Fed sobe juros e projeta mantê-los altos por mais tempo
No Radar do Mercado: Comitê revisa para cima a trajetória de juros à frente e reforça cautela diante de um processo de desinflação mais lento
Por Carolina Sato
O Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) decidiu, na tarde desta quarta-feira (16), elevar a taxa de juros americana em 0,25 ponto percentual, para o intervalo de 3,75% a 4,00% ao ano. A decisão veio em linha com as expectativas do mercado e com apoio unânime do Comitê (12 votos a favor).
No comunicado que divulgou a decisão, o Comitê seguiu descrevendo a atividade dos EUA como em expansão a um ritmo sólido, com consumo doméstico resiliente, produtividade crescendo e investimento robusto, além de mercado de trabalho estável. Em relação à inflação, reforçou que ela segue elevada. A principal alteração em relação ao comunicado da reunião anterior foi a inclusão da mensagem de que a ação tomada hoje "apoiará um retorno mais rápido da inflação à meta de 2%".
A mensagem mais dura (hawk), porém, veio da atualização das projeções do Comitê divulgada junto com o comunicado. O principal destaque foi a revisão altista da mediana dos juros em todo o horizonte, com praticamente nenhum espaço para cortes nas taxas de juros até 2028, em meio a uma inflação ainda pressionada.
Além disso, há forte sinalização de mais uma alta de juros ainda este ano, com amplo consenso interno. A projeção mediana para os juros ao fim de 2026 passou de 3,8% na rodada de junho para 4,1% agora. Houve ainda surpresa altista em 2027, com a mediana em torno de 4,1%, ou seja, sem cortes de juros projetados. A estimativa de taxa neutra de longo prazo, por sua vez, subiu para cerca de 3,2%, reforçando o cenário de juros estruturalmente mais altos.
Quanto à inflação, o núcleo do PCE foi revisado para cima em 2026, para 3,4%, e mantido em 2,5% em 2027. Já para 2028, houve revisão altista, para 2,2%. Apenas em 2029 o Comitê enxerga o atingimento da meta de inflação de 2%. Esse processo lento de desinflação exige cautela por parte da autoridade monetária.
Nas projeções para a atividade, a mediana do PIB real avançou para 2,3% em 2026 e para 2,4% em 2027. A partir daí, as estimativas para o crescimento econômico desaceleram gradualmente em direção ao ritmo de crescimento de longo prazo (2,0%). Nesse contexto, a taxa de desemprego foi revista para baixo, para 4,1% para os próximos anos, indicando mercado de trabalho mais resiliente do que o projetado anteriormente.
De modo geral, o Comitê enxerga uma atividade econômica que deve continuar crescendo acima do potencial, o que deve fazer com que a taxa de desemprego continue em patamar baixo e as pressões inflacionárias sejam persistentes. Nesse cenário, os juros devem se manter acima da estimativa da taxa neutra de longo prazo nos próximos anos, permitindo que a inflação desacelere de forma muito gradual em direção à meta de 2% ao longo dos próximos anos.
Na coletiva de imprensa concedida após a reunião, o presidente do Fed, Kevin Warsh reafirmou as mensagens de Jackson Hole, de que não basta a inflação desacelerar, é preciso que ela convirja de forma clara e em velocidade adequada em direção à meta. O presidente também reiterou que não trabalha com "forward guidance", e afirmou que tendências importam e dados isolados tendem a ser ruidosos.
Kevin Warsh apontou ainda três fatores por trás da alta das taxas de títulos americanos mais longos: a economia forte, a competição por capital ligada ao ciclo de investimentos em inteligência artificial e a geopolítica.
Daqui pra frente, será importante monitorar a persistência do choque de energia e seus efeitos diretos e indiretos sobre a inflação e as expectativas, além dos dados de atividade econômica e mercado de trabalho. A partir dessas informações, a autoridade monetária americana avaliará se será necessário aperto monetário adicional.
Visão de Investimentos: o tom mais duro adotado pelo Comitê reforça o viés de continuidade do aperto, com o mercado precificando mais uma alta de juros até o final do ano. Esse ambiente de juros americanos mais elevados pode manter certa cautela nos ativos globais, além de ajudar a sustentar o dólar americano em patamar mais apreciado no curto prazo. Por ora, mantemos nossas recomendações neutras na carteira internacional, mas estamos avaliando oportunidades para eventuais mudanças nas alocações à frente.
Confira a seguir um compilado das projeções divulgadas pelo Comitê:
Começando pela inflação, a mediana das projeções para o IPCA de 2026 recuou de 5,00% para 4,90%. O patamar se aproxima, mas segue acima do limite superior do intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual ao redor da meta central de 3,0%.
Já a projeção para 12 meses à frente foi na direção contrária e avançou, de 4,60% para 4,65%. Para 2027, a expectativa subiu marginalmente de 4,29% para 4,30%, enquanto para 2028 permaneceu estável em 3,80%.
Em relação ao PIB, a projeção para 2026 recuou de 1,93% para 1,89%. Para 2027, a estimativa caiu de 1,50% para 1,45%, e para 2028 passou de 1,96% para 1,87%.
Na parte do câmbio, a projeção para 2026 permaneceu em R$/US$ 5,20, enquanto para 2027 recuou de R$/US$ 5,30 para R$/US$ 5,28, com 2028 estável em R$/US$ 5,30.
Em relação à Selic, as expectativas seguiram estáveis em 13,75% para 2026, 12,00% para 2027 e 10,50% para 2028. Segundo o levantamento, os analistas esperam mais um corte de 25 pontos-base na reunião desta quarta-feira (16), seguido por manutenção ao longo das próximas reuniões de 2026.
Visão de Investimentos: as expectativas de inflação para horizontes mais longos continuam desancoradas, acima da meta, o que deve manter a política monetária cautelosa. Por outro lado, uma desaceleração da atividade econômica poderia abrir mais espaço para cortes de juros à frente. Por ora, seguimos com nossas recomendações neutras para os ativos domésticos, atentos à evolução do cenário macro e prontos para revisitar nossas posições conforme o balanço de riscos evolua.
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