom sinaliza que precisa ver uma melhora do ambiente antes de voltar a pensar em um ritmo mais acelerado de cortes.
Por outro lado, quando o Comitê reforça que o nível mais alto da Selic ao longo do último ano foi suficiente para diminuir o ritmo da economia, ele mantém o diagnóstico de que uma recalibragem da Selic segue sendo seu cenário base, ainda que esse novo patamar esteja sujeito a possíveis revisões diante de um mundo tão incerto. Diante disso, o Copom manteve em sua comunicação a necessidade de se pautar pela “serenidade e cautela”, expressão que já apareceu no início do ciclo.
Com relação à nossa alocação tática, mantemos nosso viés neutro para a renda fixa, considerando a necessidade de juros mais restritivos por mais tempo a fim de evitar uma retomada da inflação em decorrência do conflito no Oriente Médio. Porém, frente à elevada incerteza, os prêmios também estão maiores, e a classe pode voltar a ser uma oportunidade de investimento mais atrativa, dependendo da evolução dos indicadores econômicos.
Já para a renda variável, vemos a continuidade do ciclo de corte de juros como positivo, uma vez que, historicamente, períodos de afrouxamento monetário são os que apresentam melhores performances da bolsa brasileira. Entretanto, no curto prazo, o cenário internacional e o fluxo de recursos dos estrangeiros devem ditar o rumo do mercado acionário local.
O cenário, portanto, exige que sigamos acompanhando de perto os ativos e avaliando o seu risco-retorno para tomar as melhores decisões.
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